OPINIÃO

Um ano em Montpellier

06/01/2016 10:47 -02 | Atualizado 26/01/2017 22:34 -02

2015-11-26-1448581697-7674092-Cannes2.jpg

Quando penso no meu tempo na França, duas coisas vêm logo ao espírito: Uma foto que meu pai tirou de desconhecidos em Cannes, vestidos à moda do verão da Riviera, num cumprimento banal, no meio fio. E o caminho que eu fazia ao descer do tramway para o apartamento na Rue de l'Aiguelongue, entre pinheiros altos e estranhos.

Reencontrei meu pai em Nice, já no fim do meu exílio de quase um ano: ele demorou tanto a aparecer no saguão de desembarque que comecei a chorar no meio do aeroporto. Saímos para um almoço em nosso hotel em Cagnes-sur-Mer e então para um café de bairro em Cannes, onde tomei Pastis Ricard e comi o melhor tiramisù da minha vida. Voltei para o Brasil e assim que ele também, mostrou-me a foto, tirada da janela do apartamento alugado. Foi paixão à primeira vista. Dois estrangeiros numa cidade que eu mal conhecia ligavam minha ida à França à volta ao Brasil com um único reencontro. Hoje, finalmente - já voltei há mais de quatro anos - ele me deu o quadro de presente, e espero pendurá-lo na parede antes de terminar este texto.

Percorri os pinheiros do Aiguelongue na minha primeira noite em Montpellier, no dia 28 de agosto de 2010, depois de um dia inteiro na praia com Vania. Era minha declaração de independência: o bairro já estava deserto àquela hora mas eu insisti em caminhar até o cinema - Utopia Diagonal - onde estavam exibindo Copacabana, com Isabelle Huppert. Fiquei fascinada com o mobiliário vermelho, chique e cheirando a mofo, e a discreta elegância dos intelectuais de bairro. O som do português - ou "brasileiro", como muitos deles teimavam - ecoando numa sala sem ruído de pipoca e a satisfação cuidada de um programa de domingo à noite. Foi aí, talvez, nessa ida e volta pelo "caminho de pinheiros" que achei meu lugar no Midi, e muito da minha vida nos meses seguintes tomaria exatamente este percurso: o "tabac" dos livros de bolso a dois, três ou quatro euros, a padaria que vendia o pior croissant de toda a França, a agência bancária da LCL, onde abri minha conta universitária, o pequeno e prestativo supermercado dos Petits Écoliers e das barras de Lindt e, a algumas quadras, a universidade.

Nem todas as minhas aulas no excelente IEFE da Université Paul-Valéry me preparariam para anos depois sentir ainda mais intensamente esta viagem. Consigo reviver hoje a emoção de folhear os livros da Biblioteca da Pléiade na Sauramps ou de me perder, com mapa pré-salvo no Google Maps sem 3G, pelas ruas do Centre-Ville. Vivendo num orçamento bem apertado e comendo Charolais do McDô no almoço, ou comprando a seis euros a primeira garrafa de Bourgogne, especialmente para o boeuf bourguignon. Foram muitos passeios à Nicholas, sem aprender absolutamente nada sobre vinho, nem quando tentei (sem sucesso) ir de bicicleta até uma vinícola do Languedoc!

A saudade, longa durante o inverno, nos dias que antecedem a primavera vira felicidade expandida. Como disse um amigo francês: "Aqui, nós gostamos de viver as estações. De tomar sopa no inverno e comer ratatouille no verão". E eu vivi quase todas elas, chegando a tempo para os estivales e os concertos de rock ao ar livre, indo embora bem no solstício de verão, no dia 21 de junho de 2011.

Foram 10 meses vividos como uma vida inteira, e é por isso que hoje retorno a eles.

(A continuar)

Veja também no HuffPost Brasil:

Melhores cidades para jovens

SIGA NOSSAS REDES SOCIAIS: