OPINIÃO

Somos todos pedófilos ou só queremos colocar nossas responsabilidades em uma criança?

29/10/2015 20:33 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
FlIckr.com/rajkamalaich

Quando eu tinha seis anos me mudei com minha mãe pra uma cidade do interior. Ela havia ido pra trabalhar, após se separar do meu pai sem um tostão no bolso. Era na fronteira com a colômbia, onde não conhecíamos ninguém. Me lembro da conversa que tivemos logo que chegamos lá:

- Minha filha, agora somos só eu e você. Não tem sua tia, sua vó pra ficar do nosso lado aqui. Estamos sozinhas, então eu preciso que você se proteja por mim, quando eu não estiver perto de você. Não converse com homens, não fale com ninguém que você não conhece, não deixe eles te encostarem, pegarem na sua mão ou no seu cabelo.

Nossa casa tinha uma varanda na frente com telinha, tipo casa de roça, mesmo, e quando ela ia trabalhar, antes de ter recebido o primeiro salário pra poder pagar uma moça que passasse o dia comigo, ela me dizia:

- Se alguém te chamar aqui na varanda, não saia de casa, não destranque a porta. Se alguém fizer alguma pergunta esquisita, quem está com você, se perguntarem se sua mãe está, diga que sim. Finja que me chama e entre pra dentro de casa, feche as janelas e portas e me telefone.

Pronto. Foi neste dia, quando eu tinha seis anos, em que comecei a me perguntar porquê. Porque eu não posso brincar na rua com os meus amigos? Porque eu não posso responder com educação uma pessoa estranha na rua, sendo que minha própria mãe, que estava me falando aquilo, havia me ensinado a ser educada.

Minha mãe nunca leu Simone de Beauvoir, ou se leu, nunca comentou comigo. Ela não precisou de um texto acadêmico pra entender que a sociedade nos faz as mulheres que somos: culpadas, com medo, mortas e esquecidas com a mesma rapidez de quem marca reunião na câmara duas da manhã para passar projetos por debaixo dos panos. Minha mãe nunca precisou abrir um livro pra entender que, com seis anos, eu já era desejada por homens adultos, e que, com seis anos, se eu fosse agredida e estuprada, a culpa seria da minha mãe (a mesma que trabalhava 10, 12 horas por dia pra colocar comida na mesa pra eu comer). Muito menos a responsabilidade foi dela, porque minha mãe nunca me sexualizou, nunca me impôs nenhum padrão de vestimenta ou de comportamento. Então parem com isso de falar que nós sexualizamos as crianças, porque eu já acho o contrário: as crianças são obrigadas a serem sensuais desde cedo para conseguirem atenção (o bebê que beija e abraça estranhos é melhor que o tímido e por aí vai), e aprendem a sensualidade na TV, na escola e dentro de casa, não porque seus pais a impõem, mas porque uma criança só aprende repetindo. Porque vivem numa sociedade onde não há espaço para crianças, apenas para adultos.

Desde sempre a sociedade foi machista: desde a idade média, onde se casavam crianças com homens idosos, até hoje, onde no nordeste ou na índia, ainda se casam as mesmas crianças, para que tenham quem cuide delas, para que seja uma boca a menos, para que o peso de mais uma mulher na casa se alivie.

Simone só fez um favor enorme, lá em 1949, de escrever isso num papel e publicar um livro. E se não vamos falar de Simone porque ela não é pós moderna, não vamos falar de ninguém, muito menos de Freud, que nem tinha que entrar numa conversa sobre feminismo, visto a misoginia cruel que ele adorava colocar nas suas teses. Essa frase tão simples que muita gente não entende até hoje: "não se nasce mulher, torna-se". Torna-se mulher porque a sociedade te impõe isso. A mulher nem nasceu e já furam a orelha, compram um kit de panelas e bonecas para que ela materne até a hora que seja mãe de verdade, afinal é só pra isso que serve uma mulher (além de cuidar da casa, mas isso a bebê também aprende com os brinquedos). Os homens também tem sua socialização masculina, sempre cobrados de serem machos, viris, fortes. Todos são ensinados do seu papel como provedor e multiplicador na sociedade, menos o garoto que não cumpre os papéis de gênero esperados dele, porque crescer sendo chamado de viadinho e apanhando na rua e dentro de casa não tem nada de socialização masculina, afinal quando a feminilidade é percebida, é logo rechaçada pelos adultos.

Com essa frase, Beauvoir se tornou um dos pilares do feminismo: muito antes da terceira onda e das vertentes se definirem, essa frase já ecoava por aí, e até hoje é falada pra ver se entra na cabeça da sociedade patriarcal. Todas as vertentes do feminismo se beneficiam dela, porque independente de quem pratica o feminismo, o sujeito é o mesmo: a mulher.

A mulher que desde pequena é sexualizada pelos próprios tios, primos, nos olhares, nos comentários e nas muitas coisas que não precisam serem ditas para serem entendidas, que desde pequena é vista como bonita ou feia, inteligente ou burra. Que aos nove anos já começa a ter o seu valor julgado. Isso não acontece porque ela é uma criança, mas porque ela é vista como uma mulher. Quem cobiça uma menina, quem direciona sua satisfação sexual para uma criança, se dirigindo a ela como se fosse uma pessoa adulta, não a vê como uma criança. E nisso não há nada de pedofilia, que é uma doença e deve ser tratada como tal. Nisso há a nossa sociedade, que nos moldou para sermos mulheres e cumprirmos papéis desde que nascemos. Logo, os homens devem esperar esse comportamento desde cedo, e não se limitam apenas a nos observarem como também tolherem nossa liberdade dizendo mais e mais coisas que esperam de nós. Que sejamos bonitas, que satisfaçamos seus desejos sexuais, que não sejamos muito inteligentes.

E pra saber o que é ser mulher não precisa de teoria de gênero, nem de fazer mestrado no assunto: só se tornando, só sendo cada vez mais e mais atingida pelas pedras que te jogam e fazem você encolher e caber numa caixinha escrita "mulher".

É admirável o tema "daquela redação" (que foi muito taxado de "feminazi" apesar de não citar a palavra "feminismo" em nenhum momento da proposta, mas vou deixar o delírio pra quem é de delírio) pela discussão gerada. Mas muito além do tema daquela redação, existem meninas quilombolas que são vendidas como mercadoria, obrigadas a satisfazer os desejos sexuais de homens muito mais velhos (e com muito mais oportunidades) do que elas. Temos mulheres comemorando o fato de estarem vivas, apesar de seus ex companheiros as terem mutilado e a justiça fechar os olhos para isso.

Pra essas mulheres, que nunca precisaram ler a frase da Simone pra saber o que é ser vista como mulher, o que é que esperam dela e o que é sua obrigação, não existe teoria queer. Porque elas não tem tempo de se perguntar se elas podem ser o que quiserem, se elas podem se libertar do binarismo e andarem fluidamente pelos espectros de gênero. Pra essas só há uma coisa: roupa pra lavar e filho pra criar.

Então por favor, guarde seu discurso academicista, com tantas palavras difíceis. Estamos no Brasil, e enquanto você discorre sobre a tristeza de não falarmos do pós modernismo e da teoria queer, nossa sociedade ainda nem entendeu que uma mulher é um ser humano.

Sou uma feminista interseccional extremamente privilegiada: sou branca e tive a oportunidade de me graduar num curso superior. Esse texto é em resposta ao texto "Somos todos pedófilos: Por um feminismo menos sádico", mas principalmente é um texto sobre quem não tem esses mesmos privilégios que eu.

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