OPINIÃO

Viver com um parceiro bigênero é um desafio, mas vale a pena

'Meu parceiro pode ficar nu e se sentir masculino ou feminino.'

31/07/2017 19:13 -03 | Atualizado 01/08/2017 12:33 -03
Mart Williams
'Eu celebro minha feminilidade e condição de mulher sem nenhuma vergonha.'

Permitam-me fazer uma introdução neste post afirmando que minha própria identidade de gênero é a de uma mulher transexual. Eu celebro minha feminilidade e condição de mulher sem nenhuma vergonha. Não gostaria de ser reconhecida como qualquer outra coisa a não ser como mulher. Eu fui a pré-adolescente trans que costurava as próprias roupas, tinha fantasias com meninos sonhadores, emprestava roupas da mamãe com total consentimento dos pais e rejeitava minhas partes do corpo.

Hoje, sou uma mulher feminina sem o menor arrependimento e muito boa nisto. Gosto que os homens abram as portas para mim (que horror). Não me sinto de forma alguma inferiorizada quando sou tratada como uma 'lady'. Eu sei o que quero no sexo, mas sou bem preparada para usar minhas artimanhas femininas para consegui-lo. Normalmente uso skinny jeans e tops, mas também tenho uma pequena coleção de vestidos. Ocasionalmente uso saltos de festa (mas me arrependo depois). O mais perto que chego do 'crossdressing' (vestir-se com roupas do sexo oposto) é usar a camiseta de meu marido quando acordo ou gratamente aceitar sua jaqueta emprestada quando o tempo esfria. Eu as uso porque são dele. São obviamente muito grandes. Elas têm seu cheiro e são muito fáceis de vestir. Também adoro sua reação. No entanto, não pretendo ser nenhum tipo de mulher ideal; eu sou assim.

Se tenho que procurar uma camiseta de meu marido em seu armário (raramente — por que os homens jogam suas roupas em cima dos móveis ou no chão?), encontro roupas de outra mulher lá. Não há muito motivo para alarme, elas pertencem à sua outra metade, a terceira 'metade' que não sou eu. Meu parceiro é bigênero — ela é ocasionalmente minha esposa, principalmente meu marido.

Pausa para reflexão, sou transexual, então isso não deve ser grande coisa, certo? Descobri que não funciona bem assim. Quando nos conhecemos, me apaixonei pelo elemento 'crossdressing' da vida de meu namorado. Era divertido fazer compras juntos; de uma forma leve e sorrindo. Tinha certeza de sua personalidade predominantemente masculina. À medida que comecei a conhecê-lo, aquilo começou a mudar.

Outras pessoas sugeriram que ele poderia em breve querer fazer uma transição. Fiquei preocupada e triste pelo medo de perder o homem que amava. A preocupação se transformou em irritação quando começaram a perguntar que vestido meu parceiro usaria no dia do casamento. Minhas reações a tudo isso me pegaram de surpresa. Fiquei preocupada com aquilo e comecei a me sentir culpada por reagir daquela forma. Quando fiz a transição, odiei a maneira pela qual os outros me rejeitaram e, ainda assim, lá estava eu fazendo a mesmíssima coisa. O que estava acontecendo? Eu poderia ter fugido, mas me sinto muito satisfeita por não ter feito isso. Falta de compreensão nunca é uma desculpa para ir embora.

Desde então, percebi que meu parceiro não escolhe ser masculino ou feminino em nenhum momento específico. Isso não é uma escolha, mas um sentimento involuntário que dura algumas horas e depois muda para o gênero oposto outra vez. Meu parceiro pode ficar nu e se sentir masculino ou feminino.

Roupas e maquiagem são apenas necessárias para sinalizar a mudança para o mundo exterior, elas não têm efeito sobre os sentimentos internos. Há momentos inconvenientes quando amigos esperam ver minha esposa e acabam confrontados por meu marido. Expectativas exteriores não têm impacto sobre a identidade de uma pessoa bigênero. Isso tudo deveria ser muito comum para mim. Nunca me senti masculina, mesmo quando era mais jovem. Os protestos de outras pessoas, até de meus pais, apenas me faziam sentir miserável.

Consegui perceber a tempo que amava a ambos, mas não da mesma maneira. Eles são uma pessoa, mas existem duas personas distintas. Só consigo descrever desta forma. Ela dirige o carro de forma diferente, é menos confiante e menos assertiva. Quando ela escreve e se expressa, vem do coração; ele é mais reservado, defensivamente otimista e econômico nas palavras. Quando você se casa, começa uma jornada rumo a um entendimento cada vez mais profundo. Para mim, aquilo envolveu conhecer dois lados de uma pessoa. Apenas me sinto atraída por homens. Ao fazer transição, percebi, chocada, que era heterossexual. Tenho muitas amigas, mas elas são apenas isso — 'minhas meninas', com as quais adoro sair à noite. Meu parceiro é lésbica quando mulher e heterossexual quando homem. Ela se sente atraída sexualmente por mim, mas não é recíproco. Ele apenas me excita quando é meu marido. Se eu saio com ela, ele me manda mensagens carinhosas dizendo que sente minha falta; me ajuda a saber que ele ainda está ali.

Ainda estou aprendendo, ainda me ajustando e me maravilhando com o espectro incrivelmente complexo que a comunidade bigênero apresenta. Quando fiz a transição, outras pessoas disseram: 'Não é maravilhoso ser capaz de ver ambos os lados, masculino e feminino?' Eu não vejo. Nunca vivi a vida a partir de uma perspectiva masculina. Fiz o meu melhor para me conformar às expectativas, mas acabei confundindo tudo. Sentia-me como uma 'cross-dresser' relutante até que fiz a transição. Meu parceiro REALMENTE vê os dois lados — um indivíduo duplo-espírito. Adoraria ser assim, mas não consigo.

Concluí que você pode tentar MUITO entender. Eu ainda não entendo completamente, mas não me sinto mais tentada a ir embora. Algumas coisas são pequenos milagres; ser bigênero é uma delas.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost UK e traduzido do inglês.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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