OPINIÃO

A rapper 'branca, loira e alta' que vem quebrando tabus na música urbana (VÍDEO)

12/03/2014 12:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02
Divulgação

É com estes exatos adjetivos que Iggy Azalea, de 23 anos, é vista por muitos. Em uma entrevista feita no ano passado para a nova-iorquina Complex Magazine, a jovem australiana falou sobre o fato da raça e do gênero sexual serem tão desnecessariamente discutidos dentro do rap.

(...) Aqui estamos nós, no século 21, e as pessoas ainda agem tipo, "É bem estranho o fato de que você é branca, de outro país e gosta de música de negro". Um monte de gente nessa indústria gostaria de ter qualquer desculpa no mundo pra poder atirar uma granada em mim. Eu não sei, por que isso é tão importante? É a indústria do entretenimento, e não política. As pessoas deveriam se preocupar mais com a mensagem, e não com a voz que a diz.

O início do mês foi marcado pelo lançamento do videoclipe de Fancy, canção da rapper em colaboração com a cantora Charli XCX. O vídeo, baseado no clássico Clueless (As Patricinhas de Beverly Hills) viralizou nas redes sociais em forma de gifs das cenas inspiradas no filme da década de 90. O vídeo exemplifica bem o rumo que a rapper vem tomando em sua carreira, e suscita a questão das pessoas ainda tratarem o rap e o hip-hop como gêneros restritos, de negros e para negros.

Iggy, nascida Amethyst Amelia Kelly atualmente é uma das grandes promessas do rap, nascido nas comunidades negras dos Estados Unidos em meados dos anos 70. A resistência a artistas como ela ainda é grande, e, por conta da dominação masculina no estilo, muitos relutam em aceitar que músicas como as de Iggy, que sintetizam elementos pop e eletrônicos (assim como inúmeras outras canções de artistas urbanos, inclusive homens), possam ser consideradas rap/hip-hop.

A questão, entretanto, é o conteúdo musical. O território do rap e do hip-hop sempre foi machista e objetificava a mulher no geral. Em contrapartida, o surgimento das femcees (termo equivalente ao feminino de emcee) veio para equilibrar o jogo: muitas delas utilizam de suas rimas para reverter este quadro. Iggy Azalea, assim como Nicki Minaj e outras pioneiras como Queen Latifah, Lil' Kim e Lauryn Hill, é um grande exemplo disso, e usa de seus versos para levantar uma bandeira em prol das mulheres: independência e relatos, dificuldades, e situações de um ponto de vista feminino. Mas é claro, sem perder as características do cenário urbano.

Conversei com um dos colaboradores do fansite da Iggy no Brasil, Allan Reis, e ele acredita que o rap continua sendo rap, mesmo com a adição de elementos de outros gêneros.

Os rappers hoje em dia querem seguir o que está em alta, como qualquer artista, e hoje o que está em alta é o rap com eletrônico, com o refrão cantado e isso para mim acaba se tornando algo "pop". Mesmo com esses elementos continua sendo rap, pois é algo com rimas, "falado", e não cantado. A tendência desse preconceito todo é só acabar. Daqui alguns anos, os respeitados no gênero serão estes que vêm ganhando força atualmente.

Apesar do grande talento destas e de várias outras rappers, passos grandes precisam ser tomados para que elas possam ser devidamente valorizadas. O sexismo e os demais preconceitos dentro da música urbana vão continuar existindo enquanto a sociedade não se reeducar a respeito do tema, aos poucos. Em 2014, grandes promessas do gênero, parte delas femininas estarão lançando seus álbuns (Inclusive Iggy, com seu álbum de estreia previsto para abril), e espero fortemente que isso ajude as pessoas a compreender o real papel da música, além de perderem o triste e retrógrado costume de separar todo e qualquer tipo de gênero, não só musical.

Abaixo fica o clipe de Fancy, e deixo a dica para que as pessoas procurem saber mais sobre Iggy Azalea, a orgulhosa australiana, loira, alta, branca e rapper, que com coragem vem seguindo seu próprio estilo e abrindo espaço para que mais artistas façam o mesmo:

Fica como dica de leitura a matéria completa da Complex Magazine.

Agradecimentos à toda equipe do Iggy Azalea Brasil. Keep reppin'