OPINIÃO

Queridas pessoas brancas: Apropriação cultural existe, ainda que vocês não acreditem nela

Em minha opinião, qualquer pessoa, em qualquer lugar, deveria ser encorajada a imaginar outros povos, outras culturas, outras identidades.

17/07/2017 13:03 -03 | Atualizado 17/07/2017 13:04 -03

A apropriação cultural se tornou um desses termos da era Trump que deixa todos nervosos disparando mensagens no Twitter. Mas há algo que você deve notar quando o tema chega em seus feeds e murais nas redes sociais — as pessoas que fazem pouco caso como se fosse piada são, bem, pessoas brancas.

Como na noite de 11 de maio, quando várias figuras de peso da mídia "hilariantemente" começaram a organizar um "Prêmio da Apropriação" em reação à renúncia de Hal Niedzviecki, da Write Magazine, depois de uma estrondosa reação ao seu editorial que reivindicava a criação de um "Prêmio da Apropriação".

(Mais sobre isso em um segundo.)

hal niedzviecki

Hal Niedzviecki sentado à mesa. (Foto: CP)

Começou com o ex-executivo Ken Whyte. Logo depois, a editora-chefe do National Post, Ann Marie Owens, a editora-chefe da revista Maclean, Alison Uncles e o editor-executivo da CBC, Steve Ladurantaye, além de muitos colunistas de várias publicações se somaram ao grupo.

Pela manhã, Steve Ladurantaye havia tuitado um pedido de desculpas por seu "estúpido e fútil tuíte sobre uma ideia estúpida e fútil", e Owens também entrou em cena com "desculpas por qualquer ofensa causada por algo que começou como um 'thread' de protestos pela liberdade de expressão — o Twitter não é lugar para futilidades".

Mas o argumento não fútil deles fica claro quando se nota o pálido tom de pele de todos que estavam escrevendo naquela corrente.

Em minha opinião, qualquer pessoa, em qualquer lugar, deveria ser encorajada a imaginar outros povos, outras culturas, outras identidades.Hal Niedzviecki

Antes que você comece a bombardear meu feed e mural, não estou dizendo de forma alguma que essas pessoas brancas (ou outras) são racistas porque têm uma visão oposta à minha sobre esse assunto. Estou dizendo que há uma razão por que elas pensam que a apropriação cultural não é algo importante, e essa razão é porque, para elas, não é algo importante.

É a mesma razão pela qual tantos homens não acham que mexer com as mulheres na rua seja um problema — eles não têm medo disso e, além do mais, é apenas um elogio, correto?

O que é apropriação cultural? Vejamos Elvis que, como o rapper Chuck D do Public Enemy destacou no livro "Fight the Power", "era um herói para a maioria, mas nunca significou nada" para ele. A razão é porque Elvis se apropriou da cultura da música da minoria negra e a tornou palatável ao dar nova embalagem para vendê-la à maioria branca.

Agora, Elvis realmente adorava a música dos artistas negros antes? Foi legitimamente inspirado por ela? Claro que foi. O site Daily Beast publicou uma entrevista concedida por Elvis em 1957, quando disse:

Muitas pessoas parecem pensar que comecei este negócio. Mas o rock 'n' roll estava aqui muito antes de eu chegar. Ninguém pode cantar esse tipo de música como as pessoas de cor. Encaremos isso; não posso cantar como o Fats Domino. Eu sei disso. Mas sempre gostei desse tipo de música.

No entanto, Elvis já havia sido batizado de "O Rei do Rock'n'Roll", e aceito pela mídia branca e pelo público branco. Elvis não estava sozinho. Como destacado no livro Cambridge History of American Music, "parece que muitos americanos queriam a música negra sem os negros nela". Na década de 70, o rock'n'roll era um gênero quase inteiramente branco.

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Elvis Presley. (Photo: Flickr)

Esse é o pano de fundo que explica por que a comunidade negra fica, compreensivamente, decepcionada quando, digamos, um Grammy do hip hop vai para Macklemore em vez de Kendrick Lamar, e por que você vê manchetes como: "Iggy Azalea Não Ganha Grammy por Melhor Álbum de Rap; Twitter Respira Aliviado".

Agora, esta última é engraçada porque é verdade. Você não ouve nada sobre apropriação cultural hoje em dia porque as pessoas já não se incomodam mais. É porque as mídias sociais deram voz aos sem voz, por isso, as queixas da minoria que antes não eram escutadas pela maioria branca agora estão sendo amplificadas on-line.

Basta perguntar a Niedzviecki. Ele agora é ex-editor da Write Magazine, depois de publicar "Winning the Appropriation Prize" (Ganhando o Prêmio da Apropriação), no qual encorajava escritores brancos e de classe média a se apropriarem culturalmente ainda mais! Ah, mencionei que o tema era dedicado à escrita indígena? Sim, verdade.

Seu editorial começou com Niedzviecki proclamando: "Não acredito em apropriação cultural" — como se uma pessoa branca dizendo isso pudesse fazer toda a questão desaparecer.

"Em minha opinião, qualquer pessoa, em qualquer lugar, deveria ser encorajada a imaginar outros povos, outras culturas, outras identidades", acrescentou. "Eu iria ainda mais longe e diria que deveria até haver um prêmio para isso — o Prêmio da Apropriação pelo melhor livro para um autor que escreve sobre pessoas que nem sequer são remotamente como ele ou ela."

Na verdade, ele não entende por que as pessoas estão chateadas.

Seu argumento era que a literatura canadense é "exaustivamente branca e de classe média", e o problema é que essas pessoas escrevem muito frequentemente sobre ser branco e de classe média. A solução, em sua opinião, não é abrir portas para mais pessoas de cor, mas fazer com que esse pessoal exaustivamente branco e de classe média escreva sobre pessoas de cor ou, como disse, "explore as vidas de pessoas que não são como você".

Agora, Niedzviecki era editor de uma revista sobre escrita — publicada nada mais nada menos pelo Sindicado de Escritores do Canadá —, por isso seria muito difícil afirmar que seu argumento não tenha sido intencional. Quero dizer, sua seção era literalmente intitulada "Writer's Prompt" (Incentivo ao Escritor). Mas isso não o deteve.

Primeiro, as mídias sociais detonaram o editorial, considerado "sem noção e irrefletido" — graças aos posts de figuras como Nikki Reimer, membro do conselho editorial, colaboradores da edição indígena, como Alicia Elliott, e estudiosos do tema indígena, como Daniel Heath Justice.

(Essência do debate da apropriação: quando tanta coisa foi forçosamente tirada dos povos indígenas, é antiético exigir voz & história também.)

Em seguida, o Sindicato dos Escritores do Canadá divulgou um pedido de desculpas, e Niedzviecki renunciou.

Mas, depois disso, ele concedeu uma entrevista ao Globe and Mail, na qual afirmou: "Não tive nenhuma intenção de ofender ninguém com o artigo".

Claro que não teve. Na verdade, ele não entende por que as pessoas estão chateadas. Detalhe: não é o polêmico termo que é perturbador para as pessoas, mas o ato da apropriação cultural.

É o ato de hipsters usarem cocares em festivais de música. É o ato de garotas brancas se fantasiarem de "índias sexy" no Halloween e, como Niedzviecki e todas as pessoas brancas devem estar cientes, o ato de Joseph Boyden alegar ascendência indígena para vender livros, ocupando um espaço já muito limitado na exaustivamente branca e de classe média literatura canadense, que poderia ser concedido a escritores indígenas.

E, sim, é o ato de questionar a existência real da apropriação cultural na edição de uma revista supostamente dedicada a amplificar as vozes dos historicamente apropriados.

As pessoas brancas também praticam política de identidade — só que apenas chamam de "política"

E, claro, enquanto escritores indígenas usaram o Twitter e o Facebook para expressar sua indignação, Elizabeth Renzetti, colunista do Globe and Mail, argumenta que "ideias impopulares não devem ser silenciadas", como se apropriação cultural fosse isso: "impopular". (Nota: a manchete depois foi suavizada para "Apropriação Cultural: Por Que Não Podemos Debatê-la?")

Porque, para ela, não é algo importante.

Também não é algo importante para o editor da revista Walrus, Jonathan Kay, que tuitou: "O ataque contra Hal Niedzviecki é o que obtemos quando deixamos fundamentalistas de política de identidade sair fora de controle. Triste e vergonhoso".

(As pessoas brancas também praticam política de identidade — só que apenas chamam de política)

Também não é algo importante para Christie Blatchford, do National Post, cuja coluna foi intitulada "Editor de revista é o mais recente a ser silenciado pelo pecado da liberdade de expressão".

norval morrisseau

Norval Morrisseau, na Pollock Gallery. (Foto: Dick Loek/Toronto Star via Getty Images)

Vejamos uma outra forma de como isso poderia ter ocorrido.

No início deste mês, estava programada a inauguração de uma exposição da pintora Amanda PL, de Toronto, mas que foi cancelada depois de críticas de que sua arte se apropria do estilo indígena Woodland do artista Norval Morrisseau, da etnia Anishinaabe.

Ou como noticiado pela revista Newsweek: "PINTORA BRANCA TEM EXPOSIÇÃO CANCELADA EM MEIO A DEBATE SOBRE APROPRIAÇÃO CULTURAL".

Exceto pelo fato de que o coproprietário da Visions Gallery, Tony Magee, ter dito que isso não é verdade.

As pessoas brancas de fato precisam "explorar as vidas de pessoas que não são" como elas. Mas você não faz isso roubando suas histórias.

"Não tomamos nossa decisão por causa do politicamente correto. Não fizemos isso sob pressão. Fizemos porque abrimos nossos olhos", Magee disse à Canadian Press. "É realmente ofensivo que as pessoas nos acusem de ter mudado de opinião e de não estarmos dispostos a defender o que acreditamos. Bem, estamos defendendo o que acreditamos."

É a maneira apropriada de lidar com as questões das pessoas marginalizadas.

Mas Niedzviecki tinha razão sobre uma coisa — as pessoas brancas realmente precisam "explorar as vidas de pessoas que não são" como elas. Mas você não faz isso roubando suas histórias. Você faz isso lendo-as, escutando-as e compartilhando-as.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost Canada e traduzido do inglês.

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