OPINIÃO

A política pode ajudar a controlar a epidemia de HIV/aids

25/09/2014 18:09 -03 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02
Wavebreakmedia Ltd via Getty Images

O controle da epidemia de HIV/aids sempre esteve muito ligado -- senão totalmente dependente -- à duas coisas: desenvolvimento científico e vontade política. O primeiro evoluiu muito, das dezenas de pílulas diárias com terríveis efeitos colaterais para o atual único comprimido diário de baixíssima toxicidade. O segundo, por sua vez, teve seus altos e baixos.

Diz-se, por exemplo, que se o ex-presidente americano Ronald Reagan tivesse sido mais enfático na resposta inicial contra a epidemia, nos começo dos anos 80, é possível que esta nunca tivesse tomado proporções mundiais, tal como aconteceu. Desde a primeira publicação médica sobre a doença, em 1981, passaram-se anos até que Reagan mencionasse publicamente a aids pela primeira vez, em outubro 1987, e finalmente tomasse medidas para controlar a doença. Neste intervalo de seis longos anos, a imprensa já divulgava amplamente notícias sobre a epidemia e, mesmo assim, Reagan mantinha silêncio. Quando resolveu agir, os Estados Unidos já contava com quase 60 mil casos identificados de infecção naquele ano -- 28 mil dos quais morreram. Desde então, estima-se que o HIV/aids já tenha matado 36 milhões de pessoas no mundo todo.

Com o avanço médico e científico, as mortes foram controladas. Cada vez menos pessoas morrem de HIV/aids e, por isso, passamos a contar os vivos: hoje, há 35,3 milhões de pessoas vivendo com HIV/aids no mundo todo. E a expectativa de vida daqueles que têm tratamento adequado já é muito semelhante à de pessoas que não vivem com HIV, com tendência a se igualar nos próximos anos. Para avaliar a epidemia, também é computada a taxa de incidência, isto é, o número de novas infecções. Para que a epidemia seja controlada precisamos impedir que novas infecções aconteçam.

As ferramentas médicas e científicas para isso já estão disponíveis. Sabemos, por exemplo, que é muito importante aumentar o número de testes realizados. Um exemplo prático é o caso de São Francisco, nos Estados Unidos, onde o aumento do número de testes de HIV reduziu o número de novas infecções. Com mais testes, as pessoas eventualmente diagnosticadas positivas para o vírus iniciam o tratamento mais cedo, o qual, bem-sucedido, reduz vertiginosamente a transmissibilidade, inclusive em casos de falha no uso da camisinha.

Esse entendimento, aliás, influiu diretamente na legislação americana: em julho deste ano o Departamento de Justiça americano publicou o "Guia de Melhores Práticas para Reformar as Leis Penais Específicas para o HIV e Alinhar com Fatores Cientificamente Comprovados", a fim de acabar com as leis discriminatórias que ainda vigoravam em alguns estados daquele país e já levaram à cadeia centenas de soropositivos que não transmitiram o vírus a seus parceiros sexuais. Agora, ao invés de condenar soropositivos à prisão, a justiça americana está ordenando que busquem tratamento antirretroviral.

Mais recentemente, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças americano (CDC, na sigla em inglês) lançaram uma nova campanha de HIV/aids exclusivamente focada no tratamento para o HIV, como meio eficaz para prevenir a incidência de casos de infecção. Em outras palavras, como diz a própria campanha do CDC: "O tratamento para o HIV funciona". A ideia, com isso, é fazer com que as pessoas não tenham medo de fazer o teste de HIV e iniciar o tratamento, fundamental para reduzir a transmissibilidade.

Americanos, britânicos e canadenses já atualizaram suas diretrizes sobre a redução do risco de transmissão com o tratamento antirretroviral e vários países já adotaram a profilaxia pré exposição, que consiste no uso controlado dos medicamentos antirretrovirais para prevenir a eventual exposição ao HIV em populações vulneráveis, tal como recomendado pela OMS. Nesse quesito, infelizmente, o Brasil está para trás: o País ainda não fez uma diretriz que oriente seus profissionais de saúde sobre os últimos avanços científicos. Como consequência, as informações divulgadas são, muitas vezes, contraditórias e equivocadas, aumentando a desinformação sobre prevenção, teste e tratamento.

O País sempre foi exemplo na luta contra a aids, com tratamento universal e gratuito. Precisamos continuar assim e melhorar, acompanhando de perto os últimos estudos, aumentando o número de testes e cuidando melhor da distribuição de medicamentos, tão importante para estimular a adesão ao tratamento. É preciso acabar com as frequentes reduções no estoque de medicamentos que temos experimentado nos últimos anos e implementar o antirretroviral em único comprimido, prometido há vários anos e que ainda não chegou às farmácias do SUS. Também precisamos falar mais sobre HIV/aids para reduzir o estigma. Silêncio não funciona.

Ainda assim, Dilma Rousseff (PT), Marina Silva (PSB), Everaldo Pereira (PSC), Eduardo Jorge (PV) e Luciana Genro (PSOL) preferiram não falar nada sobre a epidemia de HIV/aids. Sequer responderam à pergunta: qual a sua proposta para combater a epidemia de HIV e aids no país?, feita pela Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (ABIA) para a edição de setembro de seu Boletim. O único candidato que o fez foi Aécio Neves (PSDB).

Em seu discurso, Aécio vai ao encontro das últimas diretrizes da OMS, ao dizer que "os programas de prevenção abordarão temática atualizada, não preconceituosa e objetiva, com foco nos grupos mais vulneráveis diagnosticados através de inquéritos epidemiológicos realizados e divulgados em todo o país". Sobre o número de testes, afirma que "o objetivo é reduzir o diagnóstico tardio através da disponibilização de testes rápidos". Ele não se posiciona claramente sobre a profilaxia pré-exposição, mas abre espaço para conversa, dizendo que este é um assunto a ser "discutido pela academia, organizações não governamentais e governo sempre galgados em protocolos científicos e clínicos de desenvolvimento local e internacional." Enfim, ele tem o meu voto.

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