OPINIÃO

O general da Confederação que foi ‘deletado’

É fácil entender por que no sul dos EUA quase não há monumentos a um dos oficiais mais capazes do general Robert E. Lee.

11/09/2017 08:50 -03
Historical via Getty Images
Retrato do general William Mahone (1826-1895).

Alguns anos atrás, fui a uma conferência em Charleston. Durante um tempo livre, entrei num antigo mercado e percorri as lojas – todas elas, ao que parecia, especializadas em objetos históricos dos confederados. Como buscava uma lembrança para meu filho, me embrenhei entre montes de rifles de brinquedo, pilhas de fivelas de cinto e adesivos de bandeiras de guerra. Até que dei de cara com uma grande litografia emoldurada de Robert E. Lee e seus oficiais do Exército da Virgínia do Norte, intitulada "Lee e Seus Generais". Ao examiná-la, notei que algo – ou melhor, alguém – estava faltando. Eu procurava um diminuto e barbudo general de brigada, comandante da divisão que esteve com Lee na batalha de Appomattox, e que aceitou sua decisão de se render naquele dia de abril de 1865. Procurava o general William Mahone da Virgínia – e não o encontrei porque ele não estava lá.

Natural da Virgínia, magnata ferroviário, dono de escravos e ardente secessionista, Mahone serviu no Exército Confederado durante a guerra. Foi um dos comandantes mais capazes do Exército do Norte da Virgínia, destacando-se sobretudo no verão de 1864 na Batalha de Crater, nos arredores de Petersburg. Após a guerra, Robert E. Lee recordou que, ao pensar num sucessor, concluiu que Mahone "havia adquirido as mais altas qualidades de organização e comando".

Como um comandante confederado de alto escalão acabou desaparecido em combate numa loja de presentes de Charleston? Creio que não foi por acaso.

Os americanos interessados no projeto de remoção dos monumentos aos confederados repetem até hoje a ideia de que tais símbolos foram erguidos, décadas após a Guerra Civil, como testemunhos da supremacia branca em todas as suas manifestações: segregação, privação de direitos, linchamentos, servidão e cidadania de segunda classe. Mas os monumentos não eram apenas comemorativos. Foram construídos para ocultar um passado: o período posterior à Reconstrução [1865-1877] e anterior à aplicação de leis de segregação racial no sul dos EUA. Foram anos em que os afro-americanos da antiga Confederação exerciam o poder político, postulavam-se para cargos públicos, publicavam jornais, integravam forças militares, possuíam empresas, organizavam associações voluntárias, construíam escolas e igrejas. Em outras palavras, uma época em que eles participavam como membros plenos da sociedade.

"Devemos reconhecer o papel essencial desempenhado pela política da memória na violação à igualdade afro-americana."

O general William Mahone não foi completamente esquecido. Na verdade, tem sido seletivamente lembrado. Há um Monumento a Mahone, por exemplo, alçado pelas Filhas da Confederação [organização formada por mulheres filhas de soldados confederados] na Batalha de Crater em Petersburg. Além disso, acadêmicos da Guerra Civil Americana tratam a carreira militar de Mahone com respeito, como podemos ver na bibliografia que o aborda. Os problemas que William Mahone trouxe para muitos cidadãos da Virgínia no passado – e que fazem valer a pena pensar sobre ele no presente – residem na carreira que ele seguiu após a guerra.

O senador William Mahone foi um dos líderes políticos mais difamados após a Guerra Civil. Foi também um dos mais capazes. Comparado com o traidor romano Lúcio Sérgio Catilina (pelos democratas da Virgínia), com Moisés (pelo congressista afro-americano John Mercer Langston) e com Napoleão (por si próprio), Mahone organizou e liderou a aliança política inter-racial mais bem-sucedida da pós-emancipação do Sul. O Partido Reajustador de Mahone, uma coalizão independente de republicanos negros e brancos e democratas brancos, batizada em alusão à sua política de "reajustar" a dívida do estado da Virgínia, governou o estado de 1879 a 1883.

Além do governador, o partido também elegeu dois representantes no Senado dos EUA e seis dos dez distritos parlamentares da Virgínia. Sob a liderança de Mahone, a coalizão controlou a Assembleia Legislativa e os tribunais estatais, além de manter e distribuir os cobiçados cargos federais do estado. De maioria negra, o Partido Reajustador legitimou e promoveu a cidadania e o poder político dos afro-americanos, apoiando seu direito de votar, ocupar cargos e servir nos tribunais do júri. Com uma intensidade nunca vista na Virgínia e sem comparação com qualquer outro estado do Sul no século 19, os reajustadores se tornaram uma força institucional para a proteção e o avanço dos direitos e interesses dos negros.

No âmbito estatal, os reajustadores aboliram o vínculo entre o sufrágio e o pagamento do imposto escolar, permitindo o voto de milhares de pessoas, inclusive entre as mais pobres da Virgínia. Também restauraram e revigoraram a educação pública estatal, além de reduzir os impostos imobiliários e sobre bens imóveis. Proibiram ainda a prática de acorrentar um grupo de presidiários para realização de trabalhos forçados, bem como a de amarrar criminosos num poste para serem chicoteados. Já as prefeituras do partido pavimentaram ruas, construíram calçadas e modernizaram sistemas de água.

Os reajustadores perderam o poder em 1883, em meio a uma campanha democrata de violência, fraude eleitoral e apelos à solidariedade branca. Enquanto os democratas sufocavam as políticas progressistas no estado, outros grupos da elite branca da Virgínia trabalhavam rápido para erradicar a memória do experimento de democracia inter-racial. Eram projetos que se reforçavam mutuamente. Convencidos de que a emancipação dos negros era "a pior maldição que se abatera sobre o país", membros da Associação para a Preservação das Antiguidades da Virgínia (APVA), fundada em 1889, equipararam o domínio do Partido Reajustador com o "governo das massas" e pediram uma redução radical do eleitorado. Após 1900, William Mahone foi rotulado pelos brancos da Virgínia como um traidor racial demagógico com tendências autocráticas. Essa representação foi tão poderosa que, até mesmo nos anos 40, a pior acusação que poderia ser feita contra um candidato da oposição antidemocrata era que ele havia se associado a Mahone e aos reajustadores.

Os negros da Virgínia recordavam as coisas de maneira diferente. Em 1922, o historiador Luther Porter Jackson, formado em Fisk e na Universidade de Chicago, integrou o corpo docente da Virginia State College, uma faculdade fundada pelos reajustadores em 1882 para servir à comunidade afro-americana. Prescrevendo uma combinação de organização política não partidária com memória afro-americana para combater a supremacia branca, Jackson publicou em 1945 o livro Negro Officeholders in Virginia, 1865-1895 ("Funcionários Negros da Virgínia, 1865-1895") numa tentativa de inspirar os cidadãos negros do estado a recordar o poder que haviam tido e recuperar a influência política que exerceram antes da segregação racial.

Enquanto os americanos questionam a história e o significado por trás de monumentos à Confederação, devemos reconhecer o papel essencial desempenhado pela política da memória na violação à igualdade afro-americana. Luther Porter Jackson compreendeu isso, assim como os "tradicionalistas" que construíram monumentos aos generais confederados (mas não a Mahone) e moldaram a história segundo seus objetivos. A cooperação política inter-racial tinha de ser esquecida se os conservadores do Sul quisessem vender a supremacia e a solidariedade brancas como algo eterno e natural, e não como resultado de uma campanha de 30 anos para impor a desigualdade social e a dependência política e econômica dos negros sulistas. O modo como recordamos o passado influencia as possibilidades de nosso futuro. Foi por isso que os democratas brancos apagaram o máximo que puderam da história da democracia inter-racial no Sul, depois de destruí-la.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.

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