OPINIÃO

A César o que é de César

13/04/2016 17:15 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

Eu sei, o título da matéria é bem clichê. Assim como pode parecer também o tema no qual gira em torno do segundo disco do cantor e compositor César Lacerda: o amor. Tá, o tema também é clichê, mas ao contrário do que pode parecer em primeira instância, "Paralelos & Infinitos" (Joia Moderna, 2015), o segundo disco do cantor e compositor César Lacerda, aborda o fenômeno com uma impressionante delicadeza poética.

Depois de lançar "Porquê da Voz" (2013, independente), um disco que foi bem recebido pela crítica, o compositor de 29 anos enveredou por caminhos inesperados e interrompeu os trabalhos de um álbum que já estava tomando forma, para, depois de voltar de uma turnê por quatro países da Europa, se unir ao produtor Pedro Carneiro no intuito de testar alguns instrumentos que ele havia comprado e, assim, quase sem querer, construir um mosaico afetuoso que diz muito não apenas sobre um sentimento comum a todos nós, mas também um modo particular de vivenciá-lo intensamente, com total entrega.

"Levou um tempo pra eu perceber que havia um disco ali. A ideia de estar no estúdio, testando possibilidades e sonoridades só ganhou um direcionamento específico mais tarde", comenta César. "O 'Paralelos & Infinitos' tem uma característica que soa no inverso da urgência, da pressa. Ele é um disco sobre a calma, a delicadeza. Sobre o desabrochar de um sentimento muito bonito. A feitura e o nascimento do disco coincidem com o que eu vinha vivendo. O que soa nele é o reflexo do que soa aqui, em mim"

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Mineiro nascido em Diamantina, César Lacerda é uma figura cosmopolita que não cabe em territórios. Foi desde muito cedo, como conta a irmã e também cantora Malvina, dono do próprio nariz e da própria música. "César tem personalidade forte, é teimoso, insistente e impulsivo", diz. Também contou que, genioso desde criança, ele foi o primeiro dos três irmãos (o terceiro é Rodrigo Lacerda, respeitado compositor de música de concerto) a sair de casa. Inquieto, deve ter percebido desde cedo que não se trata de onde se faz música, mas de como se faz.

A sólida formação acadêmica não foi capaz de prendê-lo aos moldes tradicionais da canção e foi nas bandas alternativas de fora que ele também enxergou conteúdo potencial para suas criações ao som de bandas como Grizzly Bear, Fleet Foxes e Dirty Projectors. Hipster? Talvez um pouco. Antiquado? Nem de perto.

A cena musical mineira é sem dúvida uma das mais férteis no atual cenário nacional e está muito além do resquício de um Clube formado em uma esquina do bairro Santa Tereza, mas ainda assim, ele sempre foi uma figura "destoante" no meio dessa efervescência. "É fácil e tentadora nesse sentido, por ele ser mineiro, a analogia com o Clube da Esquina. E se pensarmos pela via da beleza indubitável e ainda assim estranha das canções de Milton ou Beto, a analogia faz sentido. Mas é pouco reduzi-lo a herdeiro do movimento. As questões musicais - musicais e líricas - de suas canções são profundamente contemporâneas", explica o jornalista Leonardo Lichote.

O Amor fez mais músicas ruins do que casais felizes.

A frase matadora é de Alexandre Nero, que preferiu uma abordagem mais irônica e bem humorada desse cubo mágico de noventa cores chamado amor quando lançou seu também excelente disco "Vendo Amor: Em Suas Mais Variadas Formas, Tamanhos e Posições" e o DVD "Revendo Amor, com pouco uso quase na caixa". Talvez eu esteja contribuindo para isso", confessa Nero com seu humor irreverente.

É evidente o risco de se falar de algo já tão exaustivamente explorado, mas a verdade é que nunca vamos parar de falar de amor. Não importa o quanto você queira bancar o machão insensível ou a calejada experiente. Se ainda não inventaram sequer um colete a prova de paixonite, você acha mesmo que seremos capazes de impedir o amor de arrombar as portas de nossas casas com uma voadora de três pés?

Depois de sair de Belo Horizonte e passar quatro intensos anos no Rio de Janeiro, compondo e expandindo seu repertório, César conheceu também aquela que expandiria seu repertório afetivo, a atriz Victoria Vasconcelos.

Ele distingui-se de grande parte dos cantores da onda sofrência alternativa por preferir tratar o amor com uma profundidade quase antropológica. Em sua personalidade, erudição e sensibilidade se unem harmoniosamente. "O amor além de especial é um sentimento estranho, e por isso o desejamos tanto. Desejamos o que não compreendemos", dispara o seu lado cabeçudo e analista, enquanto o lado que pende para o metafísico mete o bedelho: "O amor é quântico, mutável, incompreensível. É um perfume inebriante, uma droga pesada que ativa conexões muito novas nos nossos cérebros". Foi justamente por saber que ele responderia assim, que esse repórter resolveu pedir a opinião de alguém um pouco mais passional, do tipo furacão em meio a uma tempestade tropical e Filipe Catto foi a escolha natural.

"Eu recebi a parceria do César com o Fernando Temporão (Um Milhão de Novas Palavra) logo quando estava no início de seleção de repertório pro " Tomada" (2015, Natural Musical) meu novo disco", conta o cantor e intérprete. "Fiquei muito impressionado com a letra, com a força daquela música e não tive dúvidas de que ela entraria no trabalho. Eu acho o César um cara muito coração, muito verdadeiro na música dele". Ao falar sobre o tema que o mais novo parceiro escolheu, Filipe é categórico: "achei lindo o segundo disco, achei um caminho natural, a estética do disco novo está a favor do texto, tem tudo a ver".

Suavidade literária

Longe de ser o estereótipo do hippie conectado com as forças cósmicas da mãe natureza por um cigarrinho de artista, César é gentil, tem fala mansa e bem articulada, aspecto bastante perceptível também em sua música. Se no primeiro disco havia uma preocupação maior com a excelência musical em termos de complexidade rítmica e de harmonias intrincadas executadas por uma dezena de participações de grandes músicos, ele agora mostra o seu lado mais intimista, tocando quase todos os instrumentos e com um direcionamento mais pop. E foi justamente isso que fez diferença na hora de conseguir um contrato com sua gravadora atual.

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"Descobri o trabalho do César através de uma matéria do jornalista Mauro Ferreira tecendo elogios ao primeiro disco dele. Fui atrás e encontrei um disco cheio de personalidade", lembra DJ Zé Pedro, fundador do Joia Moderna e mecenas de talentosos artistas da música atual. "Ficamos amigos no Facebook e esse ano ele me mandou uma mensagem querendo saber se haveria interesse do selo em lançar o seu segundo álbum. Falei que estava sobrecarregado de lançamentos esse ano, mas que ele me mandasse para eu ouvir. De cara me surpreendi por não se parecer em nada com o primeiro disco, o que logo me causou empolgação para sermos parceiros nessa empreitada.

Leitor assíduo, Cesinha é apaixonado pela literatura portuguesa contemporânea, tendo inclusive indicado a mim, um garimpeiro preguiçoso, alguns títulos dos quais tirei excertos que até hoje não saem do meu repertório de cantadas de boteco. Até mesmo o título do disco veio do livro "Amor em Segunda Mão, da escritora portuguesa Patrícia Reis. "Adoro ler e adoro ter a minha vida conduzida por literatura, e a descoberta desses autores mudou o meu olhar profundamente", diz referindo-se aos escritores Gonçalo M. Tavares e Valter Hugo Mãe. "O fato de que temos a mesma língua mas usamo-la de formas tão distintas, com abordagens da existência tão particulares, isso sim me influencia. A aproximação com a obra desses caras redefiniu tudo à minha volta".

O disco que estava sendo preparado antes de Paralelos & Infinitos chama-se La Jornada mas, depois dessa reviravolta estética apresentada no primeiro, vai ficar difícil arriscar o que vem pela frente, o que é bom, já que ninguém gosta muito de palpiteiros. "As críticas positivas e o seu crescimento como compositor de grandes vozes como Duda Brack e Filipe Catto, mostram que César Lacerda veio para ficar", é o que vaticina Zé Pedro para o seu imprevisível e intrépido chancelado.

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