OPINIÃO

Mais do que o impeachment, o Brasil precisa saber votar e cobrar posições

20/04/2016 11:27 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
ASSOCIATED PRESS
Anti-government demonstrators watch on a large screen, as lawmakers vote on whether or not to impeach President Dilma Rousseff in Sao Paulo, Brazil, Sunday, April 17, 2016. The vote will determine whether the impeachment proceeds to the Senate. Rousseff is accused of violating Brazil's fiscal laws to shore up public support amid a flagging economy. (AP Photo/Andre Penner)

Olá pessoal,

Confesso que preparei todo um texto estruturado para, na segunda-feira, liquidar o tema impeachment conforme demanda da editoria do HuffPost Brasil.

Mudei de ideia durante o dia, devidamente atarefado e digerindo tanto a noite de domingo quanto seus ecos nas mídias sociais, imprensa e outros pilares nas últimas horas.

Como muita coisa aconteceu, vou usar cabo dos bullet points, como quase sempre é o caso das minhas postagens, mas desta vez sem grandes floreios de início, para contextualização.

O problema mais grave do país reside na educação. E calma que não estou falando dos nossos representantes, mas sim a nossa. Minha e sua, leitor do HuffPost Brasil. Ou vocês acham que os deputados brotam do solo como as Tartarugas Ninjas?

Meu voto e o seu colocaram aquela corja. O que mostra que, mais do que uma péssima classe política, falhamos feio como democracia ao "recrutar" aquela classe para nos representar, da Dilma ao Tiririca. Reforma política é inócua frente a nossa capacidade histórica de péssimas decisões nos meses de outubro e novembro.

O certo, mais do que o impeachment, é educarmo-nos para saber votar e cobrar posições. Por isso sou brutalmente contra novas eleições; é tapar sol com peneira frente a nossa ignorância ao escolher nossos representantes.

Você, como eu, pode não gostar de Eduardo Cunha - um gângster, nas palavras de um deputado (chorei de rir com este trecho), nem precisamos puxar a lista de mau uso do cargo e da máquina pública há quase 30 anos. Mas é necessário assumir que o cara é um gênio - do mal, mas um gênio.

Ninguém seria mais ardiloso do que ele para pavimentar, através de um recurso questionável, porém crível e legal (pedaladas fiscais) todo o processo de impeachment.

Cunha, o "malvado favorito" de boa parte dos nossos representantes, fez o que Severino Cavalcanti foi escalado em 2005 ao mesmo cargo e não conseguiu: ferir de morte a gestão lulopetista. Lula e Dilma não contavam com a astúcia de Cunha um anos atrás ao dar lastro para ele assumir a Câmara.

A missão de Cunha foi cumprida. E infelizmente nosso regime político vai permitir a brecha que, sob a suposta alcunha de "formar nova base de diálogo", ele abra mão da presidência do Congresso no dia seguinte que Temer assumir a presidência. Ainda que seja réu da Lava Jato no STF, vai fugir da cassação do cargo máximo do Legislativo. E conviverá com isso na penumbra da morosidade do nosso Judiciário.

Falei em algumas searas que o mundo não é feito de amor, pássaros, flores e abelhas como alguns acreditam ao apoiar o não-golpe (veja o que é golpe de verdade ao verem a economia em frangalhos, desempregados e empresas fechando as portas) mas sim um lugar perverso onde 3 forças regem o sistema: política, mercado e o povo.

Pois bem: Dilma Rousseff deve perder a presidência porque, como líder do pilar político do país, maltratou demais o mercado - a força que paga a conta dos outros dois (via impostos e salários) e tem maior relevância no contexto brasileiro.

Ao seu perfil centralizador e mal-assessorado, trouxe uma grande crise econômica onde o mercado mingou, trazendo todo o não-legado que ouvimos diariamente: PIB em queda, menor arrecadação de impostos, inflação, juros, fechamento de lojas, etc.

O estelionato eleitoral, apresentando um Brasil utópico e enganando o Povo, somado ao definhamento do Mercado levantaram o motim das manifestações que levam milhões às ruas pedindo sua saída. Soma-se isso ao perfil centralizador e ausência de diálogo com a Política regional e de Brasília, tava na cara que qualquer saída seria válida para implodir seu cargo.

Neste sentido, a pedalada fiscal, ainda que seja crime de responsabilidade por má gestão, foi apenas o canal de descarga do seu mandato.

Diferente do impeachment de Collor, que era um forasteiro, a saída de Dilma bate de frente com o partido de maior patrimônio de marca do país, o PT - que ainda possui uma forte ressonância em diferentes castas da sociedade, do mais pobre ao pseudo-politizado de classe média/alta dos grandes centros.

Usando as palavras de um consultor político colega de faculdade, o PT ainda deve ficar com 20% do imaginário do eleitorado, mas pode desmantelar-se como partido a medida da saída da Dilma e uma potencial prisão de Lula por obstrução de justiça na Lava-Jato. Ainda assim, pode ser uma ameaça aos potenciais candidatos de 2016 e 2018.

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