OPINIÃO

Mudança climática: quem vai liderar?

23/04/2014 10:21 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:28 -02
Chung Sung-Jun via Getty Images
SEOUL, SOUTH KOREA - APRIL 28: Members of the 'Council of Elders' Delegation, former US President Jimmy Carter (R) and former President of Ireland Mary Robinson attend the press conference after their trip to North Korea on April 28, 2011 in Seoul, South Korea. Former US President Jimmy Carter has had a long association with Korean affairs and met with delegates across his tour of the country as one of a delegation of four former state leaders known as the 'Council of Elders'. (Photo by Chung Sung-Jun/Getty Images)

Com os últimos alertas emitidos pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês) nas últimas semanas, nenhum líder mundial poderá dizer que foi pego de surpresa pela mudança climática.

Como ex-chefes de Estado, passamos por crises globais dentro dos corredores do poder. Algumas podem surpreender, mas às vezes os sinais de alerta são tais que não há desculpa para não agir. O relatório do IPCC é um desses sinais.

O relatório do Grupo de Trabalho II do IPCC é, até agora, a avaliação que mais abre nossos olhos para os riscos que a mudança climática representam para a humanidade, descrevendo uma série de ameaças num tom claro, mas comedido. Ao redor do mundo, colheitas e casas já estão correndo riscos. A situação vai piorar se nada for feito. Choques econômicos e agravamento da pobreza, exacerbados por um planeta em aquecimento, também vão aumentar os riscos de conflitos armados. Os pobres são os mais vulneráveis. O relatório não dita cenários precisos, mas nos diz, com autoridade sem precedentes, para o que devemos nos preparar.

Por essa razão, ele é um convincente chamado à ação dos governos. Esperamos que ele desencadeie ações decisivas - notavelmente em relação à redução das emissões de gases estufa e ao financiamento da adaptação climática - a caminho de dezembro de 2015, quando os líderes mundiais vão se reunir numa conferência em Paris para buscar um novo acordo em relação ao clima.

Nesta semana, vamos a Paris, como Elders, para ajudar a dar impulso em direção a este prazo. É difícil superestimar a importância desse processo. A mudança climática ignora fronteiras nacionais. Negociações multinacionais continuam a ser a melhor abordagem para que o mundo chegue a uma solução abrangente. Pedimos que em Paris 2015 haja um acordo robusto, justo, universal e que represente comprometimento legal das partes.

O relatório do IPCC não descreve apenas riscos, ele também descreve oportunidades. Existem soluções. O mundo tem as ferramentas e a tecnologia necessárias para reduzir as emissões de carbono, construir uma economia mais sustentável e acabar com nossa contínua dependência em combustíveis fósseis. Muitos governos, empresas e líderes comunitários já apontam o caminho, promovendo energias renováveis e desenvolvendo soluções de baixo custo para que nos adaptemos aos impactos presentes da mudança climática.

Como Elders, acreditamos que o mundo deva estar livre do carbono em 2050 para que mantenhamos o aquecimento do planeta inferior a 2°C, sem prejudicar as oportunidades de desenvolvimento para os pobres. Os especialistas dizem que isso é factível, mas requer lideranças visionárias e uma ação coordenada e corajosa. No fim das contas, é responsabilidade dos governos e de seus líderes mostrar o caminho e garantir que a transição para a neutralidade de carbono seja justa.

Mas seria fácil demais lavar as mãos e culpar os políticos pelo fracasso na luta contra a mudança climática. Todo fracasso seria coletivo. Responder à mudança climática é responsabilidade de todos.

Com dezembro de 2015 no horizonte, queremos sublinhar particularmente a importância dos movimentos jovens para criar a expectativa necessária que costuma ser a faísca inicial para que algo aconteça.

Além disso, são os movimentos jovens que determinam a dedicação e o dinamismo com os quais sua geração vão confrontar essas mesmas ameaças quando chegar sua hora de liderar.

E, com uma população cada vez mais jovem, são os jovens que, por definição, são os mais vulneráveis e diretamente preocupados com as ameaças da mudança climática.

Por todos esses motivos, a juventude deve ser mobilizar agora.

Vamos nos reunir com alguns desses jovens líderes em Paris. Também vamos ouvir as pessoas na linha de frente da mudança climática, do Chade às Filipinas, para saber quais são as soluções que eles estão desenvolvendo para lidar com os efeitos mais devastadores desse fenômeno.

Compartilhando nossa experiência e estabelecendo o diálogo entre gerações, esperamos incitar os líderes atuais a aproveitar a oportunidade do processo que leva a Paris em dezembro de 2015.

Os jovens vão herdar nosso planeta, nossos sucessos e nossos fracassos. Como Elders, os exortamos a não subestimar sua força, sua influência e sua responsabilidade em dedicar-se ao maior desafio de nosso tempo.

Jimmy Carter foi o 39º presidente dos Estados Unidos. Mary Robinson é ex-presidente da Irlanda e presidente da Mary Robinson Foundation - Climate Justice. Ambos são membros do The Elders, um grupo de líderes globais independentes que trabalham pela paz, pela justiça e pelos direitos humanos em todo o mundo.