OPINIÃO

Apoiar o impeachment é apoiar a conspiração. A luta está só começando

16/04/2016 23:28 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
EVARISTO SA via Getty Images
Brazilian Vice President Michel Temer speaks during a meeting with Prince Haakon of Norway at Planalto Palace in Brasilia, on November 16, 2015. AFP PHOTO/EVARISTO SA (Photo credit should read EVARISTO SA/AFP/Getty Images)

A lista de absurdos a que estamos assistindo nessas semanas que precedem a votação do impeachment é longa e já tem sido amplamente citada. Por isso vou me ater somente ao último capítulo: a atuação tresloucada e manchada pela vaidade pessoal - a níveis nunca antes vistos na história desse país - do vice presidente Michel Temer.

Sei que os favoráveis à deposição da presidenta não são hoje - se é que um dia o foram - sensíveis a argumentos.

Não adianta dizer que o que está em jogo não é o PT ou Dilma, que erraram muito e merecem duras críticas - assim, como reconhecimento pelos avanços que inegavelmente proporcionaram ao Brasil.

Não adianta dizer que é possível defender o combate à corrupção sem a ingenuidade de localizá-lo num só partido.

Não adianta dizer que o PSDB e o PMDB, com quem os defensores do impeachment estão aliados, são governo em todo o Brasil, são investigados na Lava Jato e respondem por diversos crimes graves, que resultaram em desvios bilionários dos cofres públicos.

Não adianta dizer que o impeachment, como está se dando, é uma manobra de bandidos e derrotados para tomar o governo de assalto.

Não adianta dizer que o bolsa família, as cotas, o Prouni, o investimento no ensino técnico, o ganho de direitos, as políticas salariais, o esforço - muito aquém do necessário, é verdade - para conduzir obras estruturantes, a inclusão universitária, o combate à desigualdade, tudo isso e muito mais, mudaram o País. Mudaram e não estão sendo revertidos agora, ao contrário do que a mídia e analistas rasos fazem crer.

É justamente por isso, aliás, que a parcela insatisfeita e menos raivosa da população, a que está decepcionada com Dilma, mas não vai a protestos, se mostrar contra o governo em diversas pesquisas. Porque não aceita recuos e se mobiliza para manter o que conquistou. A tal nova classe média e, junto a ela, a maré de jovens que romperam com um ciclo de exclusão secular e foram os primeiros de suas famílias a entrar na Universidade, não serão desconstruídos por nenhuma crise.

Eles são uma realidade e uma transformação definitiva. Tem, hoje, um poder que nunca tiveram. E dele não abrem mão.

Para quem já tem a cabeça feita nada disso interessa ou mesmo faz sentido.

Quem sabe, no entanto, não adiante falar - ou melhor, escrever - para aqueles que ainda ouvem? Para os que ainda aceitam o debate de ideias.

Para eles eu pergunto: como é possível justificar a atitude do vice presidente Michel Temer?

Como é possível aceitar que o homem que receberia a missão de conduzir o país no lugar de Dilma se comporte não apenas com sordidez pessoal - o que, ainda poderia-se argumentar, não é diferente do que fazem 90% dos nosso políticos -, mas com tamanho desprezo institucional?

Como é possível associar o impeachment da Presidenta, que, sob qualquer ótica, deveria se dar em função de crimes que ela tivesse cometido, a uma disputa eleitoral?

Michel Temer, que até anteontem estava de cabeça no Governo, que se elegeu ha um ano e meio sabendo como o Governo funcionava, não se contentou em fingir uma ruptura inexplicável.

Digamos que tivesse percebido, iluminado por uma fagulha divina, o erro de ter apoiado Dilma e o PT - e aproveitado o dinheiro do Partido dos Trabalhadores, venha de onde vier, em sua campanha.

Isso o levaria a sair da base e a não mover uma palha para ajudar a Presidenta. No extremo dos extremos, a defender o impeachment pelo que é: um processo de punição institucional ao executivo.

Michel não fez uma coisa nem outra.

Michel entrou em campanha, furiosamente. Reúne-se com deputados, vaza programas de governo, negocia cargos e ministérios. Nem o mais fervoroso crítico do PT pode negar: o vice-presidente transformou o impeachment em uma eleição.

Age como se visse sua grande chance de chegar ao topo e, encantado, não pudesse desperdiça-la. Ao ponto de fazer deste domingo não o dia em que se decide se a Presidenta deve ou não permanecer no cargo, mas de decidir se o presidente do Brasil será ela ou ele.

Ao agir assim, Michel, com seu comparsa, Eduardo Cunha, dá à História (não à História que só se escreve com a distância do tempo, mas à História que vemos ser escrita agora, a História viva) todos os argumentos necessários para bradar aos quarto ventos: esse impeachment é golpe.

É golpe e, não se iludam os entusiastas, levará a lutas brutais dentro da sociedade brasileira. Que deputados, pensando, a maioria deles, no seu próprio interesse, tenham isso em mente. O governo Dilma foi eleito e, acusado do que quer que seja, tem legitimidade para lutar.

Tem legitimidade para brigar por cada voto, para usar todas as armas - dentro da legalidade - de modo a derrotar não à cobrança das ruas, que deve ser ouvida, como muitas vezes não foi, e sim a ação eleitoral vergonhosa e antidemocrática que paira em torno de Michel Temer e Eduardo Cunha.

Nenhum governo que dela nasça será legítimo.

Nenhum programa - como o que o PSDB acredita ser possível implementar - que seja por eles sustentado levará a qualquer avanço. Os tucanos, ao embarcarem nessa onda, cometem o erro mortal de se embalarem por um canto de sereia.

É preciso acabar no domingo com a insanidade do golpe peemedebista/tucano, que usa as voz das ruas, nunca as reflete. É preciso para o bem do Brasil. É preciso sobretudo para proteger o interesse dos que odeiam o Governo. Para que eles possam disputar o poder no terreno da Democracia e, se vencerem, terem o direito de conduzir - ou ao menos defender no Congresso e junto à sociedade - o programa que acharem adequado.

Porque se ganharem no tapetão estarão acabando com a gestão petista, sim, mas, acima de tudo, estarão acabando com qualquer governo de oposição que venha a existir posteriormente, manchado pela disputa indireta, pelo jogo baixo da política que explora loucamente enquanto diz condenar, corroído em sua origem pela aliança com as forças que foram, no mínimo, coresponsáveis pelo que houve de pior nos últimos anos.

Não se iludam amigos. Derrotar o golpe é tarefa primordial. No entanto, o impeachment não destruirá o PT, pelo contrário. Levará o partido de volta à oposição fortalecido por uma militância de esquerda que o havia abandonado e disposto a fazer o discurso das ruas. Disposto e forçado a se renovar.

Nesse cenário, o tal "governo de salvação nacional" do Michel, esse que parece destinado a, em cinco minutos, acalmar o mercado e os empresários e a corrigir todos os males do Brasil, buscará salvar apenas a si mesmo, com garras muito mais afiadas que as de Dilma.

E não conseguirá.

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