OPINIÃO

Pelo prazer de ser mulher

09/03/2016 19:21 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:38 -02

Já faz tempo que quero escrever sobre a mulher neste novo contexto de luta e liberdade. Há muito a ser dito, e embora não nos demos conta às vezes, muito é dito. Todos os dias.

O oito de março é uma data feminista, não um dia de comemoração. Ele nos lembra as (absurdas) violências físicas, psicológicas, emocionais e sexuais sofridas por nós ao longo dos séculos, e o quanto, depois de tantos anos, ainda estamos longe de uma igualdade de direitos, como o cartaz reproduzido no Instagram do ator Chris Hemsworth bem mostra.

Ainda assim, (e talvez exatamente por isso) acho que devemos aproveitar a oportunidade para celebrar o prazer de ser mulher. Pois ele depende do autoconhecimento e da autoaceitação muito mais do que qualquer valor, regra ou estupidez imposta pela sociedade. É um prazer íntimo e pessoal, e uma vez conquistado, ninguém consegue mais tirar da gente.

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Quando era pequena, queria ser menino. Odiava aqueles vestidos rodados, com camadas e camadas de tecido em pleno verão baiano, que pinicavam por baixo da roupa e não davam a liberdade de movimentos que precisava para brincar com as outras crianças.

Odiava ouvir que meninas não podiam falar alto (ou palavrão), e deviam ser adoráveis (o que eu não era, com minhas lentes fundo-de-garrafa de sete graus de hipermetropia) e charmosas com todos.

É triste pensar que, naquela época, a minha percepção do feminino estivesse associada (e limitada) a etiquetas sociais tão dispensáveis.

Hoje, quando vejo os meninos e meninas das novas gerações, tenho a impressão de que, três décadas depois, virou mais cool ser mulher.

Há uma exacerbação do feminino onde quer que eu olhe, e nas discussões, sempre importantes, travadas no ambiente mais democrático da nossa atual sociedade, a web, vejo os homens responsabilizados pelas injustiças de gênero sofridas no passado e no presente, como se eles e apenas eles devessem responder pela história.

Existe a possibilidade, não tão remota, de algumas mulheres - nossas mães, tias, avós, professoras e educadoras - terem reproduzido o estigma detrator tanto quanto os homens, e alguns homens terem sido os grandes coadjuvantes na história de descoberta de outras mulheres.

Reconciliei-me com as saias não muito tempo depois, embora tenha vivido anos com a interpretação obtusa segundo a qual os homens seriam mais inteligentes que as mulheres e a minha ficção seria superior se os protagonistas fossem exclusivamente homens.

Demorou.

Quase 30 anos para eu realmente me descobrir e valorizar como mulher.

E embora eu tenha encontrado mulheres fantásticas pelo caminho - lindas, inteligentes, seguras, cheias de personalidade e paixão pela vida (minha avó dizia que as meninas sempre eram mais interessantes que os meninos) - quem mais me ajudou nesse processo foram homens.

Dois, meu pai e marido. Generosos com a pessoa que eu era, ajudaram-me a me tornar a mulher que sou hoje.

É o que desejo para os meninos e meninas das gerações Y e Z, descobrir-se homens ou mulheres, ou qualquer outra coisa, e viver esse prazer todos os dias.

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