OPINIÃO

'O Estranho que Nós Amamos": Livro é muito mais feminista do que remake de Coppola

A diretora suprimiu personagens, modificou características importantes e fracassou em oferecer uma perspectiva feminina.

14/08/2017 23:00 -03 | Atualizado 14/08/2017 23:00 -03

O Estranho que Nós Amamos / Divulgação 2017

O Estranho que Nós Amamos é excelente. O livro, não o filme. Publicado em 1966, foi adaptado para o cinema em 1971 por Don Siegel, com Clint Eastwood no elenco. O remake estreou em Cannes, garantiu a Sofia Coppola o prêmio de direção e ajudou a premiar Nicole Kidman.

Em coletiva, Coppola disse que queria contar essa história sob a perspectiva das personagens femininas. E oferecer uma visão nova a Siegel e, possivelmente, à obra de Thomas P. Cullinan.

Acho que nunca esperei tanto para ver um filme. O argumento era ótimo: uma escola para meninas no sul dos Estados Unidos, em plena guerra civil americana. Um soldado inimigo, temporariamente incapacitado, é acolhido pelo grupo, formado por meninas adolescentes e algumas mulheres maduras.

O livro entrega tudo isso e mais, pois cada uma das mulheres tem a chance de contar a sua história (a tal da perspectiva feminina que Coppola queria).

Embora sejam todas afetadas pelo contexto, elas são muito diferentes e individuais. Marie, a mais jovem, é católica e extremamente inteligente: tem sempre uma resposta na ponta da língua. Amelia (ou Amy) é apaixonada pela natureza, com uma compreensão bem além do natural sobre coisas biológicas.

Emily é a menos cativada pelo estranho. Alicia, brilhantemente interpretada por Elle Fanning, é a mais perigosa, dona de uma beleza sulista de origem duvidosa (a mãe seria uma prostituta), e pode ter entre 15 e 18 anos.

A Edwina do livro é, de longe, a personagem mais interessante: mestiça, viveu em mais lugares do que todas as colegas juntas e chegou à escola com objetos exóticos e muitas moedas de ouro, para garantir anos e anos no lugar. Os cabelos são negros, o corpo, esguio, e por fora é uma fortaleza. Ou seja, nada mais diferente da Edwina de Kirsten Dunst.

Coppola disse, em entrevista, que optou por um elenco exclusivamente branco pois não queria fazer um filme sobre o racismo. Além de embranquecer Edwina, uma personagem fundamental ficou de fora: Mattie, a única escrava não vendida por Miss Martha, que acaba ficando - como os escravos de E o vento levou - na casa pelos vínculos fortes com a família.

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(Alerta: spoilers)

No livro, é Mattie quem conta sobre o jantar fatal, deixando um certo mistério no ar - não sabemos de quem foi a ideia nem quais meninas concordaram com ela. A linguagem do cinema, é claro, não pode ser tão sutil, mas tampouco precisa ser assim direta. Quem leu o livro, com certeza vai pensar em duas ou três formas de ser mais fiel a Cullinan - e ao público.

A Miss Martha de Nicole Kidman, por sua vez, perdeu um pouco de profundidade. A personagem original tinha um caso incestuoso com o irmão, e acaba deixando o soldado (John McBurney) ficar graças às semelhanças físicas entre ele e o irmão. Dá para entender por que Coppola deixou o incesto de lado - realmente, com tanto material, não haveria como abordar o tema em duas horas de projeção.

Mas a eliminação da irmã Harriet já é mais confusa. No filme, algumas das características da personagem foram emprestadas a Edwina, e outras a Martha.

Mas o que mais me incomodou certamente foi a ideia de unidade. No livro, as mulheres têm personalidades totalmente diferentes e estão sempre em disputa umas com as outras. À exceção das mais jovens, Amelia e Marie, as outras têm seu próprio quarto. Em Coppola, parecem dormir todas no mesmo - o que causa certa surpresa quando vemos Alicia sozinha no quarto com o estranho.

O soldado John McBurney também ficou mais, digamos, querido. No livro, a manipulação é explícita, e muito mais interessante - ele apela para as características íntimas e individuais de cada uma: Marie é católica, mas anda comendo carne às sextas-feiras; Edwina tem vergonha de sua miscigenação racial e procura um amigo desesperadamente; Harriet é uma mulher madura, que foi muito bonita um dia, sente falta do contato físico com homens e adora uma bebida. O Johnny de Colin Farrel é quase ameno, e só assume outra postura quando se descobre sem uma perna.

Claro, fora de contexto, o filme é bom. A fotografia é deslumbrante, a história é bem contada (realmente, deixa bem pouco para a imaginação) e as atrizes estão muito bem. Mas é impossível assistir às cenas de Marie, Emily, Amelia, Jane e Edwina (criada por Coppola) e não pensar: mulheres, e especialmente meninas, tão inteligentes e intensas não nasceram para andar em bando.

Se a ideia era oferecer uma perspectiva feminina, o resultado é um fracasso. As vozes estão lá desde 1966, só falta mesmo alguém que consiga traduzi-las para a tela.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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