OPINIÃO

O valor humano real da "conectividade"

30/01/2015 17:21 -02 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02
jenny downing/Flickr

Esta semana eu estava numa reunião de planejamento para um simpósio com especialistas em mídia social e desenvolvimento infantil. Uma das psicólogas compartilhou uma história infelizmente muito familiar sobre uma garota que estava aflitíssima em um acampamento da escola porque não havia sinal para o celular e só havia Wi-Fi em um canto da cantina. Ela chegou a dizer: "Podemos observar um minuto de silêncio por essa tragédia da ausência de conexão?"

Para dizer a verdade, a maioria de nós, adultos, entende e compartilha esse medo de ficarmos "desconectados" de nossas próprias vidas. Tive um momento semelhante, aparentemente absurdo, no verão passado, quando um problema técnico acidental no momento em que fazia planos com amigas me deixou em um momento de mídia social desesperador. Lá estava eu numa noite de sábado, trocando mensagens de texto com minhas amigas sobre onde íamos nos encontrar, quando minhas amigas aparentemente sumiram. Mandei torpedos para as duas, mas não tive resposta. Liguei para elas, e nada. Ao mesmo tempo, fiquei vendo as fotos divertidas delas sendo postadas no Instagram e Facebook. Sim, é um pouco constrangedor admitir, mas lá estava eu, uma mulher adulta com vida social movimentada, reduzida a me sentir como adolescente angustiada que estava sendo deixada de fora porque o acesso social ao meu grupinho tinha sido interrompido.

A tecnologia e as mídias sociais são acréscimos de grande impacto sobre muitos aspectos de nossas vidas, mas está claro que nossa dependência dessas ferramentas encerra riscos para os relacionamentos que nos são caros. Naquela noite de sábado, a realidade simples de que uma de minhas amigas tinha deixado o celular no carro e o celular da outra estava sem bateria criou uma desconexão emocional muito concreta entre nós, apesar de ter sido completamente acidental. No dia seguinte tivemos uma conversa difícil e então descobrimos que cada uma de minhas amigas tinha achado que a outra tinha conseguido se comunicar comigo. O diálogo que se seguiu trouxe mais transparência, compreensão e intimidade para todas nós -uma conexão de verdade.

Quando compreendemos o potencial das mídias sociais de serem ferramentas positivas - quando usadas com cuidado - e nos esforçamos para compartilhar de modo autêntico, podemos gerar comunicação e conexão reais. Podemos ao mesmo tempo reconhecer o que outras pessoas podem estar passando e encontrar apoio mútuo pela partilha de nossas experiências. Isso exige vulnerabilidade e a disposição de ser sincero e autêntico, coisas com as quais muitos de nós não nos sentimos à vontade. Isso porque nos faltam as ferramentas e a prática cotidiana de sermos assim.

As mídias sociais intensificam tudo para todos nós. Essa é apenas uma razão pela qual creio que elas precisam intensificar nosso envolvimento com o aprendizado social e emocional, para que nossos filhos possam aprender como é essencial tratar uns aos outros com atenção e respeito, além de aprender a lidar melhor com o estresse e os ônus que as mídias sociais podem gerar.

Em nosso trabalho na Flawless Foundation, defendemos programas como o RULER Approach to Social and Emotional Learning (abordagem RULER à aprendizagem social e emocional), em que o currículo escolar é usado para ensinar professores e alunos a lidar com essas questões. Uma vantagem adicional da aprendizagem social-emocional é que ela pode nos ajudar a nos conectarmos nas mídias sociais com mais compaixão uns pelos outros no "mundo real" mais amplo de nossas vidas conectadas. Para mim, é isso que fazem as mídias sociais em sua acepção melhor, ou, pelo menos, o que deveriam fazer. É evidente que é muito mais fácil dizer isso que fazê-lo. Mas é um modo de iniciar uma conversa importante que todos nós deveríamos procurar ter com as pessoas em nossas vidas, especialmente com nossos filhos.

Para algumas crianças e jovens esta era digital pode proporcionar caminhos novos e acessíveis para o desenvolvimento e a conexão social. Essa é a chave: usar as mídias sociais para uma finalidade positiva. Se as utilizarmos para criar sentido e empreender ações na vida real, elas podem ser um sucesso total, mesmo com os mais simples dos gestos humanos. Empreender uma ação pode ser tão simples quanto telefonar a alguém, mandar um cartão ou entrar em contato direto em resposta a uma atualização de status contendo uma má notícia. Recentemente testemunhei algo inspirador quando uma amiga processou online a morte de seu irmão por suicídio. As lições sobre luto e trauma que todos nós podemos tirar disso têm valor imenso.

As mídias sociais também podem ser um veículo poderoso para nos ajudar a ficar em contato com pessoas com as quais não podemos ter contato facilmente, que fazem parte das diversas áreas de nossas vidas, cada vez mais espalhadas - como a medida simples de compartilhar fotos com um parente idoso ou que não consegue sair de casa, para ajudá-lo a permanecer em contato. Eu mando fotos pelo telefone à minha mãe quase todos os dias, para ajudá-la a continuar envolvida com sua família que vive a milhares de quilômetros de distância. Quando estamos fisicamente juntas, vasculhamos o Facebook olhando fotos de nossos parentes e amigos do outro lado do país. Minha comunidade de amigos íntimos e familiares está em três outras cidades. Mas acho incrível que, graças à conexão contínua proporcionada pelas mídias sociais, posso desembarcar em San Francisco, Los Angeles ou Nova York e me sentir em casa imediatamente.

Como em tudo, é preciso moderação, consciência e estar presente de maneiras que sejam respeitosas dos outros. E, é claro, nossos caminhos e escolhas nesta jornada são apenas nossos. Ironicamente, apesar de eu acreditar tanto nas mídias sociais, meu filho de 14 anos está no oposto do espectro - ele as evita por completo e nem sequer quer um celular. A tecnologia pode mudar sempre e nossas opções podem se diversificar, mas as pessoas permanecem iguais. E a questão simples e eterna que enfrentamos enquanto seres humanos em toda nossa "perfeição" é se podemos ser bons uns para os outros e nos "curtirmos", nós mesmos, em primeiro lugar. Podemos ter mídias sociais com alma? Afinal, é esse o valor humano real da "conectividade".

Este artigo foi originalmente publicado pelo HuffPost US e traduzido do inglês.

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