OPINIÃO

Ei, quer ser minha família?

Abandonadas, crianças e adolescentes de diversas faixas etárias no Distrito Federal compartilham frustrações e aspirações.

24/07/2017 17:46 -03 | Atualizado 24/07/2017 17:46 -03
Divulgação/ Priscilla Peixoto
Eles têm sonhos semelhantes: ser jogador de futebol ou de voleibol, modelo, atriz.

*Artigo escrito por Priscilla Peixoto, jornalista pós-graduanda em Jornalismo Digital e Produção Multimídia

Milhares de meninos e meninas, que foram abandonados, moraram nas ruas ou viveram em meio às drogas. Desde cedo, eles têm o futuro incerto e encontram nas casas de acolhimento o apoio que, na realidade, deveriam ter daqueles que sequer vão visitá-los.

"O meu maior sonho é sair daqui"

"Eu quero ser jogador de futebol!"

Os relatos de Mariana*, de 12 anos, e João*, de 10, são realidade na maioria das unidades de acolhimento do Distrito Federal. Mariana e João são irmãos e foram levados ao Conselho Tutelar por vizinhos que sempre os viam sozinhos e desprezados. Em seguida, foram encaminhados à Sociedade Cristã Maria e Jesus — Nosso Lar, que fica no Núcleo Bandeirante.

Muitos dos menores que chegam às casas de acolhimento são filhos de mães e pais drogados, foram abandonados e criados por outros parentes ou resgatados pelo Conselho Tutelar de situações miseráveis. Nos abrigos, as crianças e adolescentes encontram a estrutura que precisam para seguir a vida normalmente. Ou ao menos tentam seguir.

Nas casas de acolhimento existem, além dos assistentes sociais, psicólogos, orientadores e pedagogos. Algumas unidades, como a Nosso Lar, possuem convênios com o governo do Distrito Federal, mas estão abertas às doações de voluntários, por exemplo. A capacidade de acolhimento varia de 10 a 30 crianças por unidade.

Em 2016, até setembro, quase 400 menores estavam cadastrados nos lares de acolhimento do DF, conforme o gráfico:

A missão de Patricia Braga, coordenadora pedagógica do Nosso Lar, é transmitir às crianças e adolescentes o máximo de confiança, permitindo que a casa seja, de fato, a família dos pequenos. A equipe acompanha os jovens na escola, vai às reuniões de pais e participa dos momentos da vida deles.

Divulgação/ Priscilla Peixoto

"E a hora que eu entrei, a foto que tinha na estante deles era a foto de 15 anos de uma delas, da festa que tinha aqui. [...] E era a foto de família que eles tinham na sala. E isso não tem dinheiro que pague!"

Conhecer a história de cada criança que chega à casa de acolhimento e investigar possíveis candidatos para adotá-la é a tarefa do assistente social Manoel Gomes de Pina. Em meio aos papéis, denominados evolução de caso, Manoel se depara com situações diversas: desde bebês que são enviados aos abrigos por abandono até crianças que foram maltratadas.

Já tive casos de crianças chegarem queimadas, crianças abandonadas, encontradas no lixo. E nosso trabalho é buscar e resgatar a história dessa criança.

Da rua pela rua

Rogério Barba, como é conhecido, acredita ter 45 anos. Ele foi abandonado ao nascer e até os 5 anos não tinha lenço nem documento. Foi um juiz que deu um nome e uma data de nascimento a ele. Barba passou por três unidades de acolhimento em São Paulo e veio para o Distrito Federal depois de morar na rua e ser ferido durante um assalto que havia cometido. Na capital federal, ele encontrou apoio em um grupo que auxilia moradores de rua. A partir daí, decidiu que ia lutar pela vida dos órfãos e moradores de rua. Hoje, Rogério Soares de Araújo é porta-voz cultural do DF e trabalha em prol da causa.

Eu não sei o que é o amor. O amor que eu conheço e vivo hoje é esse que eu faço: o amor de ajudar o próximo.

Mas e a adoção?

Até outubro de 2016, o número de crianças adotadas no Distrito Federal cresceu mais de 60%, comparado com o ano anterior. A maioria delas é formada por meninas, de 0 a 3 anos, conforme os gráficos a seguir:

"Às vezes aquela pessoa que vai te amar, que vai ser seu filho e que vai ajudar a sua família a ser ainda mais feliz, ela não tem a tua cor, ela não tem o tipo de cabelo que você tem [...], mas ela tem todo um universo de afetividade que vai completar a sua família."

Patricia Braga confirma as estatísticas na prática. Boa parte dos candidatos à adoção procura características semelhantes às deles nos possíveis adotados.

Carlos*, de 10 anos, morava com a avó e uma irmã mais nova no Paranoá. Sob o descaso de um olhar adulto, os dois foram levados ao Nosso Lar há um ano. Hoje, o pequeno Carlinhos sonha em ser jogador de futebol e está na fila da adoção. Um casal homossexual já se prepara para adotar Carlos e a irmã no final do ano.

"Hoje eu tenho dois pais!"

Mas como funciona a adoção?

O papel cabe à 1ª Vara da Infância e da Juventude, que mantém um cadastro de crianças e adolescentes em condições de serem adotados e outro de pessoas habilitadas para adotar. O vínculo de adoção constitui-se por sentença judicial. Por isso, o Juiz da Vara da Infância e da Juventude é a Autoridade legitimada pela sociedade para aplicar a medida de adoção.

As pessoas interessadas em se habilitar para adoção devem inicialmente procurar assistência jurídica particular ou defensoria pública para pedir a habilitação para adoção junto à Justiça da Infância e Juventude.

Quem pode adotar?

  • Todo adulto maior de 18 anos, que seja pelo menos 16 anos mais velho que o adotando e não demonstre incompatibilidade com a natureza da medida;
  • Os divorciados ou separados judicialmente poderão adotar conjuntamente desde que o estágio de convivência com o adotando tenha se iniciado na vigência da união conjugal e desde que acordem quanto ao regime de visitas;
  • Aquele que estabeleceu vínculo de paternidade ou maternidade com o filho (a) do (a) companheiro(a) ou cônjuge.

Se você quiser ter mais informações sobre o processo de adoção no DF, basta consultar o site do Tribunal de Justiça do DF.

*Os nomes são fictícios para preservar a identidade dos menores.

Este texto foi publicado originalmente no Medium.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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