OPINIÃO

'Steve Jobs' é um retrato terrível e fascinante do criador da Apple

01/02/2016 23:31 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02
Reprodução/IMDB.com

Quem ainda não leu Steve Jobs, de Walter Isaacson, vai querer fazê-lo depois de ver o novo filme de Danny Boyle. As duas obras, excelentes individualmente, são complementares e podem ser resumidas em uma única frase, da minha avó: Jobs é terrível... e fascinante.

Não dá para entender nem as críticas da Apple à adaptação nem a sua baixa performance nas bilheterias americanas. Ou ainda as econômicas indicações ao Oscar: foram apenas duas, Melhor Ator para Michael Fassbender e Melhor Atriz Coadjuvante para Kate Winslet. O roteirista Aaron Sorkin disse à imprensa que a ideia era fazer uma pintura, não um retrato. Para isso a escolha de Fassbender foi essencial.

O filme é construído sobre três grandes lançamentos: do Macintosh, em 1984, em meio à ousada e brilhante campanha "1984", com pano de fundo emprestado do clássico homônimo de George Orwell; do NeXT, em 1988, que no livro ganhou o sugestivo título "Prometeu"; e finalmente, do iMac, em 1998, trazendo de volta Lee Chow da Chiat/Day de "1984" para "provar que a Apple ainda está viva, e que ainda significa algo especial", como Jobs contou a Isaacson.

Ao longo desses três momentos Boyle e Sorkin exploram o relacionamento dele com o mundo à sua volta, em especial com a filha ilegítima Lisa (Sorkin teve a oportunidade de entrevistá-la recentemente) e a sempre presente (numa licença poética em relação à biografia) Joanna Hoffman, seu braço direito no marketing.

A dança entre pai e filha é um dos pontos altos do filme, e um acréscimo em relação à obra original. O formato, também. A estrutura narrativa tem um timing tão impecável, e o momentum criado antes de cada lançamento é tão eficiente, que a minha experiência não foi comprometida nem mesmo quando a sessão - numa sala de cinema em São Paulo - foi interrompida mais de cinco vezes por problemas técnicos.

O filme inspira.

O recorte dado pelo diretor é de mestre e mostra por que amamos - ou odiamos - a Apple.

E também Jobs.

Porque é claro que ele rouba a cena.

Fassbender atua com cada músculo do seu corpo, numa demonstração de incrível carisma: no tom de voz um pouco abaixo do normal na maior parte das cenas, no controle absoluto sobre seus movimentos e palavras, emprestando ora indiferença ora intensidade a uma performance apaixonada do início ao fim.

Seu Jobs é quase uma pintura impressionista: ele nos atrai e repele ao mesmo tempo, num misto de sensualidade, afeto e da mais pura crueldade.

É um Jobs de autor, como outros personagens interpretados por ele - já vimos esse magnetismo em Rochester, de Jane Eyre, ou no androide de Prometheus, ou em Frank.

E embora não conte toda a história -- como aliás nenhuma obra de arte deveria fazer -- depois de 2 horas na poltrona, nos faz querer mais, lembrando por que afinal vamos ao cinema.

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