OPINIÃO

Por que deixei de transar com caras que estão em relacionamentos abertos

"Não estou disposto a servir de figurante numa relação aberta, mas também não acho que haja nada de mal nessas relações."

30/11/2017 15:53 -02 | Atualizado 30/11/2017 15:56 -02

Brian Finke

Ser gay não é mais o que era. Do mesmo modo como o conceito de "gays e lésbicas" evoluiu e se ampliou para converter-se em LGBTQ, vários aspectos desse último grupo, especialmente o das relações entre gays, também se ampliaram, tornando-se mais inclusivas.

Hoje em dia, nem entre os círculos mais conservadores e simpatizantes de Donald Trump as pessoas defendem apenas as relações a dois. Mais ou menos a metade das pessoas que me contatam através do Grindr já têm companheiro ou procuram alguém que queira participar de uma ménage à trois por uma noite.

Parece que todo o mundo anda querendo mais, e, graças ao Grindr, Tinder e todos os outros aplicativos para encontros, as possibilidades e oportunidades são infinitas.

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Segundo uma pesquisa de 2016, 41% dos homens homossexuais no Reino Unido tinham um relacionamento aberto naquele ano ou já o tinham tido algum dia. É uma porcentagem muito alta de pessoas que fazem parte de um casal, mas ao mesmo tempo estão interessadas em conhecer outras pessoas.

Nunca tive uma relação aberta, mas já participei de algumas ménages à trois, e em três delas participaram também casais que supostamente mantinham relacionamentos abertos (e todos esses relacionamentos começaram sem a ajuda da internet). A última vez em que fiz parte de uma ménage à trois foi há quase seis anos. Foi em Bangcoc, com um homem negro da Filadélfia e um branco da Austrália. Eles dois já tinham sido amigos com direito a transas ocasionais.

O romântico inveterado que carrego dentro de mim gosta de imaginar que qualquer encontro sexual pode levar a uma segunda vez ou a algo mais.

Apesar dos bons momentos que já vivi, posso afirmar com total sinceridade que nunca mais voltarei a participar de uma ménage à trois, e menos ainda com um casal. Não quero mais saber de casais interessados em conhecer mais gente, em fazer ménages à trois. Cansei dos encontros rápidos de uma noite só com esse tipo de pessoa. São um beco sem saída para o terceiro na história.

O romântico inveterado que carrego dentro de mim gosta de pensar que qualquer encontro sexual pode levar a uma segunda vez e a algo mais. Portanto, para mim, transar com um homem que tenha companheiro (ou com dois) e mantenha uma relação aberta com ele faz tão pouco sentido quanto ficar com um homem casado. Talvez o companheiro desse homem esteja de acordo, esteja ele presente ou não, mas não vai passar de uma transa de uma noite apenas. Ainda é uma coisa que não vai ter futuro.

As limitações românticas de se transar com homens que têm namorado ou marido não se limitam ao encontro propriamente dito. É preciso levar em conta também as motivações psicológicas por trás de algumas relações abertas e a hipocrisia que elas podem encerrar. Supõe-se que elas sejam baseadas na liberdade sexual e na amplitude de visão, mas muitas vezes há algo por baixo disso (tanto para o namorado quanto para a terceira pessoa).

Seja sexy. Mantenha alguma distância. Mas não se deixe apaixonar.

Louis-Paul St-Onge

Já fico neurótico o suficiente com um homem apenas. Quem precisa de pressão adicional para não ir além de revelar que gosta de sair com homens que já têm namorado? Será que é realmente tão horrível querer vê-los de novo, e não apenas para fazer sexo? Segundo dois amigos meus que têm um casamento aberto, é, sim.

Se as relações abertas visam fomentar a liberação sexual, por que se estabelecem regras tão rígidas?

"É proibido beijar."

"É proibido se abraçar."

"Só oral."

"Só estamos nos divertindo."

"Só quando estamos viajando."

"É proibido se apaixonar."

Prefiro transar com um homem mais independente, mas sem essa censura emocional. Alguém que me deixe pelo menos olhá-lo nos olhos, se o ambiente for propício. Alguém que pode até ficar para o café da manhã.

Não estou disposto a servir de figurante numa relação aberta, mas também não acho que haja nada de mal nessas relações.

Apesar de eu não estar disposto a servir de figurante numa relação aberta, não acho que haja nada de mal nelas. Antes eu ficava revoltado com a ideia de um casal dividir sua vida sexual com outras pessoas, mas hoje eu não julgo mais. Continuo sem acreditar nessa teoria de que os seres humanos não somos monógamos por natureza (para mim, manter ou não uma relação de casal é uma inclinação mais individual que universal), mas entendo que há muita gente atraente e desejável aí fora. Ou será que a natureza nos exige comer a mesma coisa três vezes por dia pelo resto da vida?

Eu queria que houvesse mais gays defensores da não monogamia dispostos a admitir que são "viciados" em experimentar todas as amostras, sem precisarem defender, explicar ou justificar sua decisão. Não é problema se você se excita com a variedade e quer curti-la. Seja sincero com você mesmo e com seu namorado sobre o que você quer e por que quer. Em outras palavras, assuma e encare as consequências.

Quando alguém que faz parte de um casal que mantém uma relação aberta começa a apelar para a ciência como desculpa para continuar saindo com várias pessoas ao mesmo tempo, fico pasmo. O problema de voltar a cair naquele argumento de que "as pessoas não são monógamas por natureza" é que isso implica que optar pela monogamia seria antinatural. É como dizer: "Não nos julgue, mas nós vamos te julgar". Há pessoas que são felizes comendo do mesmo prato todos os dias, e a natureza não exige que elas mudem.

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Outra defesa/explicação/justificativa habital é baseada na posse: não somos donos do nosso companheiro nem de seu corpo. Se alguém pretende ser fiel, que o seja porque é isso o que realmente quer fazer, e não porque se sinta na obrigação de sê-lo.

Eu até estaria de acordo com essa ideia, se não estivesse implícita nas regras estabelecidos por muitas pessoas que dizem estar vivendo uma "relação aberta". Porque, mesmo assim, essas relações "abertas" se baseiam no controle. Mas coincido com a valorização da obrigação romântica. E, como aponta a protagonista da história de Ayn Rand, The Husband I Bought (O marido Que Comprei), a sensação de obrigação em um casal pode garantir certa dose de segurança, mas não um amor infinito. É claro que uma relação aberta não teria sido a solução para a heroína de Rand, cujo marido tinha se apaixonado perdidamente por outra pessoa.

Eles precisavam de algo sem limitações nem barreiras, algo que incluísse mais do que se permite em uma relação aberta, algo mais poliamoroso. A "terceira roda" de uma ménage à trois não precisa ser descartável.

Prefiro transar com um homem mais independente, mas sem essa censura emocional.

Ultimamente ando percebendo que muitos gays que mantêm relacionamentos abertos os descrevem como "poliamorosos", algo que, embora possa parecer pouco sexy, parece ter eliminado a parte negativa da monogamia. Além disso, supõe que se reconheça que não apenas é muito normal alguém sentir atração por uma pessoa que não é seu cônjuge, como é possível se apaixonar por essa pessoa.

Não me sinto à vontade mantendo uma relação desse tipo, mas, olhando de fora, as pessoas que mantêm relações poliamorosas parecem bem mais atraentes como parceiros sexuais que as tradicionais ménages à trois com um casal. Todas essas regras tão pouco flexíveis que se colocam nas relações abertas podem ir para o raio que as parta. E, se a paixão e o desejo florescem ao longo da noite, não é preciso cortá-os pela raiz quando nasce o sol.

*Este artigo foi publicado originalmente na edição americana do HuffPost, foi traduzido do inglês por Lara Eleno Romero para o Huffpost España e editado e resumido para facilitar sua compreensão.

*Este conteúdo representa a opinião do autor e não necessariamente a do HuffPost México.

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