OPINIÃO

Crimeia. Capital: Malvinas, Catalunha, Sudão do Sul...

07/03/2014 11:51 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02

O mundo é uma bola com 191 países, sem contar Taiwan e o Vaticano. Pouco do que aconteça onde o sol de põe já não aconteceu antes, onde o sol nasceu. É o caso da Crimeia, onde a população, de maioria russa, pretende fazer um referendo dentro de nove dias para decidir se a península se separa da Ucrânia e volta a fazer parte da Rússia, remontando, em parte, o mapa anterior a 1954. Como, de cada 10 moradores da península, 6 são russos, a vitória é batata.

Guardadas as diferenças, a lógica crimelense repete o que acontece com os moradores das Ilhas Malvinas ou Falklands, no Atlântico Sul. Não há meio de convencer os moradores a pertencerem à Argentina. Em março do ano passado, 98,8% dos 1.672 eleitores locais disseram "sim" ao domínio britânico, num referendo que confirmou o que Londres já havia dito de forma mais clara com força militar em 1982. O conflito não apenas confirmou a hegemonia britânica no local, mas também antecipou o fim da ditadura na Argentina. Para todos os efeitos, as ilhas distam pouco mais de 400 km de Buenos Aires, mas fazem parte da Grã-Bretanha, a quase 20 horas de voo dali.

Londres não é Moscou e o ídolo do XV da Crimeia não é Maradona, mas um aspecto importante da problemática ucraniana está presente no referendo realizado nas Malvinas: tanto lá como cá, a consulta não é feita entre todos os moradores do Estado-nação em questão, mas apenas entre os viventes no naco de terra que, de antemão, já declarou querer se separar. É como perguntar à torcida do Flamengo se ela torce para o Flamengo. Referendos como esses partem da negação da soberania do Estado sobre o território em disputa. Sem dentes para fazer valer suas vontades, argentinos e ucranianos podem apenas olhar o desenrolar dos fatos e protestar diplomaticamente.

De maneira menos parecida, o Sudão realizou referendo em janeiro de 2011. Com o resultado, o país africano se separou em dois: o Sudão e o Sudão do Sul. No início deste ano, o Parlamento da Catalunha pediu ao governo central espanhol autorização para realizar um referendo separatista. Escócia, Canadá e, pasme, o Brasil também conhecem ventos desse discurso, com maior ou menor grau de humor.

Não é novo, mas é grave. Se a moda pega, a Romênia teria problemas - já que abriga mais de 1 milhão de húngaros. Assim como o Tajiquistão teria de administrar um pepino com os uzbeques, que compõem um quarto da população. Definir "nação" dá pano para a manga, ainda mais nas colchas de retalho pós-Guerra Fria.

(Texto publicado originalmente no blog Je pense que...)

Nota do editor

Este artigo gerou discordância na Embaixada do Reino Unido no Brasil, o que motivou o primeiro secretário Andrew Ford a escrever uma resposta, no link abaixo:

- "Não há comparação possível entre a Crimeia e as Ilhas Falkland"

Lucas Pretti

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