OPINIÃO

Erros, acertos e talvez um novo Brasil após o impeachment

17/04/2016 01:05 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
Adriano Machado / Reuters
An opposition deputy holds papers that read, " Impeachment now!" during ballot to appoint a committee to report on whether to impeach President Dilma Rousseff at the National Congress in Brasilia, Brazil, March 17, 2016. REUTERS/Adriano Machado TPX IMAGES OF THE DAY

Há um ditado em inglês que diz que quando você vive ou convive com um dia muito importante, para você e/ou a comunidade que o cerca, nos referimos a ele como "o dia de uma vida" (a day of a lifetime).

Domingo será um destes dias para o Brasil.

Por um lado, estou especialmente triste de ver que o País, em menos de 25 anos, está em vias de executar o segundo processo de impeachment de seu representante máximo do executivo. Para mim é um sinal claro que o processo político-democrático do Brasil foi mal sucedido neste período pós-Constituição de 1988.

Por outro lado, vejo a atual crise política como uma oportunidade para uma série de pontos evolutivos:

1. Consciência política

Assim como numa guerra, na política não existe mocinho versus bandido onde todos sujam as mãos. Da mesma forma que o PT usa um forte discurso demagógico desde o início das suas operações, pautado em temos como "nós contra eles", "rico não gosta de dividir avião com pobre" e o agora famoso "golpe" contra a democracia e os programas sociais, a oposição mexe seus palitos para pavimentar o caminho de saída não somente da Dilma, mas do lulopetismo e de toda uma sigla.

Se é certo ou errado?

Talvez seja errado dos dois lados. Mas a democracia, seja aqui ou em outros lugares do mundo, é o menos pior dos regimes políticos. E sempre vai dar margem para tais tipos de atitudes. A política não é um conto de fadas, uma versão terno e gravata do Pequeno Príncipe, mas sim, uma guerra sem armas por poder, influência e interesses ao qual a população deve ser a grande beneficiada

O grande trunfo deste processo, ao meu ver, está no início de um processo de educação política do brasileiro. Ainda que vivamos um fla-flu entre inflamadas opiniões, este pode ser o princípio para construir uma base de análise e proatividade na agenda política do País. É desta disputa "besta" (com capítulos célebres em mídias sociais e seus expoentes) que pode nascer discussões mais fundamentadas e menos fundamentalistas sobre um tema foi negligenciado pela população por tantos anos.

2. Retomada do mercado

Eu, como profissional de marketing e de certa forma atuando também em comunicação, sou pró-mercado. Tenho a pia crença de que, a exceção de programas sociais que cumprem a função de amenizar distorções históricas em alimentação, educação, saúde e infra-estrutura, a melhor ferramenta para construção de um povo forte é o trabalho e o seu ganho a melhor fonte de transferência de renda que existe.

Desta forma, além da pedalada fiscal ser um crime de responsabilidade crível para derrubar um governo (ainda que possa ter acontecido em menor escala antes, não justifica a não-punição atual), o que o governo Dilma faz com a economia é um atentado ao mercado: a pior crise econômica da história do país, indústria com queda na década de 20% dos seus vencimentos, recorde de quebras de empresas, inadimplência e desemprego.

Logo a economia, alicerce do recorde de popularidade de Lula que trouxe a até então coadjuvante Dilma ao governo, vai acabar por ser seu calvário.

Sendo o mercado a entidade que remunera o sistema, inclusive o governo com impostos, podemos dizer que Dilma perdeu seu mandato exatamente aqui. O mercado, desde 2014, quer o fim da sua gestão e, ao invés de criar pontes para trazê-los próximo de seu dia-a-dia, ela optou por concentrar-se no DNA do seu partido e perdeu o alicerce principal de manutenção do PT no poder: a boa fase da economia.

Fica como destaque que este comportamento de isolamento e concentração no ideário lulopetista se viu também no diálogo com os demais partidos no Congresso e Senado: o processo que culminou na saída do PMDB da base começa do acúmulo de cargos ministeriais para partidos de claro viés de esquerda, como PDT e PC do B.

3. Mudança de agenda

Estamos há pelo menos 2 anos em uma agenda negativa de fatos, dados e projeções para o País, pelo dois pontos citados acima: política e economia. Praticamente não conseguimos ver uma luz no fim do túnel desde o 7x1 contra a Alemanha na Copa do Mundo (e aqui outro vacilo do PT e da população: o partido vendeu um país perfeito, bem sucedido. E metade do eleitorado comprou, por medo de mudança ou acreditando no discurso da época).

A saída do governo atual, com a manutenção da Lava-Jato e de outras operações que façam a varredura no modus operandi da corrupção que desvia verbas do patrimônio nacional, independente de qual lado estejam, com certeza é uma notícia que animará investidores a olharem para o país novamente, consumidores a realizar compras com mais confiança e ambiente para as reformas econômicas que o país precisa para um novo ciclo de desenvolvimento.

4. Mudança de cultura

Por último e não menos distante, temos uma rara oportunidade de mudança de cultura no modo de fazer política. Com a Lava-Jato e seus tentáculos que desmantelaram todo o sistema de corrupção que assola as principais empresas de infra-estrutura do Brasil, todo potencial corrupto e corruptor vai pensar duas vezes antes de adotar "atalhos" para obter vantagens.

Da mesma forma, a população perceberá que cada vez mais precisa estar em marcha com sua agenda de reivindicações para protestar, ir às ruas e construir um país melhor, à medida em que nossa classe política é medíocre e, na ausência de uma profunda reforma (quiçá Constituinte), continuará assim por muito tempo.

Sendo muito réu confesso com você, leitor, não tenho muita esperança de que o Brasil vai mudar a partir do impeachment. Mas vejo nele algo legal sob o ponto de vista jurídico, e mais do que isso: o ponto de inflexão para retomarmos uma agenda boa para termos empregos, dinheiro e oportunidades de trabalho e empreendedorismo de volta, além de ser mais uma semente para construirmos uma cultura que deixe o "jeitinho brasileiro" para o final de semana, ano novo e Carnaval.

A gente não precisa dele em dias úteis, das nove às seis.

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