OPINIÃO

O sol há de brilhar mais uma vez

20/04/2016 12:06 -03 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
ASSOCIATED PRESS
Opposition lawmakers celebrate after the lower house of Congress voted to impeach Brazil's President Dilma Rousseff in the Chamber of Deputies in Brasilia, Brazil, Sunday, April 17, 2016. The measure now goes to the Senate. Rousseff is accused of using accounting tricks in managing the federal budget to maintain spending and shore up support. (AP Photo/Eraldo Peres)

Domingo vimos o que é o nosso Congresso Nacional. Talvez devêssemos transmitir ao vivo debates como esses, diariamente, no Jornal Nacional, para que todos os brasileiros entendam quem está lá, nos representando.

Me questiono se a sessão do impeachment não significa uma veemente defesa das negociatas feitas tanto na gestão FHC quanto nas gestões Lula e Dilma. E a evidencia de uma grande falha em discursos como os da Rede e do Psol.

Sim, porque, vendo nossos deputados, fica no ar a pergunta: existe alguma outra forma, que não a mais sombria manipulação política, para levá-los a votar em algo que interesse ao País? Alguém acredita que 80% - vá lá - dos que falaram no domingo tem a capacidade, física até, diria eu, de apostar em um projeto de governo que não esteja ligado a benefícios pessoais? De agir de acordo com o interesse público?

Acho difícil.

Essa, entretanto, é a visão pessimista. Resignada. É a visão errada para o momento que vivemos.

Porque o momento, agora, é de transformar estruturas, não mais de aceitá-las.

Elas não se transformarão a partir de um purismo absoluto, que negue a negociação, mas podem ser reconquistadas pela população.

Tivemos duas décadas de um mesmo pacto. O PSDB forjou-o para uma agenda de centro ou centro direita, voltada ao ajuste - por vezes draconiano - das contas públicas.

O PT, para emplacar um intenso processo de inclusão social e combate a desigualdade. Entendo e discordo dos tucanos. Admiro o projeto do Partido dos Trabalhadores. Mas ambos - como fizera Getúlio - aliaram-se ao atraso para poder governar. Preferiram a cooptação ao embate. Talvez tivessem suas razões.

Hoje, no entanto, essas razões não valem mais. É chegada a hora de confrontar diferentes versões de País, abertamente, e deixar que o vencedor conduza o Brasil.

É chegada a hora de o PT, que já mostrou que pode ser governo, que já mostrou que é possível mudar a sociedade - ainda que o tenha feito com muitas limitações - volte a suas origens para voltar a crescer. Para voltar a ter agenda. Para voltar a ser o futuro.

Nesse sentido, há muito a ser comemorado - e há muito a ser feito. Nas últimas semanas, assistimos a uma forte recomposição do campo progressista, em meio a um cenário caótico e desalentador. Deixamos claro que, mesmo com divergências, há ideias e há unidade possível no âmbito da esquerda.

Até na votação do impeachment, vimos que é melhor uma minoria sólida, forjada no embate, a uma maioria anódina, artificial.

Falsa.

Há, aí, uma base decisiva para o que está por vir.

Não para uma posição sectarista, que se contenta em ter voz sem nunca dar a essa voz o poder político.

Há base para uma frente progressista renovada, aberta, capaz de dialogar com diversos setores da sociedade; capaz de construir propostas econômicas ao mesmo tempo realistas e avançadas com o objetivo de aprofundar o combate à desigualdade; capaz de empunhar as bandeiras da legalização da maconha, do aborto, da política de gênero, do combate sem tréguas à intolerância e ao preconceito.

Para, enfim, construir uma ideia de governo ampla, representativa da sociedade, mas que aponte para sua modernização. Que aponte para o futuro. Que aponte para um País com igualdade de oportunidades e com liberdade. Que enfrente, sem pactos e sem tréguas, o conservadorismo atrasado que vimos ontem, que prega a mentira, o falso moralismo, a manutenção eterna no poder de uma casta de velhos coronéis.

Porque é isso - e só isso - que os defensores do impeachment no Congresso nos oferecem. Que supostos jovens liberais anti fisiologismo já tenham anunciado candidaturas pelo DEM, reduto histórico do patrimonialismo brasileiro, é incompreensível. Mas deixemos isso para uma outra hora. A política - sobretudo a que assistimos no domingo - tem os seus mistérios.

A prioridade, agora, é levantar a cabeça e entender que há uma enorme força na derrota de ontem. Não a força do imediato. A força do amanhã. A força de quem constrói um novo projeto.

É nele que precisamos continuar a investir, com ânimo redobrado. Com as manifestações, debates e encontros das últimas semanas. Com a disposição para as críticas internas, por mais duras que sejam. Com a convicção de que é preciso novas práticas e novos caminhos.

Porque eles não são uma utopia, muito pelo contrário, são o que o Brasil pede.

Temos mobilização. Temos ideias. Temos lideranças.

Vamos para a luta. Primeiro para barrar o impeachment no Senado.

Depois, se vitoriosos - e podemos ser vitoriosos -, para refundar o governo Dilma.

E, se derrotados nessa batalha - será apenas uma de muitas - para impedir o governo ilegítimo de Michel Temer. Um governo que já nasceria rejeitado por todas as esferas da população, à esquerda, ao centro e à direita.

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