OPINIÃO

Com timing perfeito e sem clímax, 'The Square' brilha no Festival de Cannes

O francês '120 Beats per Minute' também chegou ao Grand Théâtre Lumière neste domingo (21).

21/05/2017 10:04 -03 | Atualizado 21/05/2017 10:04 -03
Stephane Mahe / Reuters
Na sequência da esquerda para a direita, o diretor do filme, Ruben Ostlund, e o elenco: Christopher Laesso; Dominic West; Elisabeth Moss; Claes Bang (o protagonista) e Terry Notary.

A escritora está cobrindo o Festival de Cannes para o HuffPost Brasil.

Tudo pode acontecer num filme em que um macaco aparece de repente. A obra é The Square, exibida neste domingo (21) no Grand Théâtre Lumière, durante o Festival de Cannes, e a declaração é do seu diretor, o sueco Ruben Östlund.

Ele tem razão.

Tudo acontece mesmo nas duas horas e 22 de rolo. Além do macaco, temos uma cena com um quase gorila (dizer mais é estragar a surpresa). Não por acaso: "Acho que gostamos de macacos pois no fundo estamos olhando para nós mesmos", Ruben comentou na coletiva de imprensa que aconteceu depois da sessão.

Christian é o diretor de um dos melhores museus de Estocolmo, numa Suécia pós monarquia. Bonito, alto e sempre impecável, leva uma vida de muitos privilégios, enquanto procura defender valores mais altruístas. Tudo começa a dar errado quando furtam seu celular e carteira na ida para o trabalho.

Divulgação / The Square

Pessoalmente, achei The Square o melhor filme até agora - junto a Nelyubov - pois entrega o que mais queremos na ficção: um personagem com quem conseguimos nos identificar, nem totalmente bom nem ruim, como o Christian do dinamarquês Claes Bang, uma história despretensiosa e um questionamento bem-humorado sobre as convenções sociais. Não há clímax, mas o timing é sempre perfeito.

Em reunião com a agência de relações públicas, a dupla de atendimento Geração Z chega à seguinte conclusão: "fizemos uma pesquisa para conhecer os assuntos pelos quais as pessoas mais se interessam. Mulheres, comunidade LGBT são temas quentes, mas mendigos continua ganhando disparado". A partir dessa análise, criam um vídeo para o YouTube com uma criança mendiga, loira, típica sueca, que explode com um gatinho no colo depois de alguns segundos.

Lembrei de Toni Erdmann, que concorreu à Palma de Ouro no ano passado, mas The Square é mais próximo. Potencialmente, passamos pelos mesmos desconfortos e situações de embaraço dos seus personagens (exceto, claro, pelo macaco do quarto ao lado).

Christian tem uma noite com Anne - personagem de Elisabeth Moss, a magnífica Peggy de Mad Men - e ela vai atrás dele no escritório. No meio do museu, começa uma inquisição, querendo saber com quantas mulheres dorme habitualmente e se ainda se lembra do nome dela. "Agora, você está me enchendo", ele diz, depois, é verdade, de muita paciência. Ao que ela responde: "Pois eu te acho fascinante".

A empatia de Christian é um dos pontos altos do filme. Embora nem sempre aja de acordo com seus princípios declarados, como o ator Claes Bang disse, "seu coração está no lugar certo". Foram quase 70 dias de filmagem e, segundo relatou, algumas cenas levaram até cem takes.

Ruben disse que optou pelo ator, entre outros motivos, por causa da cena do discurso sobre a instalação de arte que dá nome ao filme, e desempenha um papel crucial na história. "Cada vez que vejo, os pelos do braço ficam em pé".

120 BATTEMENTS PAR MINUTE (120 BEATS PER MINUTE)

Divulgação / 120 Beats per Minute

O novo filme do diretor francês Robin Campillo conta a história de Act-Up Paris, organização ativista pelos direitos dos homossexuais infectados pelo vírus da aids de um jeito vivo e bastante original.

Os atores - Nahuel Pérez Biscayart, Arnaud Valois, Adèle Haenel e Antoine Reinartz - brilham na obra, que tem bom ritmo e consegue trazer a realidade do confronto com a doença para o espectador, com humor e emoção.

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