OPINIÃO

A estranha tribo dos pirahãs

04/03/2014 11:09 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:12 -02
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O semanário Der Spiegel publicou há alguns anos ("Brazil´s Piraha tribe", 3.5.2006, edição internacional) um curioso texto sobre os Pirahãs, um povo indígena cujo idioma não tem numerais ou verbos conjugados no futuro ou no passado. E ainda, o que gerou imensa controvérsia acadêmica, não tem frases subordinadas.

Os hoje cerca de 230 pirahãs (segundo o Conselho Indigenista Missionário, ou 420, segundo a Funasa) mantiveram sua cultura, apesar de terem sido contatados pelo homem branco desde 1921. Suas terras estão no município de Humaitá, no Amazonas, à beira do rio Maici. Não andam mais nus, trocam castanhas por utensílios domésticos ou armas para a caça.

Mas agora correm um sério risco de acelerada aculturação. Em 2011, o governo federal instalou um gerador elétrico numa de suas duas aldeias. E, em seguida, chegou um aparelho de televisão. É altamente provável que, no entrechoque com a língua portuguesa que chega por meio da TV, o idioma pirahã esteja a caminho do cemitério onde tristemente repousam milhares de línguas mortas.

Parêntese. Vamos nos desfazer da visão ingênua sobre o ameríndio brasileiro. Não, o índio não precisa andar eternamente nu. Não, o contato com o homem branco pode ter alguma utilidade, já que é inevitável. Não, os pirahãs não vivem num paraíso terrestre que será destruído pela eletricidade instalada pelo governo.

O linguista americano David Harrison ("When Languages Die", Oxford University Press, 1997) escreveu que 40% dos idiomas hoje existentes correm o risco de extinção. Enquanto os mais falados (mandarim, inglês ou espanhol) são língua materna de 80% dos humanos, outros 3.500 idiomas o são para apenas 0,2%. Os temores de Harrison estão num instrutivo artigo do jornal inglês Independent (19/7/2007).

A etnolinguística é para mim uma disciplina fascinante. Por meio dela, comprovamos que não existem pensamentos dissociados da linguagem. Se eu penso determinada coisa, é porque conheço a palavra à qual essa coisa se refere.

Os pirahãs, que falam o único idioma sobrevivente do grupo linguístico Mura, podem estar em contagem regressiva para abandonarem sua forma absolutamente singular de falar - e, portanto, de também conceber o mundo, o que é a mesma coisa.

O idioma deles foi estudado por um ex-missionário e linguista americano, Daniel Everett, que ao todo passou sete anos em companhia desse grupo e publicou sobre ele seis estudos em revistas especializadas. Everett tem uma biografia curiosa. Chegou à Amazônia para converter os pirahãs ao cristianismo. Tinha formação teológica, mas também linguística, para poder traduzir os textos catequéticos.

Com o passar do tempo, no entanto, ele se convenceu de que esse negócio de conversão religiosa era uma grande bobagem. Deixou até de acreditar em Deus. Há um documentário de 40 minutos sobre ele e os pirahãs, produzido pelo Smithsonian Channel e pelo canal europeu Arte. Se puderem, assistam:

O documentário também resume a polêmica acadêmica entre Everett e o linguista Noan Chomsky, para quem é lógica e historicamente impossível que algum idioma não tenha frases subordinadas, conforme afirma o ex-missionário.

Mas não é bem essa a principal curiosidade. Sem palavras para designar números, os pirahãs não precisam de nenhum raciocínio matemático para serem felizes e conceberem o mundo como bem entendem.

A propósito, o Spiegel relata que o psicolinguista Peter Gordon, da Universidade Columbia, visitou os pirahãs e submeteu um grupo deles a joguinhos que confirmassem a inexistência de qualquer raciocínio que levasse em consideração a ideia de números. Tentou ensiná-los a contar até dez. Missão impossível.

A questão do tempo verbal é ainda mais curiosa. Sem ter verbos no passado, os pirahãs não concebem, como nós o fazemos, seus próprios ancestrais. E, sem verbos no futuro, tampouco concebem como nós, dentro de sua própria cosmologia, uma vida temporariamente fixada após a morte.

Digamos, para não criar nenhum mal-entendido preconceituoso. Os pirahãs não são uma pequena civilização de retardados. Eles são altamente sofisticados, mas à maneira deles. Acreditam, por exemplo, que existem planos físicos paralelos e superpostos, cada um com um tipo de vida. O Instituto Socioambiental, ONG confiável, o que nem sempre é o caso quando falamos de indígenas, traz um resumo muitíssimo bem feito sobre as crenças e a complexa relação entre a vida atual e a forma pela qual ela se transforma com a intervenção de um dos mundos paralelos ao nosso e para nós invisível.