OPINIÃO

Funções executivas: sucesso na escola, sucesso na vida

25/04/2014 11:06 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:24 -02
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No artigo anterior, tratamos neste espaço da importância da leitura desde os primeiros anos de vida. Transformar seu filho num ávido leitor, numa pessoa apaixonada por livros e leitura é a primeira importante dose da vacina contra o fracasso escolar.

Hoje vamos tratar da segunda dose: o controle executivo ou controle das funções executivas. O sucesso na escola, e na vida, depende de nossa capacidade de controlar as faculdades mentais que nos permitem aprender, pensar e agir com um pouco de sabedoria e prudência: lembrar dos fatos, organizar os acontecimentos, planejar, agir de forma consistente, avaliar o que fizemos. Não é isso que esperamos de uma pessoa madura?

Um exemplo facilita: a criança aprende a saltar com um pé só segurando um ovo numa colher. São inúmeros músculos e movimentos que ela precisa controlar. Não é à toa que é só lá pelos 5 ou 6 anos que a maioria das crianças consegue fazer isso sem deixar o ovo cair. Ela tem que fazer várias manobras - e evitar outras tantas. O controle das funções executivas é um pouquinho mais complexo, mas nada que seu filho não possa ir aprendendo desde cedo. Vamos à fórmula e aos ingredientes.

A primeira parte da fórmula refere-se a três habilidades básicas: guardar informações na memória, não se deixar distrair da tarefa e ser flexível para lidar com novas situações.

Vacinamos nossos filhos quando os estimulamos a prestar atenção no que estão fazendo ou ouvindo, repetir sequências de atividades em ordem, seguir instruções com 2, 3 ou 4 comandos sucessivos (vá na gaveta, vire a chave, olhe no canto direito e traga a meia preta). Uma atividade mais complexa exige que a criança deixe de fazer alguma coisa para chegar ao resultado: se eu levantar a mão direita você levanta o pé esquerdo; ou mais difícil ainda: se eu disser SIM você fica parada, se disser NÃO você anda. Isso requer que a criança "iniba"o impulso natural. É assim que as pessoas aprendem a pensar e a se controlar - resistindo aos impulsos.

Vacinamos as crianças quando as estimulamos a não prestar atenção a estímulos concorrentes: se estamos conversando, jogando ou lendo juntos, vamos nos concentrar nisso, e não na campainha que toca, na TV ou no celular.

Ensinar a criança a ser flexível é um pouco mais complicado. Só aos poucos ela vai entendendo, mas devemos começar desde cedo. Por exemplo, você diz que a criança tem que seguir um determinado caminho, como se fosse um trilho. Mas, e se vier um trem do outro lado? Ensinar a ser flexível é isso: siga a linha, mas se houver acidentes de percurso, use o desvio, depois retome o caminho. Trata-se de evitar a rigidez, mas sem perder o rumo.

Essas três habilidades se desenvolvem no dia-a-dia da convivência, confiando às crianças pequenas tarefas e desafios de dificuldade crescente, e ajudando a criança a não cair em tentação, não perder o fio da meada. Elas são muito importantes em si mesmas, mas elas também são a base para a segunda parte da vacina: as habilidades de nível superior - planejar, resolver problemas e raciocinar.

Vacinamos nossos filhos contra o fracasso escolar quando planejamos as atividades junto com eles. O que você vai fazer agora? E depois? Com que você vai brincar? O que você vai fazer com esse brinquedo? Durante a brincadeira ajudamos nossos filhos a raciocinar e resolver problemas, estimulando-os a explicar situações ("Como é que o cara tirou essa foto? Como pode esse carro ter ficado nessa posição ou por que essa cor não saiu do jeito que você queria?"). A palavra mágica diante de dificuldades e dúvidas é: vamos procurar, vamos ver como é. E pelo diálogo você estimula seu filho a procurar respostas, sempre proporcionais à capacidade dele, mas sempre atentos para que ele encontre e teste soluções.

Há um provérbio africano que diz que é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança. Educar uma criança é trabalhoso e exaustivo, mas vale a pena. É a melhor herança que podemos deixar a eles, e à nossa espécie.