OPINIÃO

'Manchester à beira-mar' consegue retratar a dor da perda de forma magistral

Por isso, o resultado é tão verdadeiro, como só é possível na (melhor) ficção.

26/02/2017 18:41 -03 | Atualizado 26/02/2017 18:48 -03
Divulgação
No pano de fundo, entre e uma outra longa sequência cotidiana (café-da-manhã com cereal e discussão por telefone com a funerária careira), conhecemos o passado de Lee e do irmão, Joe.

Um dos dramas mais cotados para a principal categoria do Oscar 2017, Manchester à beira-mar teve seis indicações — melhor filme, melhor ator, melhor diretor, melhor ator coadjuvante, melhor atriz coadjuvante e melhor roteiro. No Globo de Ouro, ganhou em apenas uma: a interpretação de Casey Affleck como o protagonista Lee Chandler.

Olha, achei que o filme seria bom, mas depois de tantos títulos aquém das expectativas — La La Land, Capitão Fantástico e mesmo Animais Noturnos — esperava algo morno. Ou desonesto, do tipo que provoca choro fácil na plateia. Mas Manchester é um dos melhores filmes da temporada.

Lee (Casey Affleck) é um zelador faz-tudo que se ocupa de quatro prédios numa vizinhança de Quincy, em Massachussets, nos Estados Unidos. Reservado, passa o dia fazendo pequenos consertos nas casas dos outros e assim testemunha conversas ora íntimas, ora engraçadas, ora histéricas. Uma inquilina tem uma paixão secreta por ele, outra, senhora de idade, diz que preferiria cortar a garganta a passar 7 horas no carro com a família. Tem também a mulher de meia idade (e camisola) que se insinua, e depois se ofende, dando a entender que foi ele quem a assediou.

À noite, Lee toma cerveja pelos bares, não conversa com ninguém — nem com a moça de decote que tenta puxar papo — e arruma qualquer pretexto para começar uma briga. Volta e meia, tem lembranças de um certo passeio de barco (em Manchester, imaginamos) com o sobrinho, então criança, para quem pergunta: "Se você só pudesse levar uma pessoa para uma ilha deserta, seria eu ou seu pai? Seu pai? Tem certeza? O homem que você vai levar precisa saber fazer tudo", brinca.

Um dia recebe uma ligação, avisa ao chefe que ficará em Manchester por uma semana e segue para o hospital. O irmão acabara de falecer. Agora ele precisa lidar com o sobrinho adolescente e toda uma cidade, inclusive a ex mulher.

O dia a dia pós-perda é retratado magistralmente: pizza com os amigos e a namorada, ensaio da banda com a outra namorada e uma ou outra visita ao necrotério (aliás, os atores adolescentes estão todos muito bem). A inaptidão social de Lee e a natureza pragmática e essencialmente boa do orfão tornam o desconforto dos outros quase ridículo. O timing de cada choro é milimetricamente equivocado, e começamos a acreditar que tudo vai acabar bem.

No pano de fundo, entre e uma outra longa sequência cotidiana (café-da-manhã com cereal e discussão por telefone com a funerária careira), conhecemos o passado de Lee e do irmão, Joe. É bonito, triste e real. Ainda assim, permanecemos otimistas.

O que acontece depois, ou talvez durante toda a segunda metade do filme, o momentum para o qual o diretor (e roteirista) Kenneth Lonergan vai nos preparando sem a gente saber, é cinema.

Embora consiga pensar em uma cena em especial — que garantiu a Michelle Williams a indicação ao Globo de Ouro — não há momentos de espetáculo. Por isso, o resultado é tão verdadeiro, como só é possível na (melhor) ficção.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública. Se você deseja fazer parte do nosso time de blogueiros, entre em contato por meio de editor@huffpostbrasil.com.

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