OPINIÃO

Pré-candidato ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, 'Scary Mother' é maior do que os temas que aborda

Em dado momento, um personagem diz: é o texto mais corajoso e profundo que li nos últimos anos. O mesmo pode ser dito do longa de estreia de Ana Urushadze.

12/11/2017 08:06 -02 | Atualizado 12/11/2017 08:06 -02

Scary Mother / Divulgação 2017

Família na copa para o café da manhã. De preto, com salto de verniz, a mais velha tem um livro gordo no colo. Lê. O pai passa por ela e pergunta se é algo interessante. Ela responde: é do meu escritor favorito. Meus escritores favoritos escrevem livros ruins às vezes, ele diz. Quando eu amo um escritor, ela retruca, gosto de tudo dele, não importa o que escreva. O pai brinca: pois eu achava que os escritores eram amados por seus livros. A não ser, claro, que a minha mulher seja esse escritor.

A cena prosaica e quase banal ajuda a criar tensão em Scary Mother, primeiro longa-metragem da diretora georgiana Ana Urushadze. A obra venceu o Festival de Sarajevo e é o indicado da Georgia para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro de 2018. Há anos a Georgia tenta um lugar entre os candidatos ao prêmio, e dessa vez, parece que vai conseguir.

O filme - terror para alguns, distopia para outros - é diferente de tudo o que já vi. Não só pela música - lâmpadas prestes e canos soltos compõem a trilha sonora - ou pelo tratamento do tempo - vemos tudo como um plano único, quando na verdade nesses 107 minutos, dias, meses discorrem diante de nossos olhos.

Ou pelos personagens: aquela gente estranha e estrangeira me provocou mais empatia do que todos os personagens que conheci em 2017. Scary Mother está contido em um espaço-tempo próprio apenas para rompê-lo. Seus temas são relevantes: o conflito entre a arte e a família, o mito e a verdade, a mulher numa sociedade pós-comunista. Mas o filme consegue ser maior do que todos os seus temas.

Manana tem 50 anos, três filhos e um marido. Vive com a família num conjunto habitacional da Georgia e está escrevendo um livro. Na primeira cena, acorda num quarto pequeno e vai até a janela. Por dentro, o apartamento é simples mas decorado com bom gosto e minimalismo. Por fora, a parede é gasta e feia. Ela sai para fazer compras e volta, mas ainda não sabemos que é para o mesmo apartamento - o seu.

Há um desconforto palpável nesse primeiro contato com os filhos e com o marido. Ele a repreende pela falta de cuidados com a aparência e o corpo. Com afeto autoritário, limpa os seus pés na pia do banheiro, depois oferece dinheiro para comprar um vestido, pede que esconda a raiz grisalha dos cabelos. "Você sabe que não tenho tempo para isso, estou escrevendo um livro", ela responde.

Scary Mother / Divulgação 2017

No café, a família espera o momento em que todos sentarão ao redor da mesa de jantar para Manana ler a obra em voz alta. A princípio, só uma outra pessoa conhece o seu conteúdo: o dono da papelaria em frente ao prédio, um senhor de meia idade que olha para as pessoas mais do que devia. Para ele, trata-se de uma obra-prima e Manana é um gênio. Logo, estão todos ao redor da mesa, mas o texto que ela lê - como uma bula de remédio - é, bem, estranho.

A janela se torna preta. Não aguento mais. Arranco a camada superficial da minha pele, como uma máscara, e ando até a porta. Preciso deixar esta casa. Um pedaço de carne escorregadia no sofá... meu marido. Ele é tão escorregadio, que não consigo segurá-lo. O cheiro do seu perfume envenena os meus sonhos. Todas as noites, com olhos vermelhos, inspiro seu odor.

Os filhos também estão presentes, em sua versão alternativa, e o vizinho promíscuo com a sua amante de tranças, agora em fusão com a protagonista. Os filhos reais levantam da mesa, o marido interrompe a leitura. Não é uma autobiografia, grita o dono da loja. E é verdade. Talvez seja uma outra autobiografia.

A partir de então, o filme se torna outra coisa. Vemos Manana a sós com os outros personagens. Ao marido, conta um sonho que teve: ela e Manananggal, bruxa vampiresca da mitologia filipina que se alimenta do sangue de mulheres grávidas e dos corações de fetos, eram uma só. "Minha mãe não lia contos de fada para eu dormir, lia mitos", conta ao marido, que mal consegue conter a sua surpresa.

Visita o pai - tradutor brilhante sem cordas vocais - que até então não sabíamos existir. Entra em sua casa e o encontra dormindo. Há afeto entre os dois, e verdade. Ele espera as últimas páginas dessa obra suja cujo autor desconhece. "Você sabe que tenho uma mente aberta. Mas nunca li nada tão sujo quanto as páginas desse autor."

Vai morar com o dono da papelaria, que nunca é totalmente revelado para nós. Nunca sabemos, tampouco, se Manana é um gênio ou uma louca que suga a vida de todos ao seu redor para produzir pornografia barata. Ela se parece cada vez mais com o seu alter-ego vampiresco, e o fim, como todo bom fim, é um clímax, um anti-clímax e um novo começo.

Acho que todo filme - e toda obra de arte - carrega essa promessa de romper com o que a gente conhece e espera. Em dado momento, no filme, uma personagem diz: é o texto mais corajoso e profundo que li nos últimos anos. Bom, o mesmo pode ser dito do longa de estreia de Ana Urushadze.

Vou ao cinema toda semana com a esperança de ver algo assim. Agora é torcer por mais filmes georgianos.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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