OPINIÃO

Isabelle Huppert, 'Elle', e a latente crítica à burguesia ocidental

11/01/2017 18:47 BRST | Atualizado 11/01/2017 18:47 BRST
Regis Duvignau / Reuters
Actress Isabelle Huppert attends a news conference for the film "Elle" in competition at the 69th Cannes Film Festival in Cannes, France, May 21, 2016. REUTERS/Regis Duvignau

Vi Isabelle Huppert pela primeira vez nas telonas há exatos 15 anos, em janeiro de 2002. O filme era A Professora de Piano, a sala ficava em um conjunto comercial da Augusta e eu tinha apenas 20 anos. Fui ver sozinha pois meus amigos não gostavam muito desse estilo de entretenimento. Já eu, achava cinema de arte (i.e europeu) o máximo. Era meio da tarde de um dia de semana e a sala estava quase vazia. A projeção parou de repente e todos ganhamos um ingresso extra, para outro dia qualquer. Nunca voltei para terminar o filme. Mas a sexualidade arrebatadora da personagem de Huppert me perseguiu durante todos esses anos.

Ver Elle nos dias de hoje foi como entrar numa máquina no tempo. Conheci outras performances da atriz francesa de lá para cá - a mais marcante talvez seja sua atuação em Copacabana, que conferi em um cinema de bairro de Montpellier dias depois de desembarcar na cidade - mas o lançamento traz a mesma temática subliminar de Professora: a perversidade do desejo e da intimidade. Lembro como se fosse ontem de duas cenas em especial: quando o aluno se opõe à relação sadomasô, e quando ela sobe em cima da mãe, na cama, no momento de maior desespero (e tesão).

Cheguei à Caixa Belas Artes sozinha também, mas o cinema, agora, estava lotado. Não para menos: Elle acabara de ganhar o Globo de Ouro de melhor filme estrangeiro. Ao meu lado, um senhor de 80 anos, bermuda e chapéu panamá.

O mis-en-scène é bem francês: a bem-sucedida empreendedora gamer com passado literário e silhueta impecável, o filho imbecil (mas alto) que trabalha chez Quick (só quem morou na França sabe o quão degradante é esse predicado), a nora bonita, abusiva e poligâmica, o ex-marido falido porém escritor, a mãe narcisista e seus gigolôs, e o desfile de pretendentes (sexuais) de Michèle (Huppert): do nerd subordinado ao psicopata, passando, é claro, pelo marido da melhor amiga e sócio. A crítica bem humorada à burguesia ocidental é latente em todo segundo.

(Alerta: spoilers).

Acho que muitos se deterão sobre a temática de estupro ou sobre o crime original, que o NYTimes brilhantemente associou a Rosebud e MacGuffin (em referência a dois dos melhores momentos do cinema ocidental: Cidadão Kane e toda a filmografia de Hitchcock). 'Elle' é muito mais do que isso. É um tour de force de Huppert -- não conheço outra atriz de 63 anos (ou de qualquer outra idade) que consiga transmitir tanta sensualidade e torne tão verossímil o despertador do desejo no outro (inclusive em sua sócia de meia idade).

Ainda assim, é inevitável que, principalmente no contexto atual, alguém faça caso da suposta misoginia do filme. Ou queira ver a origem de tudo no crime do pai durante a infância da protagonista.

Mas Elle é francês. E, por isso, quase cômico-trágico. Ri em várias cenas inapropriadas (para desespero de meu colega de poltrona) e saí da sala incrivelmente mais leve do que há 15 anos. Basta lembrar que durante as mais de 2 horas de projeção, o objetivo principal de Michèle é garantir a seu alter-ego gamer o orgasmo mais intenso da história.

Ela, por sua vez, finalmente o atinge durante um estupro controverso.

Huppert definitivamente merece muitos outros prêmios.

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