OPINIÃO

Dois impeachments em 25 anos e o Brasil que falha com a democracia

12/09/2016 09:56 BRT | Atualizado 12/09/2016 09:56 BRT
Handout . / Reuters
Brazil's President Dilma Rousseff (C) poses for photos in Rio de Janeiro with former Brazilian Presidents Jose Sarney (L), Luiz Inacio Lula da Silva (2nd L), Fernando Henrique Cardoso (2nd R) and Fernando Collor (R) before flying to Johannesburg to attend the funeral of former South African President Nelson Mandela, December 9, 2013. REUTERS/Roberto Stuckert Filho/Brazilian Presidency/Handout via Reuters (BRAZIL - Tags: POLITICS) ATTENTION EDITORS - THIS IMAGE HAS BEEN SUPPLIED BY A THIRD PARTY. IT IS DISTRIBUTED, EXACTLY AS RECEIVED BY REUTERS, AS A SERVICE TO CLIENTS. FOR EDITORIAL USE ONLY. NOT FOR SALE FOR MARKETING OR ADVERTISING CAMPAIGNS

Olá pessoal,

Como blogger do HuffPost Brasil, e que postou muita coisa (inclusive com duras críticas ao pessoal favorável à manutenção da Dilma no governo) achei que, ao final do processo atual, tinha de voltar à escrever e expor alguns pontos que acho que vão permear o futuro da nossa jovem nação democrática.

Porque, convenhamos, duas rodadas de impeachment em menos de 25 anos mostra que em termos de democracia a gente precisa aprender bastante. A começar pela "galera" que eu, você, coxinha e mortadela promovemos a cada quatro anos para o Congresso Nacional.

Vamos aos pontos:

- Terminamos o processo que surgiu em 2013 com um racha no País: todos querem um Brasil melhor, mas cada um à sua forma. O grande culpado, neste caso, é a dialética "nós contra eles" que os dois lados, esquerda e direita, somada a uma educação política quase inexistente no País, criou um ambiente digno de Fla x Flu, Corinthians x Palmeiras.

- A questão central do tema, sobre ser golpe ou não: não sou jurista para julgar, porque até para eles a questão é polêmica. Mas a queda de Dilma, definitivamente, ultrapassa as pedaladas fiscais: Ainda que elas tenham acontecido em volume muito maior que outros presidentes, o que configuraria crime, sua derrocada vem da soma de quatro fatores:

A) Completa falta de traquejo com o poder, centralizando-o no momento que mais deveria formatar uma coalizão, no segundo trimestre do ano passado. E, caro amiguinho da esquerda, não me venha com a história de negociar com corrupto: o Brasil é assim desde 1500. Quer governar, fazer acontecer em Brasília? Vai ter que conversar com os dois lados da moeda, senão o sistema te arrasta para o limbo.

B) Estelionato eleitoral, uma vez que prometeu e apresentou um Brasil que não existia à época das eleições de 2014. O início do fim foi sua eleição a qualquer custo. Ainda que a coalização ajudaria a amenizar os efeitos, o fato é que se ela não fosse eleita talvez o PT e ela estariam mais fortes.

C) Má gestão econômica, gerando a maior crise do país em 125 anos, com recorde de desempregados, PIB em queda e afins. A economia é item sensível da percepção governamental no Brasil, e o resultado, somado ao quarto item, foram a incredulidade das pessoas e os movimentos nas ruas pedindo o fim do governo dela e do PT.

D) Lava-Jato: Claro que corrupção sempre existiu por aqui - lembra-se que os portugueses trocavam Pau-Brasil por espelhos para ludibriar os índios? E o PT talvez nem seja o partido que mais praticou atos ilícitos - o PMDB e sua configuração retalhada apresenta-se mais preparado para tal. Mas o fato é que a Lava-Jato tomou uma amplitude midiática inédita, com agentes importantes e próximos da presidência como cabeças do sistema.

- O que aconteceu foi simplesmente a reverberação de dois fatos: trazer o Michel Temer como líder da articulação no Congresso em abril e sua saída em agosto. Neste ponto o governo Dilma acusou que não tinha como negociar mais com deputados e senadores. Seu mandato na prática acabou em março, 90 dias depois de assumí-lo. Ao entregar a articulação política, ela deu de bandeja todos os caminhos para ter maioria nas duas casas. Ao tomar de volta no meio de uma grave crise, o cenário e oportunidade de cavar uma situação para tirá-la do Planalto.

- A queda de um presidente é como a de um avião: trata-se de uma soma de fatores. Assim como Collor caiu pela crise econômica que gerou, com tomada da poupança e super inflação, o retrocesso econômico de 2014-2016 cobrou seu preço à Dilma. O mercado, acreditem, é a força mais forte neste jogo de poder que a própria política: sempre que houve dois anos de recessão no Brasil, teve ruptura institucional: 1930 (Estado Novo), 1954 (suicídio de Getúlio Vargas), 1964 (deposição de Jango), 1982 (Diretas Já), 1992 (Collor). Uma vez que ele não está satisfeito, ele cobra a sua conta.

- Um ponto, no entanto, os dois lados tem razão: a Constituição brasileira foi rasgada ontem. Ainda que, pessoalmente, acredito que o impeachment foi legal (e sim, acho que uma recessão tamanha como enfrentamos, além das pedaladas, é preceito para retirar um presidente - por isso acredito mais no parlamentarismo), Ricardo Lewandoski, amigo pessoal dos fundadores do PT desde os anos 1970, acatou as influências vindas de São Bernardo e de Renan Calheiros para dar um "prêmio de consolação" à Dilma com a não-suspensão de seus direitos políticos.

- No final das contas, Dilma e Cunha continuam com seus destinos entrelaçados: dificilmente o tema da não-suspensão não vai salvá-lo em 10 dias. O resultado? Veremos novamente Cunha de volta ao Congresso em 2019, da mesma forma que Dilma provavelmente como senadora pelo Rio Grande do Sul. Achincalharam a Lei da Ficha Limpa, da mesma forma que criaram um precedente muito perigoso para a Lava-Jato e outras investigações que podem implodir o poder como é hoje - que é o que todos queremos.

- Claro que dois processos de impeachment em 25 anos mostra que falhamos como democracia. Ela nunca existiu de fato no país, e não vai existir enquanto tanto existirem uma grande faixa de corruptos no poder, quanto nós temos a capacidade de repetidas vezes os posicioná-lo por lá. Ainda vai demandar muita educação da gente para poder fazer um país melhor. Reforma política com os artistas atuais só muda a configuração do palco, não do espetáculo.

- Ao mesmo tempo, a agenda do Temer é bem clara desde o momento zero: ele vai priorizar a retomada da economia, cujas consequências o público verá no médio prazo: queda dos juros e da inflação, maior poder de compra, retomada do emprego, novas oportunidades. Longe de ser a rota mais popular, mas é a que tem de ser tomada agora. Com a Dilma não teríamos chances de evoluir como país; com Temer temos alguma oportunidade.

- Ao PT e quem é de esquerda, fica o papel nobre de ser uma oposição consistente, sem vomitar as palavras de golpe, democracia, misoginia e afins - que faz parte da retórica do "nós x eles" presente no DNA da marca desde sua fundação. Se deixar o PMDB e o PSDB governar o Brasil sem freio, não que os programas populares vão acabar, mas vai faltar algum senso de abraçar a população como um todo. Talvez esta seja a função mais importante do partido agora.

Para a gente, fica a reflexão que a democracia no Brasil não deu certo como ela está desenhada agora. Que, claro, o país vai evoluir e será muito melhor para ambos os lados - afinal a batalha é única aqui. A pergunta que fica é quando teremos educação e como para fazer a diferença e ter boas lideranças de fato.

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