OPINIÃO

Dia 13 é o dia da barbárie

12/03/2016 14:36 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:40 -02
Anadolu Agency via Getty Images
RIO DE JANEIRO, BRAZIL - DECEMBER 13: Thousands of people gather to protest against the government of Brazilian President Dilma Rousseff at Copacabana beach in Rio de Janeiro, Brazil on December 13, 2015. (Photo by Nicson Olivier/Anadolu Agency/Getty Images)

Manifestar-se contra uma ideia, um projeto, um partido, um governo, faz parte do jogo democrático. É a beleza do sistema. Em troca da minha liberdade de dizer o que eu penso, tenho que aceitar o que os outros defendam o que bem entenderem, por mais absurdo que seja, na minha opinião.

Mas e quando o jogo foge do modelo democrático? Quando acreditar em uma ideia, um partido, um governo, se torna motivo de ódio, ofensa, perseguição? Não, não estou exagerando. Hoje, defender o PT, defender Lula, defender o direito da presidente Dilma de concluir seu mandato se tornou motivo para xingamentos e ameaças. Se eu disser que sou contra o pedido de prisão do ex-presidente, imediatamente afirmam que sou um defensor da corrupção e, mais, que sou eu mesmo um corrupto, certamente pago através de alguma "maracutaia" petista.

Sempre defendi o debate de ideias. Sempre defendi a capacidade de discordar, até frontalmente, de alguém e manter o espaço para o diálogo. Acredito piamente que é possível ter uma visão de mundo oposta a de outra pessoa e assim mesmo respeitá-la. Não corroboro a ideia - que vigora em muita gente da esquerda - de que se alguém tem uma análise da economia e da sociedade que difere da minha trata-se, necessariamente, de um arauto da desigualdade e da discriminação. A meu ver, um liberal e um comunista podem, ambos, acreditar que buscam o melhor para a maioria da população.

Mas e quando não há mais espaço para o diálogo? E quando cria-se um cenário no qual o único caminho possível é a disputa entre diferentes modelos, entre diferentes projetos?

Nesse momento, o único caminho é o embate. Deixo claro - antes que o MP de São Paulo peça a minha prisão -, não advogo aqui o embate físico. Não estou conclamando ninguém a pegar em armas nem a agredir adversário políticos no meio da rua. No entanto, me parece demagógico que tantas pessoas - articulistas, políticos, amigos - que durante tanto tempo adotaram posições radicais, surdos a qualquer apelo, a qualquer argumento, agora se encolham, com medo do conflito.

Porque agora o conflito é o único caminho. Falar em diálogo e em serenidade, hoje, é assumir a derrota. É fazer um jogo clássico na história da esquerda, brasileira e internacional: fala grosso quando não há risco, desperdiçando a possibilidade de convencer, de buscar consensos; amedronta-se quando o risco é total e a luta é iminente.

Foi assim que se perdeu em 1964.

Foi assim que o PT perdeu a oportunidade de mudar a realidade política do país, preferindo acreditar que o pacto precário que consumou duraria para sempre.

Há horas de conciliar. E há horas de atacar. De vencer, a qualquer custo.

Agora é hora de vencer. É hora de ir para às ruas - se é que a esquerda ainda tem ruas para ir, espero eu que tenha. É hora de bater sem medo nos adversários - estejam eles em partidos ou em órgãos do Estado. Reitero, tudo isso dentro da Lei e sem violência. Mas com decisão. Com - metaforicamente, MP de São Paulo, metaforicamente - a faca entre os dentes.

Passou a hora de tergiversar. Passou a hora de ouvir os falsos apelos dos colunistas partidarizados que vêem agressão no que é tão somente resistência.

Não se trata do PT. Não se trata de Lula. Não vejo na conduta do ex-presidente nem no que a ele imputam sinal qualquer de uma atitude criminosa. Também não vejo nele, é necessário dizer, a ética pessoal mais ilibada do mundo. Ao que tudo indica, Lula aceitou o que não deveria ter aceito. Aproximou-se em demasia de estruturas das quais deveria ter mantido distância. Fez, em suma, o jogo cotidiano da política. Não é por isso, contudo, que querem destruí-lo. Se fosse, teriam o mesmo ímpeto com Aécio, Alckmin, Serra, FHC e tantos outros, que rezaram e rezam exatamente na mesma cartilha.

Querem destruir Lula não porque ele jogou o jogo e sim por onde ele apostou suas fichas. No deslocamento do poder em uma sociedade historicamente monolítica. Na diminuição - e apenas na diminuição, nunca na reversão - do domínio social de uma casta. Lula fez isso ajudando grandes empresários - e empreiteiras - a ganharem dinheiro e continuarem - vide aprofundarem - seus esquemas milenares. Está pagando por isso. Mas fez.

É difícil assumir - e atualmente quase não se tem coragem de dizer -, mas o melhor governante nem sempre é o mais ético. Dilma é provavelmente muito mais rígida moralmente do que Lula e é uma presidente muito pior do que ele foi. Se analisássemos as contas pessoais de Jânio Quadros ou do Marechal Lott elas seriam certamente mais imaculadas dos que as de JK ou Fernando Henrique Cardoso.

Só que política não é o jogo de quem tem a moral mais intocada. O que importa não é quem suja as mãos e sim porque se suja as mãos. Ou melhor, por quem. Pela maioria ou pela minoria? Política serve para mudar. Para fazer a sociedade avançar. Não é um concurso de castidade. Não deve ser.

Por isso, no Brasil - e geralmente no mundo - os movimentos conceituais "contra a corrupção", esses sem pauta política, que gostam de dancinhas e gritos fanatizados, servem, 99% das vezes, ao retrocesso social. Já serviram à religião, já serviram aos militares, agora servem a senhores algo indefinidos - mas igualmente apolíticos e perigosos.

A política partidária pode se degradar. Pode perder o sentido e precisar ser reformada. Refundada até. Mas não pode, jamais, ser negada. Porque ela, com todos os seus defeitos, é humana. Seus erros, qualidades e limites, para o bem e para o mal, são os nossos erros e limites. Quando a abandonamos em prol de ideais inalcançáveis, pela ilusão de que vamos "limpar o país" abrimos as portas da barbárie.

Porque, por trás da perfeição da moralidade, esconde-se o monstro do autoritarismo e da brutalidade.

É ele que desfila, ainda tentando disfarçar-se, no dia 13.

Dele eu quero distância - e por isso não estarei nas manifestações pró impeachment e proto ditatoriais. Mas a distância não basta. É preciso enterrar o monstro.

E, para isso, é preciso lutar.

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