OPINIÃO

Entrevista: Bryce Dessner, do The National, fala sobre música clássica e futuro da banda

25/04/2014 16:11 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:24 -02
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Quando se fala em Bryce Dessner, é impossível não pensar automaticamente em The National. Contudo, o membro fundador, guitarrista e compositor da banda norte-americana tem muito mais a oferecer do que "apenas" as excelentes melodias e energia que transbordam da sua guitarra e compõe o som característico e único do quinteto de Ohio. Bryce é, também, um dos expoentes de uma nova geração de compositores de música clássica e acaba de lançar no último mês seu segundo trabalho solo, St. Carolyn By The Sea, em um disco dividido com outro músico que transita entre o rock e o clássico: Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead.

Composto de três peças, cada uma com cerca de 15 minutos de duração, St. Carolyn dá continuidade ao primeiro trabalho do músico, Aheym, lançado no ano passado e feito em parceria com o Kronos Quartet. É um registro sensível, mas pouco provável apenas para os mais desatentos. Dessner estuda música clássica desde a adolescência, tem um mestrado na área pela Universidade de Yale, fundou seu próprio festival de compositores contemporâneos e hoje é residente em Eindhoven na Holanda.

Por telefone, de Chicago, ele conversou comigo na semana passada sobre seu novo lançamento, como é viver entre dois mundos, seus planos para o futuro e claro, The National.

Confira:

St. Carolyn By the Sea é um split (disco que contém canções de dois artistas diferentes gravadas de maneira individual) com Suit From "There Will Be Blood" (título original do filme Sangue Negro) do Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead. Como isso aconteceu? Como você conhece o Jonny?

Na verdade foi por meio do Andre De Ridder, um maestro alemão. Ele trabalha bastante comigo e com o Jonny, então daí a conexão.

Jonny tem trabalhado bastante fazendo a trilha dos filmes do diretor norte-americano Paul Thomas Anderson ultimamente. Você gostaria de trabalhar com um diretor de cinema? Quem?

Na verdade, eu já compus algumas trilhas pra cinema, e é maravilhoso o que o Jonny faz, porque ali ele tem uma relação maravilhosa na qual ele pode escrever o tipo de música que ele preferir. Então sim, eu adoraria trabalhar em um filme maior, trabalhar com alguém como o (cineasta alemão) Werner Herzog, seria um sonho fazer a trilha de algum documentário dele.

Lembro-me de ter lido algo sobre a relação entre The National e Herzog, ele trabalhou com a banda ou é só um fã?

Sim, ele é um fã, vai a um monte de shows nossos, mas ainda não trabalhamos juntos.

Você toca em uma banda de rock e também compõe música clássica. Como isso funciona pra você? Eu sei que você se considera um compositor clássico antes de um guitarrista de rock, certo?

Eu toco música clássica desde o ensino médio, minha bagagem musical é mais clássica, mas eu toco em bandas de rock desde que eu era um moleque com meu irmão, então é como se fosse minha família, é essencial também. Em uma banda eu sou, na maioria da vezes, um guitarrista, e, quando se trata de música clássica, eu componho todos os instrumentos. De alguma forma são apenas lados diferentes de mim, mas não importa, eu sou sempre a mesma pessoa e não penso neles (música clássica e rock) de forma separada, são só partes de quem eu sou.

As composições clássicas e de rock vêm do mesmo lugar? Como é o processo pra cada uma delas? Porque no Mistaken for Strangers (documentário desse ano sobre o The National), você diz que a parte mais difícil de compor uma música pra banda é ter uma ideia. Funciona assim também com as composições clássicas?

Sim, eu diria que é mais difícil ainda com as composições clássicas, porque é difícil pra mim escrever música instrumental que não tenha uma inspiração por trás, ou mesmo uma ideia, especialmente sendo pra uma orquestra grande, em um trabalho que terá 15 ou 20 minutos de duração. Ajuda muito ter inspiração, as duas, musical e não musical. Pra mim, eu costumo frequentemente tirar inspiração da literatura, St. Carolyn By The Sea, por exemplo, foi inspirada em um romance homônimo do Jack Kerouac, e a segunda composição do split, Lachrimae, é baseada em uma peça musical do período renascentista. Mas falando sobre de onde a música vem, eu costumo fazer uma comparação com um escritor que escreve poesia e também romance. Você é a mesma pessoa, mas a forma é diferente e o jeito que você desenvolve ideias e o jeito que você executa ideias também são, e é desse jeito que funciona pra mim.

Sobre referências você cita Bela Bartók, Steve Reich, Glenn Branca, Philip Glass e outros que inspiram seu trabalho. Mas dentro da sua geração de compositores, quem são suas inspirações?

Por "minha geração" você quer dizer músicas que tenham a minha idade?

Isso.

Eu sou parte de um grupo de músicos que colaboram bastante entre si. Meu irmão (Aaron Dessner, também do The National) e eu trabalhamos bastante juntos. Nico Muhly é um amigo com quem que trabalho muito e também é um compositor, nós nos inspiramos mutuamente... eu acho que existem alguns aspectos da orquestração... ele é muito bom escrevendo pra grandes orquestras, aprendi demais com ele. Sufjan Stevens é um dos meus amigos mais próximos e ele é compositor brilhante, inacreditavelmente criativo, ótimo pra se ter perto e trabalhar junto. Na maioria do tempo são meus amigos que me inspiram. Richard Reed Parry é como eu e Jonny, está em uma banda de rock, ele faz parte do Arcade Fire e compõe bastante música conceitual.

E tirando seu irmão, Jonny e Richard, quais guitarrista de bandas de rock você admira?

Stephen Malkmus do Pavement sempre foi um dos meus favoritos. Ira (Kaplan) do Yo La Tengo também, Lee Ranaldo do Sonic Youth. Adoro alguns violonistas também, tipo o John Fahey, ninguém conseguia tocar como ele e foi um dos grandes motivos de eu começar na música clássica. bryce national

Seu primeiro trabalho solo, Aheym (2013), significa "aquele que se dirige pra casa" em ídiche. Pra você, a música clássica é como sua casa?

Eu realmente sinto como se fosse minha casa... é verdade, faz sentido isso. É meio que onde eu cresci, mas aquela música específica (que dá nome ao disco) foi inspirada nas histórias que minha avó, uma imigrante judia russa, contava. Foi escrita baseada nessa ideia de jornada pra casa, uma jornada musical pra ela.

Você fundou seu próprio festival, o MusicNOW, na sua terra natal (Cincinnati, Ohio). Como a experiência tem sido pra você?

Eu amo. Ele foi concebido como um festival bastante íntimo e orgânico, bem ao contrário dos grandes festivais de rock. É tudo voluntário e são pequenas plateias, não chegam a 3000 pessoas, com muita música clássica contemporânea. Aparecem compositores, muitos amigos. É um ponto maravilhosamente alto do meu ano e ano que vem vai ser a décima edição, tem sido uma jornada ótima. Um grande lugar pra tentar coisas novas, na cidade pequena onde eu cresci, e, de alguma maneira, só funcionaria ali. Não funcionaria em uma cidade grande como Nova York, onde coisas desse tipo não são especiais, acontecem toda noite. Aqui é um elemento muito especial.

Você e seu irmão (Aaron Dessner, também do The National) parecem bons amigos. Provavelmente já te perguntaram sobre isso um milhão de vezes, mas como é trabalhar com ele? Eu sinto que tem uma energia muito legal entre vocês e ele também participou em St. Carolyn By The Sea.

É ótimo, nós somos gêmeos e pra irmãos trabalhando o tempo todo juntos nós nos damos muito bem. Ele não é um músico com treinamento clássico, ele não tem o interesse artístico que eu tenho nesse tipo de música, mas ele é muito talentoso, então ele consegue levar bem, basicamente ensino ele de ouvido. A faixa que ele toca comigo, eu escrevi especificamente pro estilo que ele toca, então é interessante porque aquilo foi feito já pensando nele. Ele é um grande compositor e produtor e é muito bom em estúdio. Nós temos habilidades diferentes, ele costuma ficar bastante envolvido com a produção do disco, enquanto eu faço a orquestração. Nós sempre brincamos que individualmente nós não somos tão bons, mas juntos somos impressionantes.

Você ainda está trabalhando com o Clogs (banda instrumental formada no começo dos anos 2000 e que lançou cinco discos)? Algum plano pro futuro?

Não temos trabalhado muito porque estamos vivendo em cidades diferentes agora. Nós trabalhamos juntos por dez anos e lançamos cinco discos, mas é bom ver que cada um seguiu seu caminho e foi um belo projeto, mas agora eu estou mais interessado em escrever minha própria música e no trabalho com o National.

Algumas bandas, como o Godspeed You! Black Emperor, misturam música clássica e rock. Você poderia fazer algo assim no futuro?

Eu acho que não, porque eu já toco em uma banda de rock e não sinto a necessidade de misturar as coisas desse jeito. Mas eles são uma banda interessante, tem algo muito bom acontecendo com eles, algo meio punk, com uma mensagem política. Mas eu acho que no meu caso é muito saudável o que eu tenho. Acho que existem muitos músicos clássicos que são roqueiros frustrados, mas eu não preciso disso, deixo a música clássica seguir sua própria trilha.

Trouble Will Find Me (2013) foi o sexto disco de estúdio com National e vocês foram uma banda média por um bom tempo, mas agora finalmente são headliners em grandes festivais pelo mundo. Qual a sensação?

É maravilhosa. Levou um bom tempo pra chegar onde estamos, mas também aprendemos a ser melhor como banda ao vivo, então até chegarmos nesse nível, tivemos bastante tempo pra crescer. Com algumas bandas tudo acontece muito rápido, enquanto são jovens. Nós meio que sabemos o que estamos fazemos, sabemos como fazer um show e tudo isso chegou na hora certa. Agora vamos tocar em vários festivais, como o Primavera Sound, que é ótimo, e é realmente divertido pra gente.

Você parece tão animado com seus trabalhos recentes e o The National está tocando junto já há mais de 15 anos. Você acha que o final está próximo?

Você nunca sabe, uma banda é algo frágil. Eu acho que a razão pela qual as bandas acabam é porque é difícil manter a química e todas as boas bandas de rock são sobre química. Então, no nosso caso, eu não sei, eu acho que provavelmente vamos fazer mais um disco, e nós queremos que o próximo disco seja bastante diferente, então vai ter um elemento de despedida, mas vamos continuar fazendo isso enquanto nos dermos bem e a música for boa. Quando a música estiver ficando ruim, com certeza vamos parar.

Li que você gosta de futebol, devia aparecer pra Copa!

Sim, a gente adora, eu e meu irmão crescemos jogando, ele está mais por dentro que eu, mas gostamos muito.

Você pretende apresentar suas composições clássica fora dos EUA e Europa? Alguma chance de rolar no Brasil?

Eu adoraria, não fui convidado, mas estou indo pro México esse ano. Se acontecer, eu vou adorar, mas ainda não aconteceu nenhum convite.

E podemos esperar o The National no Brasil nessa turnê? Você sabe algo sobre isso?

Talvez. Não temos certeza ainda. Tiveram algumas conversas sobre isso no outono (do hemisfério norte, primavera aqui), mas não tenho certeza se resolveram isso, se acertarem as datas, mas espero que aconteça. Adoraríamos ir ao Brasil, é tão divertido.

Assista ao making of de St. Carolyn By The Sea: