OPINIÃO

'E não sobrou nenhum', da BBC, é melhor adaptação de Agatha Christie para a TV

11/04/2016 17:08 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02

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Se você gosta de Agatha Christie, já deve ter lido 'E não sobrou nenhum', originalmente lançado sob o polêmico título 'O Caso dos Dez Negrinhos'.

Maior best-seller de ficção policial de todos os tempos, a obra está em 10 entre 10 listas de melhores livros de autoria da prolífica escritora, que só vendeu menos exemplares do que Shakespeare. E a Bíblia.

Depois de ler mais de 50 romances e novelas de Christie, e até algumas peças ('A Ratoeira', há mais de cinco décadas em cartaz e 'Testemunha de Acusação', que tem adaptação para o cinema por Billy Wilder), acho que 'E não sobrou nenhum' não só é o melhor Christie como está entre os melhores de tudo o que já li.

O enredo é simples: dez pessoas vão para uma ilha particular a convite de um anfitrião desconhecido, e quando chegam lá se deparam com circunstâncias misteriosas, aparentemente ditadas por uma canção de ninar.

Além de subverter o whodunit tradicional, ali estão alguns de seus personagens mais complexos e melhor construídos. A própria autora disse que escreveu o livro porque parecia tão difícil que ficou fascinada pela ideia.

A história e os diálogos trazem referências a 'Entre Quatro Paredes', peça célebre do filósofo existencialista francês Jean-Paul Sartre. O epílogo é um prazer à parte e permite um olhar mais aprofundado sobre a mente criminosa. É também o que torna cada adaptação um verdadeiro desafio.

Christie reescreveu o texto para o teatro, mudando o final (que talvez não agrade hoje, mas fazia sentido no pós-guerra). Não sabia disso quando fui ver a peça e quase saí no meio da apresentação. O final (que não será revelado aqui) é um dos melhores elementos da obra.

A adaptação mais recente, uma minissérie lançada pela BBC UK (trecho abaixo) no fim do ano passado, parece corrigir este ponto.

Originalmente composta por três episódios (a versão para a Apple TV americana tem apenas dois) e com duração total de aproximadamente três horas, é uma superprodução que traduz para a tela todo o suspense da leitura solitária.

Os atores estão impecáveis (destaque para Charles Dance, que o grande público conhece como Tywin Lannister de Game of Thrones e está m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o), cada cena e diálogo é fiel à criação de Christie e a direção de arte reproduz de forma irredutível o seu olhar sombrio.

Como muito da trama se passa na cabeça dos personagens, em forma de reminiscências, sonhos e pesadelos, havia o desafio adicional de transpor tudo isso para a outra mídia, sem prejudicar o tom narrativo. Algumas cenas são de comer de tão perfeitas, e há um contraste interessante entre as memórias mais e menos iluminadas.

Agatha Christie é, ainda, considerada com seriedade, em toda a sua relevância e estatura, o que não acontece em alguns dos filmes de Poirot, por exemplo.

Mas o melhor é ainda mais fácil de explicar: o final é fiel ao livro e diferente ao mesmo tempo, e surpreende até aqueles que conhecem bem o texto. (Corri para reler o epílogo depois de assistir).

Como em qualquer boa arte, nem livro nem série contam a história toda: são complementares.

E o resultado é a melhor série de 2016 até agora, e a melhor versão de Christie para a TV.

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