OPINIÃO

Candidato ao Oscar, 'O Filho de Saul' é mais do que um filme sobre o Holocausto

26/02/2016 18:48 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:31 -02

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'Melhor filme estrangeiro' é uma das categorias que mais gosto no Oscar.

Não é à toa.

Nos últimos anos, revelou verdadeiras obras-primas: A Grande Beleza, Relatos Selvagens (que não levou a estatueta), O Segredo de seus Olhos, A Vida é Bela, só para citar algumas.

O Filho de Saul, de László Nemes, é considerado favorito ao prêmio que será anunciado neste domingo domingo (28). Vencedor do Globo de Ouro e do Grand Prix do Júri do Festival de Cinema de Cannes, o filme aborda o Holocausto, tema que já inspirou inúmeros títulos da sétima arte.

Em outubro, os ingressos para suas sessões na Mostra Internacional de Cinema se esgotaram rapidamente, mas ontem a sala de cinema estava praticamente vazia.

Nos créditos iniciais, pensei: mais um filme sobre Auschwitz. Mas logo na primeira cena fui surpreendida.

(Alerta: spoilers).

O protagonista que dá nome ao título, Saul, caminha em direção à câmera, fora de foco. Só conseguimos distingui-lo do cenário quando ele fica em frente à câmera, e a partir desse momento o acompanhamos de forma quase íntima, pela cruz vermelha estampada em suas costas.

Nemes afirmou que a SS utilizava essa cruz para fazer alvos mais fáceis dos prisioneiros caso tentassem fugir. Para ele serviu como um alvo visual. Para a câmera e para o espectador.

Guiados por ela, nos vemos no meio da rotina de um campo de concentração, e logo compreendemos que a perspectiva desta história é diferente. Saul faz parte de um Sonderkommando, grupo de prisioneiros judeus que eram obrigados a ajudar a SS no extermínio.

Eram eles que arrastavam os 'pedaços', como eram chamados os corpos das vítimas das câmaras de gás (aqui gentilmente desfocados pela lente do diretor), para serem queimados em grandes fornos. Varriam seus pertences em busca de algo de valor, e depois o usavam para subornar alguém no 'comando'.

O filme começa exatamente com essa rotina. Saul e os colegas estão dispondo dos corpos, e descobre-se que um menino ainda respira mesmo depois de submetido à câmara de gás. Ele é rapidamente morto, e deve ser levado à sala de autópsia, o que Saul se oferece para fazer. Inicia-se uma verdadeira odisséia com um único objetivo: enterrar o menino com um ritual judaico, com o Kaddish recitado por um autêntico rabino, custe o que custar.

Tudo acontece em apenas dois dias, e a fotografia de Mátyás Erdély contribui para a sensação de confinamento.

A imagem nunca chega a preencher a tela, o que nos faz acreditar que talvez a história ainda não tenha começado ou, pior: que fomos inadvertidamente levados para algum outro lugar.

Nunca sabemos o que ele está pensando, ou sentindo, mas vemos desenrolar diante dos nossos olhos as reações que provoca nos outros: no colega Abraham, em Ella, nos chefes do comando, nos soldados da SS que dançam como palhaços, nos 'rabinos'. E assim descobrimos a humanidade manifesta no momento mais horroroso de nossa história.

Se merece o Oscar?

Dos outros 4 indicados, vi apenas Cinco Graças, que traz o olhar curioso, inteligente e autêntico de uma pré-adolescente linda e sensível. Assisti a boa parte do filme com um sorriso no rosto.

Enquanto Saul nos transmite apenas angústia, Lale, a protagonista de Cinco Graças é um prisma de emoções, sentimentos e atividade: medo, desejo, vontade, amor, amizade, ação, nada lhe escapa.

É fácil se apaixonar por ela.

De O Filho de Saul gosto mais e mais à medida que penso mais nele.

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