OPINIÃO

Seguindo a Linha Fria do Horizonte - entrevista com Luciano Coelho

05/11/2014 13:03 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02
Divulgação

O curitibano Luciano Coelho é responsável por um dos documentários musicais mais bonitos e interessantes da atualidade. A Linha Fria do Horizonte foi recentemente exibido no Canal Brasil e possui seu foco na produção musical e no pensamento de músicos do sul do Brasil, da Argentina e do Uruguai, tendo como norte a estética do frio criada por Vitor Ramil.

O filme que, além de Vitor Ramil, conta com depoimentos de músicos como os irmãos Drexler, Kevin Johansen, Richard Serraria, Carlos Moscardini, Marcelo Delacroix, Pablo Grinjot, entre outros, é composto de imagens belíssimas das paisagens dos pampas, relacionando-as diretamente com a música feita por esses cancioneiros que, como aponta Ramil, estão "no centro de uma outra história". Abordando de maneira sensível temas como Estética do Frio, Templadismo e Subtropicalismo, Coelho conseguiu mostrar a força dos encontros que acontecem nas fronteiras, responsáveis por um enriquecimento musical e cultural que precisa ser discutido e acompanhado de perto.

Confira agora a entrevista exclusiva que fiz com o diretor.

No filme, é bastante visível um casamento harmonioso e elegante entre paisagem e som, indo de encontro com a Estética do Frio criada por Vítor Ramil. Deu muito trabalho idealizar e realizar esse matrimônio?

A Estética do Frio e a música do Vitor Ramil foram a minha inspiração inicial para a realização do filme. No mais, contei com uma equipe pequena mas muito especial. As contribuições do fotógrafo Hans Stempel, do câmera Elisandro Dalcín, do designer de som Ulisses Galetto e dos compositores da trilha, Sebastián Jantos e Diego Janssen, me ajudaram a orquestrar imagens e sons.

A ideia de filmar A Linha Fria do Horizonte veio do seu contato com Ramilonga, do Vitor Ramil e, assim como você, muitos dos músicos que entrevistou também sofreram um forte impacto desse disco. Você acha que essa estética que perpassas as fronteiras entre Brasil Uruguai e Argentina seria possível sem Ramilonga?

Eu acho que o Vitor, com sua sensibilidade e talento, e por meio de uma reflexão sobre o próprio trabalho, foi capaz de captar um certo Zeitgeist, um certo espírito da época e da região. É por isso que a reflexão pessoal dele vem de encontro a outras reflexões no Uruguai e na Argentina, e também por isso que ele acabou tendo tanta influência. Falando consigo mesmo ele repensa seu trabalho, materializa isso em canções e acaba nos atingindo de uma maneira muito poderosa.

Um tema muito forte e presente no filme também é a milonga. Você se lembra de primeiro seu contato com ela?

Meu primeiro contato com o ritmo foi quando escutei Ramilonga. Depois veio a descoberta do Jorge Drexler, nos tempos do disco Frontera. Antes disso, eu não conhecia a milonga tradicional do Rio Grande do Sul e o que eu escutava de música argentina e uruguaia vinha mais do universo do rock e do pop. Sempre fui muito fã do Luis Alberto Spinetta.

No filme também é possível perceber a concretização imagética dos elementos que Vitor Ramil usa como pilares para a sua estética do frio (rigor, profundidade, clareza, concisão, leveza, pureza e melancolia). Isso foi planejado?

Sim, as "sete cidades" da milonga do Vitor foram um inspiração para o filme.

São mais de 120 horas de gravação, não? Como foi feita a escolha das cenas?

Acabamos com muito material porque filmamos muitos shows inteiros e fizemos entrevistas com duas ou três câmeras. O trabalho de edição é lento e tem que ser criterioso. Eu mesmo editei o filme, e foi um processo de assistir todo o material até sentir que eu o dominava. Só assim é possível começar a cortar. É um processo de cortar aqui, cortar ali, e ir percebendo a melhor forma de justapor o que fica. Estou preparando o DVD do filme e disponibilizaremos duas horas de extras.

Se arrepende de não ter colocado alguma cena ou depoimento na versão final do filme?

Fiquei bastante satisfeito com o corte final, ainda que sinta que se fala muito no filme. Gostaria de poder ter deixado mais música. Porém, esse é um filme onde o que se fala é muito importante. Todos estes artistas tem muito o que falar. Lamento ter deixado de fora três ótimas entrevistas: com os jornalistas Macunaíma (Uruguai) e Martín Graziano (Argentina) e com o geógrafo Lucas Panitz. Infelizmente, senti que deveria resolver o filme somente com os músicos, sem um discurso externo de análise das obras ou do momento.

Qual foi o critério usado na escolha dos entrevistados?

O filme parte do Vitor e da Estética do Frio, para depois abarcar o Templadismo dos Drexler e o Subtropicalismo do Kevin. Este foi um dos pilares, o das reflexões. Outros pilares foram: a ligação da música com o frio e a paisagem; a milonga; por fim, as parcerias e intercâmbios entre músicos dos três países. Com estas linhas a seguir, tínhamos uma pauta de artistas que desejávamos ter no filme. As conversas com parceiros como Lucas Panitz, Daniel Drexler e Marcelo Delacroix nos levaram a outros nomes.

A fotografia, assinada por Hans Stempel, é belíssima. Como foi o trabalho de concepção dela?

Eu e Hans conversamos sobre as características que eu desejava para o filme. Passei para ele uma seleção musical dos artistas que fariam parte do documentário. Como já tínhamos trabalhado juntos outras vezes o trabalho no Linha Fria foi tranquilo.

Pode-se dizer que, mais do que traçar sua genealogia e cartografia, o filme é também parte desse diálogo, desse processo ainda em desenvolvimento?

Fiquei muito feliz com o retorno que tive, principalmente depois das exibições no Canal Brasil. Senti que realmente o filme trata de um momento e acaba também fazendo parte dele. Muita gente que curte essa estética cultivava isso solitariamente. Acredito que a existência do filme também promove novos encontros, reflexões e trocas sobre o tema.

De certa forma, Pelotas torna-se o eixo da narrativa, de onde então ela se estende para Argentina e Uruguai. Nas cenas gravadas na casa de Vitor eu senti como se aquele lugar fosse um microcosmo e eu quero saber quais foram as suas impressões do lugar?

Estando primeiro em Pelotas e depois dentro da casa do Vitor eu tive este mesmo sentimento. Tive que ser um pouco insistente para chegar até esse momento importante, o de entrevistar o Vitor em sua própria casa, mas valeu a pena. As imagens de Satolep as entrevistas com o Vitor representam o tal centro de uma outra história.

Você contou com a ajuda do geógrafo Lucas Manassi Panitz, do qual a tese de mestrado serviu como base para o filme. Como foi o contato entre vocês?

Fomos apresentados por uma amiga em comum, que também estava envolvida com a etapa inicial de pesquisas para o filme. O Lucas buscava, pela via acadêmica, algo que eu buscava pela via cinematográfica. Ele acabou sendo muito importante para a realização do filme.

Você também é responsável pelo canal Coleção Olho Vivo, onde disponibiliza documentários produzidos durante os quase dez anos de existência do Projeto Olho Vivo e parece que esses filmes também serão lançados em um box. Pode nos contar um pouco mais sobre o Olho Vivo?

O Projeto Olho Vivo foi criado por mim e pelo Marcelo Munhoz aqui em Curitiba em 2003. Era o começo do boom do cinema digital, com novas câmeras e tecnologia acessível. Tínhamos a vontade de oferecer oficinas de documentário à comunidade, onde as pessoas pudessem refletir sobre a cidade fazendo filmes documentais. Foram quase dez anos de trabalho, muitas oficinas e cerca de 40 filmes documentais realizados. Além disso, a partir do Olho Vivo nasceu o ponto de cultura Minha Vila Filmo Eu, que levou oficinas de cinema para crianças e jovens da comunidade carente Vila das Torres, aqui de Curitiba. Também demos oficinas de cinema para crianças internadas no hospital Pequeno Príncipe. O resultado deste período está disponível num box de 8 DVDs e no Canal Coleção Olho Vivo, no Vimeo.

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