OPINIÃO

Síndrome de Alice

14/02/2014 10:12 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02

Alice entra em apuros no País das Maravilhas porque não consegue entender as implicações de viver em um mundo diferente daquele que até então conhecia. Ela ingenuamente acredita que se algumas ideias funcionam na Inglaterra vitoriana elas irão necessariamente funcionar em qualquer outro lugar, em qualquer outro tempo. Teimosa e cheia de certezas, Alice insiste em pautar sua conduta em Wonder-land pelos mesmos preceitos que aprendeu em Eng-land. O resultado, na obra tão atual de Lewis, é que a lógica da menina se espatifa a cada passo, botando a nu a insensatez própria e a loucura alheia.

Ao que tudo indica, discursos políticos prevalentes em nosso tempo padecem dessa mesma síndrome de Alice. Eles parecem conferir valor de verdade absoluta a modelos tradicionais de explicação da realidade, mesmo em face de condições sociais, políticas e econômicas substancialmente novas. Do fundamentalismo de cunho ultra-liberal do Tea Party nos EUA ao populismo de viés autoritário na América Latina tais discursos se apegam a um repertório conhecido de diagnósticos e soluções já utilizado no passado.

Eles parecem impermeáveis, por exemplo, às implicações da atual transição de uma sociedade de produção para uma sociedade de consumo e de serviços e ao fim da hegemonia do modelo industrial como matriz para todas as relações sociais. Parecem igualmente alterar-se pouco diante das modificações que categorias utilizadas durante longo tempo para explicar a sociedade e pensar a política -- capital, trabalho, mercado, Estado -- sofreram em seu modo de estruturação e nas relações que guardam entre si. A inefácia das soluções que tais discursos propõem tende a penalizar severamente as sociedades em que prevalecem.

Isto coloca enorme pressão sobre as instituições democráticas. Sem renovação de seus paradigmas, elas têm grande dificuldade em dar conta dos problemas de um mundo pós-industrial. Os atores políticos parecem aturdidos e incapazes de acompanhar o passo dessas mudanças, que dirá de oferecer novas perspectivas para o convívio coletivo. A perplexidade dos governos democráticos diante da tarefa de dar respostas adequadas aos novos movimentos reivindicatórios é índice desse desgaste.

Os atores sociais, por outro lado, têm mostrado notável agilidade para reagir às novas condições. Tanto as formas de associação entre indivíduos como as de organização do capital vêm rapidamente se modificiando. Esses atores têm buscado criar -- amiúde de modo fragmentário e provisório -- mecanismos para enfrentar os desafios desse novo paradigma e para criar, a partir dele, oportunidades antes desconhecidas. O descolamento entre a agilidade da sociedade e o pasmo das autoridades vai corroendo, perigosamente, a crença na utilidade das instituições políticas.

Enquanto vai caindo pelo poço, Alice olha em volta e vê que está abandonando os objetos familiares que compunham o seu mundo. De maneira muito particular, observa que vão ficando para trás os mapas a partir dos quais sempre se orientara. Para um mundo novo, mapas novos, parece dizer Lewis. Se a representação tradicional do mundo, ainda que respeitável e sofisticada, não responde mais às perguntas com que é confrontada, então é preciso abandoná-la e ter a coragem de olhar de frente o que pode vir depois da queda.