OPINIÃO

Por que 'A Chegada' é o melhor filme na corrida ao Oscar

É o melhor filme na corrida rumo ao Oscar e uma das melhores ficções científicas da história do cinema.

24/02/2017 15:48 -03 | Atualizado 24/02/2017 16:45 -03
Divugação
Amy Addams é a linguista Louise Banks em 'A Chegada'

Quando era adolescente e queria aprender francês, meu tio-avô perguntou: "quer ganhar outra alma?".

Apesar de seu inconteste valor literário, só fui entender a pergunta quando vi A Chegada. Indicado a 8 categorias no Oscar 2017 (atrás apenas do musical de Damien Chazelle, La La Land) e baseado em uma noveleta super premiada de pouco mais de 40 páginas, o filme é ficção científica à moda antiga. Os temas? De tudo, um pouco. O tempo, a interdependência entre consciência e linguagem, amor, determinismo e a nossa humanidade.

A narrativa começa despretensiosa. Na telona, uma casa de vidro elegantemente decorada, duas taças de vinho sobre a mesa e a luz de fim de tarde: justamente, não sabemos se é finzinho do almoço ou começo do jantar, o que aliás, tem tudo a ver com o que vem depois. Em voice-over, uma carta de de mãe para filha, tentando identificar o momento zero de sua existência.

A linguista Louise Banks (Amy Adams) começa um dia comum de sua rotina, uma aula sobre a língua portuguesa no campus da universidade. A apresentação é interrompida quando uma notícia invade os smartphones dos alunos: um OVNI bem ali, no quintal da superpotência americana. Louise vai para casa, fala com a mãe ao telefone, assiste às notícias, e no dia seguinte volta para o campus, agora vazio. Então recebe a visita de dois agentes da CIA que querem que ela os ajude a traduzir a linguagem usada pelos extraterrestres.

Ela embarca na aventura sem qualquer treinamento prévio e nós, espectadores, vamos junto. A respiração dentro da parafernália espacial é tensa e lenta, e Amy Adams consegue transmitir um espectro amplo de emoções apenas com o olhar e a respiração.

Ainda assim, até então, poderia se tratar de qualquer filme (bom) do gênero. Mas à medida que Louise embarca na missão ao lado de Dr. Garret (Jeremy Renner), cientista encarregado de traduzir os conceitos físicos básicos dos alienígenas, uma outra história começa. Os ETs dispõem, aparentemente, de duas linguagens: uma verbal, dificílima de ser compreendida por nós humanos, já que eles não têm nem usam faringe, e a escrita, semasiográfica que, bem, acontece do lado de fora do tempo. Antes de começar a escrever, eles já sabem tudo o que vão dizer, e o espaço que ocupará na tela.

Essa primeira constatação, tão simples estruturalmente, é o ponto de partida para uma das teses mais profundas que já encontrei na ficção. À medida que Louise mergulha na linguagem dos outros - Dennis Villeneuve e Eric Heisserer realmente merecem todo recibgecunebripor essa adaptação - começa a sonhar na língua deles e, bem, a ter memórias do futuro.

No texto original de Ted Chiang, História da Sua Vida, que ganhou todos os prêmios do gênero quando foi publicado em 1988, Louise reflete sobre qual seria a importância da linguagem num contexto em que tudo já é sábido, e chega à conclusão de que apenas quando algo é dito, torna-se realidade.

Só por isso, a obra já valeria a pena.

Vi o filme duas vezes e li a coletânea do início ao fim (o conto Entenda é brilhante como poucos). É o melhor filme na corrida rumo ao Oscar e uma das melhores ficções científicas da história do cinema.

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