OPINIÃO

Elena Ferrante e essa mulher pós-moderna

A história contrói um emaranhado de eventos possíveis para meninas extremamente inteligentes numa época que precede o feminismo.

13/05/2017 19:28 -03 | Atualizado 13/05/2017 19:47 -03

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Não gosto de Elena Ferrante.

Mesmo assim - ou talvez por isso mesmo - li de forma quase desesperada as quatro obras que compõem a sua série napolitana: A Amiga Genial, História do Novo Sobrenome, História de Quem Foge e de Quem Fica e História da Menina Perdida, esta última ainda inédita no Brasil.

Comecei por curiosidade. Queria saber quem era essa escritora sobre quem todo mundo escrevia e de quem todo mundo gostava ou tinha ouvido falar. Comprei A Amiga Genial no Kindle e me esqueci completamente do livro, retomando a leitura um ano depois, ao achar uma cópia na estante da minha cunhada. Ao final do primeiro volume, dei-me conta de que não conseguiria parar.

Lenù (a Elena narradora) é uma Sherazade pós moderna: nenhum de seus quatro livros oferece desfecho ou satisfação, e o fluxo é quase entorpecedor. A narrativa tem o tempo dos eventos que descreve, oferecendo-nos o falso poder de mudar algo se quisermos.

Na verdade, queremos interromper essa convidada-surpresa, que chegou para jantar em nossa casa sem avisar e começou já no aperitivo uma história que parece não acabar nunca.

Ferrante, pseudônimo de uma escritora (ou escritor) cuja identidade desconhecemos - a despeito da reportagem investigativa de Claudio Gatti, com a qual nem todo mundo concorda - revela em seus livros o melhor e pior da mulher pós-moderna, daí a fascinação que exerce sobre mim e tantos outros.

A partir de suas duas protagonistas, a narradora Elena e a "amiga genial" do título, Rafaella, constrói-se um emaranhado de eventos possíveis para meninas extremamente inteligentes numa época que precede o feminismo.

A melhor personagem masculina é, sem surpresa alguma, o transgênero Alfonso, sombra - e espelho - de Lila. Acompanhamos a sua evolução desde a infância e o resultado é magnífico.

Já Nino parece reunir tudo o que mais amamos e odiamos nos homens, mas o esforço acaba em caricatura. Os famosos irmãos Solara são planos e não acrescentam muito à ideia preconcebida do italiano mafioso.

As mulheres são o melhor de seus livros. Impulsivas, brilhantes, apaixonadas, exasperadoras, maternais e egoístas, sintetizam o feminino. Algumas vezes, tinha vontade de gritar: Pelo amor de Deus, não faça isso! Em outras, a curiosidade era mais forte, e queria ver aquele impulso até o fim, mesmo que depois servisse de exemplo do que não fazer.

Adele, sogra de Elena, é possivelmente uma das personagens mais sólidas que já encontrei na ficção. Volta e meia, penso nela no meio do dia. As meninas Dede, Tina, Elsa e Imma são obras-primas de sua ficção (especialmente as duas primeiras) e parecem existir de verdade em algum outro lugar.

Aos poucos fui descobrindo por que, afinal, não gostava de Ferrante e por que, na verdade, gostava tanto dela. A convivência com essas mulheres intensas e verborrágicas era exaustiva, mas enriquecedora. É uma homenagem às mulheres de nossa época e de todas as épocas que nos antecederam.

Depois desses quatro livros, descobri-me reconciliada com a minha identidade: mais generosa, aberta e flexível comigo mesma.

E literatura que propicia esse tipo de coisa merece ser lida e relida.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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