OPINIÃO

Eis que a TV escondeu o pianista russo Evgeni Kissin

09/02/2014 13:59 -02 | Atualizado 26/01/2017 20:51 -02
Wikimedia

Evgeni Kissin é um dos prodígios da escola russa de piano. Eis que a participação dele em determinado concerto foi deliberadamente escondida na programação do canal de TV por assinatura Arte 1.

Não me entendam mal. A Arte 1, lançada no ano passado pela Band, foi uma das grandes novidades da televisão brasileira. Supriu, como nova opção, a demanda pela alta cultura de uma parcela pequenininha de telespectadores. São (somos) gente que gosta de música de concerto. A emissora está de parabéns por existir.

O problema é que o público na frente da tela tem uma exigência por informações que é desconhecida dos operadores da programação. A emissora fica então sujeita a gafes ou erros muitíssimo chatos.

O exemplo que relegou Evgeni Kissin ao anonimato aconteceu na segunda-feira, 6 de janeiro. A emissora transmitiu o concerto pelo qual a Filarmônica de Israel comemorou seus 75 anos, com a regência de Zubin Mehta, num ambiente acusticamente esquisito, o hangar 11 do porto de Telaviv. A gravação não é tão recente assim. Aconteceu em dezembro de 2011, e a apresentação já é comercializada há tempos em DVD.

Na telinha, a informação era a de que Mehta teria como solistas "três deslumbrantes solistas da geração mais jovem". E não deu o nome de nenhum deles.

É tão bizarro quanto dizer que a seleção brasileira de futebol, dirigida pelo técnico Luiz Felipe Scolari, venceu a Argentina por três gols a zero, todos marcados por "deslumbrantes jogadores da geração mais jovem".

Kissin foi o solista do "Concerto para Piano no 1", de Chopin. Ele completara 40 anos havia dois meses (não era mais tão jovem assim). Desde sua emersão internacional, aos 18 anos, entrou para a lista dos três ou cinco melhores pianistas ainda vivos.

Russo de nascimento e hoje cidadão britânico, Kissin é dono de uma fabulosa musicalidade. Ele faz parte de uma escola nacional que já nos deu Horowitz e Richter, ou, mais recentemente, Engerer, Pletnev, Ashkenazy ou Lupu.

Os planos de sua segunda passagem pelo Brasil, em 2012, foram abortados porque, na véspera da turnê, o pai dele morreu. Na época, o grande elogio que se poderia fazer a ele era o fato de ter gravado o "Concerto no 3", de Rachmaninov (Sinfônica de Boston, regência de Sergei Ozawa) -- uma das peças mais difíceis do repertório -, e foi capaz de rivalizar com a gravação de referência, a de Martha Argerich (e a Sinfônica da Rádio de Berlim, com o maestro Riccardo Chailly).

Pequeno detalhe. Antes da crise econômica de 2007, os empresários de Kissin negociavam para ele um cachê de US$ 500 mil por récita. Era e ainda é muito, muitíssimo dinheiro. Dentro do mercado, era o que cobrava na época a Filarmônica de Berlim por apresentações muito afastadas da Alemanha. O cachê de Kissin depois decresceu. O maestro Zubin Mehta e a Filarmônica de Israel, que o receberam em Telaviv, nunca chegaram a pedir, em conjunto, uma quantia tão elevada.

Claro que não se pode exigir que a Arte 1 saiba ou conte toda essa história. Mas pelo menos que se coloque o nominho do pianista, por extenso, na programação.

Kissin e suas mãos ao teclado foram amplamente enquadrados durante a transmissão. Seu nome não estava no sumário da programação que o telespectador procurava por meio de um botão do controle remoto. E não constava, tampouco, da programação da Arte 1 na internet.

É insuficiente que o nome de Kissin tenha aparecido na tela uma única vez, antes do "Maestoso", o primeiro dos três movimentos que Chopin escreveu, em 1830, para esse segundo e último concerto para piano em seu catálogo.

Na mesma transmissão, a "Partita para Violino no. 2", de Bach, foi interpretada -- sem a participação da orquestra, é óbvio -- por Julian Rachlin, lituano então com 37 anos e um dos intérpretes superlativos de seu instrumento. Fez excelentes gravações dos concertos de Brahms, Sibelius ou Tchaikovsky. Gosta de música de câmera, que teve a honra de, ainda muito jovem, praticar ao lado de Rostropovich, Mischa Mainsky ou Gidon Kremer.

O terceiro solista "anônimo" foi um violinista belga de origem russa, o festejadíssimo Vadim Repin, com 40 anos na época do concerto de Telaviv. Ele foi o primeiro colocado, aos 17 anos. do Concurso Rainha Elizabeth, da Bélgica, e desde então é um especialista em música russa e francesa. Aliás, interpretou o "Poema", op. 25, do francês Ernest Chausson.

Estampar o nome do solista no início de cada peça não basta. Teria sido necessário fazê-lo ao início de cada movimento e também ao final. É o padrão internacional, adotado na Europa e nos Estados Unidos. Pelo botãozinho do controle remoto, a única menção aos músicos é de que eram "deslumbrantes solistas".

Lembro-me que nos anos 1990, no comecinho da TV por assinatura, um canal decidiu tapar um buraco de sua programação com uma "Tosca" que estava à mão na mesa do operador. Mas a ópera era bem maior que a minutagem disponível. E a ópera foi cortada justamente depois de um duo de amor entre Tosca e Mario Cavaradossi. Um final curiosamente feliz, bem ao contrário da tragédia musicada por Giacomo Puccini, em que Cavaradossi é fuzilado, e Tosca se suicida ao descobrirem que ela matou Scarpia, o chefe da polícia política em Roma, às vésperas da chegada das tropas de Bonaparte.

Na época, e como jornalista, entrei em contato com a emissora para informar que, do ponto de vista do telespectador, era uma maldade transmitir uma ópera editada por conta própria. E também disse que era fundamental, para o público, saber quem assegurava a regência daquela produção específica.

Eu me referia, obviamente, ao maestro. Muito bem intencionado, um funcionário me encaminhou uma lista com nomes de diretores de gravação, aqueles que determinam em que momento a câmara deve focar determinado cantor. Necas de maestros.

Mais ou menos na mesma época, uma das grandes sinfônicas do Rio fazia turnê pelo Nordeste. Reportagem de um jornal do Recife dava até a tonelagem dos equipamentos que a orquestra transportou (coisa de show de rock), mas simplesmente omitiu o nome do maestro que regeria as apresentações.

Será que, passados tantos anos, as coisas melhoraram? Eu diria que, em verdade, nem tanto.