OPINIÃO

Entenda a crise grega

29/06/2015 22:52 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02
ANGELOS TZORTZINIS via Getty Images
Protesters take part in a demonstration in front of the Greek parliament in Athens on June 29, 2015. Greece shut its banks and the stock market and imposed capital controls after creditors at the weekend refused to extend the country's bailout past the June 30 deadline, prompting anxious citizens to empty ATMs. AFP PHOTO / Angelos Tzortzinis (Photo credit should read ANGELOS TZORTZINIS/AFP/Getty Images)

Analisando o drama, tragédia ou comédia em curso na Grécia, cinco observações se destacam como cruciais em meio à névoa que obscurece o que de fato acontece no palco.

A primeira observação é que a Grécia se deu muito bem fazendo parte da União Europeia.

A Grécia entrou para a UE em 1980, com um PIB per capita que equivalia a cerca de 53% do PIB per capita da Alemanha. Em 2008, antes da crise financeira global, essa proporção chegou a cerca de 66%, para depois cair para menos de 50% em 2014. Essa comparação não é favorável à Grécia, mas lembre-se de que estamos comparando com a Alemanha, e muitos países teriam resultados piores. De 1980 a 2014, o crescimento real médio do PIB per capita ficou um pouco acima de 1% ao ano -- respeitável, embora não fantástico.

Desde 1980, a Grécia recebeu recursos de vários programas da UE, um total de 200 bilhões de euros - o equivalente ao PIB do país em 2013. Só naquele ano, o gastos totais na Grécia financiados por investimentos da UE (Fundo Social, Fundo Regional e outros fundos similares) ficaram pouco acima de 3% do PIB.

Observe que essa transferência de recursos não inclui a assistência financeira desde o começo da crise financeira global, mas cobre investimentos e apoio a atividades econômicas como infra-estrutura. De qualquer ângulo que se analise, trata-se de um esforço colossal de ajuda a um país em nome da solidariedade europeia. Um esforço similar está planejado para 2014-2020, sob os auspícios dos fundos estruturais da UE.

A segunda observação é que a Grécia há décadas vem perseguindo uma economia insustentável. Em comparação com a arrecadação, os gastos são exagerados e escondidos em esforços diligentes de adulterar os números, com a ajuda de certas instituições financeiras globais; essa tentativa de enganar os aliados, parceiros e credores foi desmascarada pela crise financeira.

A dívida soberana como porcentagem do PIB continua crescendo e está hoje em cerca de 175% do PIB. Fazendo um diagnóstico da economia, não é difícil entender por que a Grécia nunca conseguiu construir uma base produtiva para a economia. O setor de serviços (essencialmente transporte marítimo e turismo) responde por cerca de 80% do PIB. A indústria vem em segundo lugar, com 16%, e a agricultura em terceiro, com 4%. Nunca se criou uma base de empregos, apesar de o país ter entrado para o grupo de países modernizados e desenvolvidos. Para compensar esse buraco, criaram-se mais e mais empregos no setor público, que ficou cada vez mais inchado e passou a contribuir cada vez menos para a economia.

Isso se tornou um círculo vicioso: cortes de despesas inevitavelmente atingiam o setor público, com demissão de servidores. Eles constituem uma parte importante do eleitorado e resistiram durante a tais cortes, usando de sua força política.

A economia grega girava em torno de um modelo que exigia empréstimos anuais de até 10% do PIB - do contrário, entraria em colapso. Funcionou por um tempo, mas cedo ou tarde os credores se dariam conta do buraco que cavaram para si mesmos e parariam de emprestar.

A terceira observação é que o problema não tem a ver com o nível de endividamento, mas sim com a transformação da economia grega numa economia viável e sustentável, capaz de funcionar sem constantes transfusões de sangue.

Ninguém espera que a Grécia pague suas dívidas. Há muito tempo sabe-se que essa era uma expectativa absurda, e isso foi incorporado no comportamento e no planejamento financeiro. É, portanto, um equívoco apresentar a crise como os credores exigindo austeridade do país. Não tem nada a ver com isso.

A questão é a Grécia mudar seu modelo econômico atual, de um país que depende de pesados empréstimos ano após ano para um país que equilibre arrecadação e despesas. Se tais garantias não podem ser obtidas, e até agora o governo grego não cedeu - pelo contrário, ele rejeita o plano com alarde --, não faz sentido fechar um acordo com a Grécia. O país continuaria pedindo empréstimos, talvez achando que eles constituem um direito.

A menos que a Grécia esteja disposta a reestruturar sua economia, implementando políticas e instrumentos usados pela maioria dos países-membros da UE, porque a entidade deveria continuar oferecendo salvação? Qual é a virtude de ter um membro que consistente e continuamente se recusa a colocar a economia em ordem, como os colegas do clube? Irlanda, Portugal, Espanha e Itália já passaram por reformas dolorosas e foram recompensados com uma situação econômica muito melhor, além de perspectivas promissoras de futuro. Não se pode dizer o mesmo da Grécia.

A quarta observação revela exatamente esse ponto, lançando mão da geopolítica para classificar a Grécia como um caso especial. A Grécia podia contar com um prêmio geopolítico; seus credores eram o mesmo grupo de países interessados no acesso às instalações militares gregas.

A situação geopolítica no Mediterrâneo Leste mudou no último ano ou dois, fundamentalmente contra as ambições gregas.

A Turquia é o tradicional rival da Grécia na região e nos Bálcãs; a presença grega na UE foi usada para colocar obstáculos nas tentativas de trazer a Turquia para perto da UE, e até mesmo a possibilidade de um status de membro pleno foi oferecida como recompensa pelas reformas. Quando o primeiro-ministro Erdogan virou as costas para o Ocidente, preferindo olhar para o Oriente Médio e para a Ásia Central e reforçando o caráter muçulmano do país, ganhou força o status da Grécia como aliado incontestado do Ocidente, atraindo até mesmo o interesse dos israelenses. Como se viu no planejamento da segunda guerra do Iraque e, uma década depois, no confronto com a Síria e como o ISIS, a Turquia ainda era integrante da Otan, mas sua confiabilidade não era mais a mesma.

As eleições de duas semanas atrás na Turquia não representam uma guinada de 180 graus, mas sinalizam que a população turca impõe limites a essa política. Espera-se que a política externa do país seja mais equilibrada - ou seja, a Turquia voltou a ser rival da Grécia aos olhos dos ocidentais.

Alguns anos atrás, a Irmandade Muçulmana governava o Egito. Não mais. Agora, o presidente el-Sisi transformou o país mais uma vez num aliado do Ocidente, como prova a compra de 24 caças franceses Rafale.

A Grécia também não é mais a principal ou única parceira da UE ou do Ocidente nos Bálcãs. Em julho de 2013, a Croácia entrou para a União Europeia, e as relações bilaterais entre Croácia e Estados Unidos estão muito fortalecidas. As ex-repúblicas iugoslavas da Macedônia, Montenegro e Sérvia, além da Turquia, são candidatas a entrar para a UE. As negociações com a Turquia podem estar paralisadas, mas seguem vivas com os três outros países - uma alternativa geopolítica caso a Grécia se torne um parceiro recalcitrante ou abandone a UE e talvez a Otan. A Bulgária, ao norte e nordeste, também integra tanto a UE como a Otan.

A Grécia não é mais o aliado indispensável nos Bálcãs e no Mediterrâneo Leste. Ela será aliada enquanto quiser, mas o preço que os aliados estão dispostos a pagar para mantê-la no clube está caindo dramaticamente. Parece que o governo grego não registrou este fato.

Sem estar ancorada na UE e na Otan, a Grécia se veria num ambiente tradicionalmente hostil. Nenhum dos países ao norte é amigável. Um deles -- a ex-república iugoslava da Macedônia --, é considerado pelos gregos um estado ilegítimo, usando Macedônia no nome.

Há rumores de que o governo grego esteja tentando estreitar as relações com a Rússia. Verdade ou não, as finanças russas não são saudáveis a ponto de que o país salve a Grécia. E, mesmo que isso acontecesse, o preço político para a Grécia seria exorbitante. Fala-se também em ajuda da China, mas por que os chineses aceitariam esse fardo? Qual seria a vantagem?

A Grécia também pode apostar no medo de contágio na zona do euro, trazendo para a mesa a arte da extorsão. Mas isso é ilusão. Desde 2010, a economia da zona do euro conseguiu passar da recessão para o crescimento - a previsão de crescimento para este ano é de 1,5%, o trabalho para a criação de uma união bancária está adiantado e medidas de proteção contra crises financeiras foram adotadas. Há quatro ou cinco anos poderia haver temor de contágio; hoje não mais.

A quinta observação é que essa história não vai acabar de repente, nem terá uma solução rápida. Ela vai continuar reverberando por muitos anos, qualquer que seja o resultado das próximas seis semanas, quando vários pagamentos vão vencer. É agonizante observar a Grécia parecendo perigosamente um Estado falido. Quando a UE ofereceu participação ao país depois da ditadura militar de 1967-1974, o objetivo era justamente evitar isso. Infelizmente, os políticos gregos investiram suas energias no enriquecimento pessoal e de seus amigos. A vitória do Syriza ofereceu a chance de romper esse ciclo, acabar com privilégios, clientelismos e evasão fiscal, além da influência dos clãs e oligarcas gregos. Infelizmente, o Syriza desperdiçou a oportunidade e viu sua vitória como um "agora é a nossa vez".

A lógica e a razão nos dizem que a Grécia no fim das contas vai aceitar os termos apresentados pelos credores. O governo grego pode não estar disposto a fazê-lo agora, mas a realidade vai se fazer sentir na política e na tomada de decisões. Parece estranho que essa seja a última chance de a Grécia se tornar um país moderno e desenvolvido, com uma economia competitiva, que não depende de empréstimos, mas é a verdade. Sem a zona do euro, a Grécia teria desvalorizado sua moeda (a dracma) por um par de anos, e depois teria feito o mesmo, e o mesmo de novo. Esse foi o caminho escolhido pela Argentina cerca de 75 anos atrás, o que transformou um dos países mais ricos do mundo no país que deu o calote na dívida oito vezes.

Em resumo: a Grécia vai ficar no euro e na UE, mas nunca mais será um membro genuíno, que fala com autoridade, convicção e força, irradiando ambições, políticas e instrumentos políticos análogos aos dos outros países-membros.

O governo grego pode não enxergar, mas o fato de que a maioria da população quer se manter no euro e pressiona o governo a buscar um acordo com os credores é uma nota otimista - embora cautelosa. Talvez o governo do Syriza queira flertar com a solidão, administrando um PIB decadente e cercado de vizinhos pouco amigáveis, mas a população parece ter entendido direito: vai ficar muito, muito frio.

Joergen Oestroem Moeller, pesquisador visitante sênio do Instituto de Estudos do Sudeste Asiático, de Singapura. Professor adjunto da Universidade de Administração de Singapura e da Escola de Administração de Copenhague.

Aluno honorário da Universidade de Copenhague.

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.