OPINIÃO

"Com a música, as pessoas se igualam"

16/10/2015 18:38 -03 | Atualizado 29/01/2017 13:28 -02
Westend61 via Getty Images
Germany, Berlin, Mature man listening music with head phones

Reportagem de Bruno Macedo, Eric Campi, Gabriel Alves, Ricardo Siqueira e Téo França, estudantes de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero

"Pode botar aí na sua matéria que cego sempre passa do ponto de ônibus que quer descer. O motorista não tá nem aí pra gente", disse José Antônio da Silva, líder da banda Jataí, formada exclusivamente por deficientes visuais. Toda semana José, ou Zé, recebe em sua casa na Vila Formosa, Zona Leste de São Paulo, outros quatro músicos para o ensaio. "O Jair foi parar no ponto final da linha. Pegou um baita trânsito pra chegar aqui e agora tá no sol esperando. Tem como você ir buscá-lo de carro? ", pediu.

O baterista Jair Cavaleis esperava em frente a um posto de gasolina, sentado no banquinho do ponto de ônibus. A bengala retrátil na mão. Mas sem óculos escuros que escondessem sua condição. Esse era um consenso entre os membros da Jataí: não usar óculos durante os ensaios. Das caixas de som do carro a voz do tropicalista Tom Zé soava certeira e profética: " Tô iluminado pra poder cegar, tô ficando cego pra poder guiar". Coincidência vista, ou ouvida, com bom-humor por Jair, que comentou: "Essa é das boas, hein?"

De volta à casa de José, o som de uma guitarra recebia-nos do lado de fora do portão. Ao entrar, vimos que a sala de estar havia se transformado em um pequeno estúdio. Três caixas amplificadoras haviam sido espalhadas pelo chão com cabos que as conectavam à mesa de som, estrategicamente posicionada em cima do sofá, onde Eliane Cristina, a esposa de José Antônio, podia controlá-la e ajustar os sons de acordo com o ouvido de precisão cirúrgica do líder da banda. Ao lado da televisão de 55 polegadas ficava o teclado e junto à janela os suportes para as caixas e tons da bateria. Exatamente em frente a essa estrutura estava Zé afinando as cordas de sua guitarra.

Com o tempo, cada integrante da banda foi chegando e se instalando em seus lugares. Armando as partes da bateria, afinando o baixo, regulando o microfone e testando cada configuração do teclado. Tudo no último volume. Tudo ao mesmo tempo. O que normalmente seria feito em partes para o perfeito preparo dos instrumentos. A confusão de sons, porém, não parecia incomodar nem atrapalhar os músicos. Cada um conseguia se concentrar em seus afazeres sem precisar da ajuda de aparelhos como metrônomo ou afinador. Cada nota era ajustada de ouvido. "Você tá ouvindo um treble nessa guitarra aqui? " perguntou Zé. " Não" respondeu Jair. A barulheira era motivo de piada para Victor Hugo, filho de José, que tentava almoçar sossegado na cozinha com a porta fechada. "Toda tarde de ensaios é assim: esse som 'baixinho', todos os instrumentos ao mesmo tempo. Daqui a pouco vou subir para meu quarto, colocar um fone de ouvido e escutar alguma música boa", brincou o adolescente.

Início do projeto

"Uma vez eu estava pensando e percebi que no Brasil não tem nenhum cego de expressão na música como Stevie Wonder e Ray Charles, então achei que juntar uns cegos que gostam de tocar pudesse dar uma visibilidade maior para a nossa condição", explica José Antônio, que além de guitarrista faz vocal e compõe todas as músicas da Jataí. "Nós temos um projeto único de tocar músicas autorais, nunca covers, diferentemente de outras bandas de cegos como a Tribo de Jah".

O leadman juntou um projeto antigo de composições que havia feito sobre o tema "Deus, ecologia e mulher" com o sonho de fazer uma banda exclusivamente de deficientes visuais e "mostrar o que um cego é capaz de fazer", em suas palavras. O ex-professor de música foi então convidado pelo Sesc para montar a banda e servir como um empurrãozinho comercial para poder ir atrás dos talentos que hoje formam a Jataí.

Todos os membros da banda já tiveram outras experiências com música. O baterista Jair e o baixista José Aparecido, o Índio, foram colegas de escola de José Antônio. "No nosso colégio havia muito incentivo para tocarmos" conta Jair. "Então lá mesmo formávamos bandas de rock, samba, sertanejo. Mas uma hora todo mundo para né? Tem que ganhar dinheiro de outro jeito".

A vocalista Sueli também canta desde criança, mas a Jataí é a primeira banda profissional, reconhecida pela Ordem dos Músicos, de que ela faz parte. "Meu marido conhecia o Guilherme, amigo do Zé, que contou para ele que estavam montando uma banda. Nisso meu marido já me indicou. Ele gosta de me ver cantar".

O membro mais novo da Jataí é Tatiane di Paula. A tecladista e backing vocal toca desde criança, quando tinha um mini piano acústico. "Tirei minha primeira música aos 8 anos e tive meu primeiro teclado aos onze. A teoria aprendi no Conservatório de Guarulhos. Fiz o curso de Musicografia Braille por três anos lá". Tati construiu carreira solo fazendo covers de sertanejo e MPB até que um amigo em comum com Zé a levou para uma espécie de teste com os membros da banda e "a partir daí, só alegria" ri Tati.

Habilidade e marketing pejorativo "O nosso principal sonho é sermos reconhecidos pelo que nós somos capazes de fazer, não pela nossa deficiência" afirma Zé, "as pessoas acham que inclusão social é por aqueles pisos táteis no chão do banco pra nós andarmos, mas isso não é nada. Inclusão é abrir a mente das pessoas".

Uma das ideias que a banda pretende usar na divulgação do projeto é não anunciar a deficiência visual. "As pessoas vão atrás porque veem a deficiência como coisa inóspita. Acaba sendo um marketing pejorativo para nós. Não queremos ser procurados por isso apenas", continua o músico.

"O legal é as pessoas descobrirem nossa condição no meio do show, ou avisarmos só no final. Desse jeito a deficiência torna-se apenas um detalhe" diz Tati. Jair completa que "quando é tudo 'normal' as pessoas analisam a música criticamente, com o deficiente visual não. Partem para analisar o que um cego pode fazer, não o que um músico pode fazer. Tem uma certa inferioridade aí".

Apesar disso, os empresários que auxiliam a banda acham importante sinalizar que há a deficiência. Pelo menos enquanto a banda ainda procura mais espaço para as apresentações. José Antônio considera isso como uma propaganda ruim, mas entende ser necessário até serem reconhecidos pelos donos das casas de shows e pessoas influentes no meio musical e consigam algum patrocínio. "Talvez consigamos esse efeito surpresa quando formos apresentados para o grande público".

Mesmo com a dificuldade de conseguir lugares para as apresentações, nenhum membro da banda considera que a deficiência seja o principal motivo. "Essa dificuldade das bandas é comum. Tem muita gente querendo um espacinho. A deficiência visual até poderia ser um chamariz, mas sinto isso como uma trapaça", comenta Jair. Índio finaliza: "A gente quer ir pela nossa capacidade".

Música, percepção e preconceito

Para o grupo, a música é um meio de levar ao público a mensagem de que ser deficiente visual não os impossibilita em nada e essa mensagem tem que se tornar comum, tornar-se moda. "É a música que acaba ditando os modismos" afirma José, " seja nos cabelos compridos dos Beatles, o Elvis Presley que mostrou, nos anos 1950, que o homem também deve dançar ou o Bach que usava a música para mostrar seus ensinamentos religiosos". Segundo ele, a música é o jeito de ensinar a sociedade a viver com o deficiente e o deficiente a viver em sociedade.

José Aparecido, o Índio, acha que a música é um dom: "é uma coisa muito boa, que vai encarnando em você, entra na sua alma" comenta. Índio, que estudou com José Antônio no colégio, hoje é pedinte. "O único dia em que ele não pede esmola é quando tem ensaio" afirma Eliane. Talvez daí venha a tocante afirmação do instrumentista: "a música faz com que eu me sinta útil". "A banda nos deu outra percepção da vida, outra fonte de dinheiro e a condição de mostrar o potencial do deficiente", desabafa Sueli, que é massoterapeuta. "Muita gente acha que nós não somos capazes de fazer nada, mas na verdade nós desenvolvemos os outros sentidos, o que ajudou na minha profissão da massagem, por exemplo". Para ela, o fato da não-visão auxilia, inclusive, a manter relações mais verdadeiras. "Você começa a enxergar as pessoas internamente e o lado emocional aflora. Eu nunca vi meu marido, não sei como ele é", admite com um sorriso no rosto.

"O pessoal fala que ele é bonito, mas isso é relativo. Se um dia eu enxergar não sei se vou gostar do que eu vejo. Prefiro do jeito que estou". Essa percepção se estende para os próprios membros da banda. "É impressionante como nos damos bem aqui. Todo mundo se encaixou perfeitamente"

afirma Tatiane. "Isso vem da nossa capacidade de sentir as pessoas como elas realmente são. Não temos aqui as enganações da aparência. Isso aqui não é uma banda, é uma família", ressalta.

"O mundo não está preparado para o deficiente. Ninguém pensa na gente. Todas as adaptações são feitas posteriormente" continua a vocalista Sueli. "E na hora do trabalho há mais preconceito ainda, mas a música nos dá uma outra oportunidade". Jair concorda: "Com a música, as pessoas se igualam. Nada impede que nós possamos praticar a música assim como um não-deficiente".

Alguns membros acreditam que a deficiência melhora a percepção musical. "Nós não só ouvimos mais como conseguimos sentir mais a música" reflete José, "claro que a teoria e a partitura são importantes também, mas se você não ouvir a música, você se perde". Eliane, esposa de José, que não é deficiente visual e auxilia a banda durante ensaios e apresentações, afirma que eles são bem mais perfeccionistas que ela, mesmo ela sendo professora de música. "Eles estão fazendo alguma coisa e pra mim está tudo certo, mas vem alguém e diz que não. Que está errado!".

Mais visão

Com todos os membros a postos e os instrumentos prontos para o uso, a banda Jataí começa seu 13º ensaio. A música escolhida foi a "Pantanal" que exalta as belezas deste ecossistema com suas diversificadas flora e fauna, seguindo o segundo substantivo do tema "Deus, ecologia e mulher" do professor José Antônio. Os dedos habilmente passando por cordas e teclas, as vozes em perfeita composição umas com as outras o ritmo da bateria incansável.

Os olhos fechados de cada integrante mostrando que a visão não se limita ao olhar e que cada um deles, naquele momento, enxergava muito mais do que nós seríamos capazes. Na fala do filho de José Antônio, Victor Hugo: "Nós temos acesso a uma quantidade visual de coisas muito grande e não damos importância para o que estamos sempre vendo. Essas coisas são, na realidade, muito mais bonitas do que achamos".

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