OPINIÃO

Descartado do meu folhetim

"Com uma perspectiva clara de vitória, as ruas voltarão a ser tomadas e a chance de o presidente ser investigado aumentará."

04/08/2017 17:51 -03 | Atualizado 04/08/2017 17:52 -03
Adriano Machado / Reuters
"Os fatos envolvendo todo o alto escalão deste desgoverno são fartos e robustos."

A sessão da Câmara dos Deputados que se posicionou contra a investigação de Michel Temer é um múltiplo indicativo em vários sentidos. Foram 227 votos favoráveis ao prosseguimento da denúncia e 263 contrários. O resultado, a princípio desfavorável à oposição e a 81% da população que clamava pelo afastamento do presidente ilegítimo, mostrou-se uma vitória de pirro.

Sabíamos que era impossível atingir os 342 votos necessários e nossa estratégia foi demonstrar a fragilidade crescente da base de apoio de Temer. Apesar das negociatas vergonhosas, explícitas e intermináveis, ele não conseguiu alcançar um quórum que sustente um de seus principais acordos com o mercado financeiro - a reforma da previdência. Além de demonstrar fissuras importantes em partidos estruturantes ao seu governo, como o PSDB.

A tropa de choque saiu do plenário tentando se convencer que o importante era que a denúncia estava arquivada, mas sabe que a guerra está no começo.

Nós, da oposição, comemoramos a diferença de apenas 36 votos entre as duas posições. Um plenário dividido, apesar do jogo pesado da máquina que não teve qualquer escrúpulo no uso do dinheiro público e de medidas provisórias. Mesmo assaltando a previdência, como o perdão em bilhões de dívidas de grandes produtores.

Basta lembrar que, em março de 2016, foram 357 votos pela abertura do processo de impeachment da presidenta Dilma. Nem todos que foram ávidos em afastá-la sem crime e fazer Michel Temer usurpar sua cadeira se dispuseram a salvar a pele do mesmo agora.

O Palácio do Planalto movimentou muito dinheiro para a compra de votos no já desacreditado parlamento. O mesmo, por leve maioria na noite do dia 2 de agosto, traiu mais uma vez a confiança e a expectativa do povo brasileiro.

O povo já vem sofrendo com o sequestro de direitos e esperança, de programas sociais, de emprego, de coberturas das políticas universais de saúde. Além de ser assaltado sem informação ou consulta nas suas riquezas estratégicas nacionais.

Esse processo deixou claro, para a sociedade, a conjuntura que vivemos. Um governo que corrompe para não ser investigado, e parte de parlamentares que se deixa corromper. Isso tudo nos enoja e distancia a população já cansada de assistir tantas maracutaias. Lamentavelmente, este caminho pode nos levar à maior fragilização da democracia.

Não podemos esmorecer. Não podemos nos dar ao luxo de cair em desânimo. Os fatos envolvendo todo o alto escalão deste desgoverno são fartos e robustos. Uma segunda denúncia virá. A luta continua com nosso adversário cada vez mais fraco e com seus aliados cada vez mais ávidos por poder e vantagens. A cada lance, aumenta nossa chance de virar o jogo.

A sociedade precisa, cada vez mais, pressionar os parlamentares que se cumpliciaram com o presidente, principalmente em suas cidades e estados. Com uma perspectiva clara de vitória, as ruas voltarão a ser tomadas e a chance de o presidente ser investigado aumentará. A luta precisa ser ampla e diária, olhando para o futuro.

Em breve, poderemos descartar o nome de Michel Temer de nosso folhetim, mas precisamos mandar com ele a agenda ultraliberal e retomar a possibilidade de escolha dos rumos da nação pelo voto popular.

Como disse em meu voto de quarta, "com a indignação do povo, com a coragem e ousadia da mulher, pelo Brasil e pela democracia, fora, canalhas. Fora, Temer!"

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