OPINIÃO

Protestos na Copa do Mundo indicam avanço democrático no Brasil

13/06/2014 15:16 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:43 -02
Joe Raedle via Getty Images
RIO DE JANEIRO, BRAZIL - JUNE 12: A protestor holds a 'FIFA Go Home' sign during an anti-World Cup demonstration in the Copacabana section on June 12, 2014 in Rio de Janeiro, Brazil. This is the first day of World Cup play. (Photo by Joe Raedle/Getty Images)

Na última quarta, na Avenida Paulista, multidões de pessoas com agendas diferentes convergiram. De um lado da rua, manifestantes carregavam uma faixa vermelha que dizia "Não Haverá Copa do Mundo". Eles bloquearam a artéria central de ônibus durante a hora do rush para denunciar a Copa do Mundo, a Fifa e o governo. Entre eles estavam apoiadores dos trabalhadores do metrô demitidos em uma greve não autorizada que deixou o trânsito da cidade paralisado durante dias. Em um bar de esquina do outro lado da rua, uma multidão de torcedores de futebol de todo o mundo se tornava tão grande que ameaçava fechar o tráfego no outro sentido. Os torcedores, principalmente croatas, mexicanos, argentinos e americanos, tiravam fotos dos manifestantes e vice-versa, e a presença de cada grupo em termos de ruído, pessoas e capacidade de interromper o trânsito alimentava o outro: os protestos faziam parte da Copa do Mundo e os torcedores faziam parte do protesto.

Existe muita cobertura dos protestos e há muitas perguntas sobre o que eles significam para a Copa e para o Brasil, mas uma maneira de compreendê-los é olhar para as últimas duas vezes em que esses eventos foram realizados na América Latina: em 1978 a Argentina sediou a Copa do Mundo. Em 1968 e 1970, o governo mexicano organizou o mesmo par de eventos que o Brasil está iniciando agora: as Olimpíadas de 1968 e a Copa do Mundo de 1970.

Em 1968 na Cidade do México, os protestos cresceram antes das Olimpíadas, as demandas de estudantes e trabalhadores por melhores condições evoluíram para uma denúncia do governo, que tinha sido controlado em todos os níveis pelo Partido Revolucionário Institucional (PRI) desde os anos 1920. O governo do PRI havia realizado uma rápida industrialização, a reforma agrária e projetos de bem-estar social, e agora via as Olimpíadas e a Copa como eventos que exibiriam suas conquistas.

O PRI recompensou seus seguidores, mas lidou violentamente com a dissidência. Dez dias antes da inauguração das Olimpíadas, atiradores sobre edifícios no bairro moderno de Tlatelolco abriram fogo contra manifestantes, matando centenas deles. Em vez de indicar a emergência do México no cenário mundial, os acontecimentos mostraram como era fino o verniz de democracia no México e até onde iria o PRI para manter o controle.

Em 1970 o Brasil ganhou a Copa do Mundo no México, enquanto os brasileiros experimentavam os extremos mais duros da ditadura militar que governou de 1964 a 1985: em meio a repressão, tortura e desaparecimentos, o regime tinha gerado um "milagre econômico" que contava com mecanismos que levaram a uma crise da dívida paralisante e à hiperinflação. O regime usou a vitória no futebol como metáfora de seus êxitos econômicos e declarou um feriado nacional de cinco dias.

Quando a Copa do Mundo se realizou na Argentina, em 1978, o país era governado por uma junta militar -- déspotas que mataram sistematicamente de 14 mil a 30 mil de seus concidadãos entre 1976 e 1983, em uma campanha conhecida como guerra suja. As partidas em Buenos Aires ocorreram a pequena distância do mais famoso centro de detenção e tortura do regime, a Escola de Mecânica da Marinha.

Henry Kissinger sentou-se ao lado dos ditadores como seu convidado nos primeiros jogos. Quando pareceu que a equipe argentina não avançaria se não ganhasse um jogo contra o Peru por uma grande margem, Kissinger visitou o vestiário do time peruano durante o intervalo. Não sabemos o que ele disse, mas a equipe peruana que lutou com a Argentina, mantendo o 0 a 0 no primeiro tempo, perdeu por 6 a 0 no segundo. A Argentina avançou e meses depois um carregamento de cereais doados chegou ao Peru, vindo da Argentina.

Ativistas de direitos humanos na Europa tentaram boicotar a Copa, mas nenhuma equipe ou jogador aderiu. Ainda assim, entre os jogos, jornalistas voltaram suas câmeras para o grupo de mães que protestam na Praça de Maio em Buenos Aires, caminhando silenciosamente em círculo, segurando cartazes com as imagens de seus filhos desaparecidos e a pergunta escrita: "Onde estão eles?"

O que é diferente este ano é que a Copa não está sendo realizada em uma ditadura. Ao contrário, desde a saída do Brasil da ditadura militar, nos anos 80, o país construiu uma robusta democracia, que em muitos aspectos causa vergonha aos Estados Unidos: a votação é obrigatória e todos os adultos têm o direito de votar; a contagem dos votos é realizada por tribunais especiais e acima de crítica; há duros limites sobre o fluxo de dinheiro para campanhas, e para reduzir o papel do dinheiro os candidatos têm tempo grátis nas emissoras.

Em consequência, o que o mundo está vendo no Brasil são manifestantes que atuam pelo impulso que construiu a democracia no Brasil e o tirou da ditadura, muitas vezes confrontados pela polícia cuja tática e cujo treinamento são resquícios do regime militar.

A ansiedade que os ganhos econômicos da última década estão se perdendo com o custo de vida em rápida ascensão; a frustração de que todo o duro trabalho de construir uma democracia a partir da ditadura não levou a ganhos mais fortes na superação das profundas desigualdades sociais. Os manifestantes comparam os belos estádios construídos para cumprir os padrões da Fifa com suas escolas pobres, com professores mal pagos e hospitais dilapidados, onde a falta de suprimentos e de leitos combinam doença com indignidade.

A Copa é um pano de fundo para greves em todo o Brasil. Enquanto os jogos começavam ontem, houve 17 protestos planejados em todo o país. Alguns são políticos, como o passeio de bicicleta "Fuck Fifa" no Rio de Janeiro, enquanto outros são sobre questões mais banais, como a marcha "Copa do Mundo para Quem?", em Fortaleza. A Copa é o pano de fundo perfeito para a greve: em nenhum outro momento os trabalhadores do transporte têm tanta influência em sua negociação; além dos trabalhadores do metrô, os motoristas de ônibus em muitas cidades, assim como trabalhadores em aeroportos no Rio de Janeiro, fizeram greve ou ameaçaram fazê-la. Juntamente com eles, professores, funcionários de universidades e de tribunais federais e muitos outros reclamam aumentos de salários: o índice de inflação oficial é de 6%, mas nos mercados parece maior. Qualquer trabalhador que não receba um aumento de pelo menos esse valor este ano está efetivamente recebendo um corte de salário significativo.

A Copa do Brasil não é uma apresentação coreografada de ordem e progresso (o slogan na bandeira brasileira). Em vez disso, é um choque ruidoso de objetivos e exigências, torcedores e manifestantes, esperanças e ansiedades. É assim que uma Copa em uma democracia deve ser.

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