OPINIÃO

Prestando atenção em como nos fazemos presentes

16/12/2016 15:03 -02
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Close up of asian women sitting in a park. Eyeglasses girl deep breath fresh air in the park.

A maneira como nos fazemos presentes - para onde direcionamos nossa atenção - está integralmente relacionada à realidade que percebemos como verdadeira. Durante a maior parte de nossa existência, temos vivido dentro de uma determinada faixa repetitiva e estreita de atenção. Como consequência, sentimos tédio e mesmo um certo entorpecimento. Muitas vezes vemos até abrir-se um espaço fora desses hábitos, mas raramente nos sentimos capazes de acessá-lo.

Nossa atenção está habituada a muitos planos: temos uma gama repetitiva de emoções às quais voltamos continuamente; um caminho estreito e viciado de usar nossa visão; uma audição de extensão limitada; um sistema de crença que reduz nosso campo de percepção... e a maneira como processamos tudo isso intelectualmente, o que reforça nossa visão do mundo.

Muitas vezes, uma "crise de meia idade" - ou outros tipos de lutas quando adultos -, estão relacionadas à uma postura limitada de atenção. Começamos a nos entediar com nós mesmos, saudosos de podermos estar presentes no mundo mais espontaneamente. Assumimos que nosso tédio se deve ao mundo exterior, e então recorremos a subterfúgios como "comprar um novo carro" ou "renovar o corte de cabelo". Na maior parte das vezes, estamos inconscientes de que nosso tédio origina-se da prisão criada por nós mesmos, de nossos limitados hábitos de atenção. Perdemos contato com o fato de que o caminho escolhido afeta nosso grau de conecção com o mundo e com a vida em si.

Les Fehmi, precursor no campo de biofeedback(*), estudou, ao longo de quarenta anos, como usamos nossa atenção em diversas situações. Fehmi contrasta duas maneiras de se fazer presente ao descrever um grupo de leões orgulhosamente relaxados em uma savana Africana. Eles respiram devagar, seus músculos estão relaxados e em estado de atenção difuso e aberto. Então, um animal ferido entra no raio de seus olhares e, de repente, os leões se movem a partir desse estado relaxado para outro de intenso foco - unifocalizado. Seus músculos tensionam e seus batimentos cardíacos e taxas respiratórias aumentam. Os leões se deslocam para o "modo emergencial de atenção". Logo que o animal ferido é dominado e se torna a refeição do dia, os leões rapidamente retomam seu estado amplamente aberto, alerta e relaxado.

A maioria dos líderes - e mesmo das pessoas - raramente se encontra nesse estado aberto e relaxado. Como o leão no "modo de emergência", a maior parte de nós está em uma condição crônica de atenção focada. Isso é ótimo para certos tipos de resolução de problemas e perante uma real necessidade de nos situarmos nesse "modo de emergência". No entanto, quando nossa atenção está habitualmente nessa posição, limitamos nosso campo de percepção e vivenciamos um estado incessante de estresse.

Estamos viciados nessa maneira de se fazer presente. Na escola, é comum exigir das crianças que se restrinjam e mantenham o foco de atenção ao longo do dia. Aqueles que não correspondem são muitas vezes vistos como portadores de "Déficit de Atenção". O estado relaxado, alerta e amplamente aberto é menos valorizado. E é ele que nos conduz e conecta a áreas como a criatividade, abrindo o campo para captarmos informações sutis no meio ambiente, acessarmos nossa intuição e ganharmos, assim, uma ampla e visionária perspectiva.

Todos sabemos que é fundamental que os líderes, em particular, mantenham uma perspectiva ampla e profunda sobre a realidade que se desenrola ao seu redor. Os líderes mais eficazes movem-se para frente e para trás com flexibilidade e facilidade entre o estado estreito e focado, e o alerta e aberto. Para a sustentabilidade a longo prazo, é melhor que o modo padrão de se fazer presente, de atenção, seja relaxado e aberto. Existem alguns líderes que fazem isso automaticamente, mas são poucos e estão distantes entre si. Para a maioria, essa capacidade exige desenvolvimento. Deixo aqui algumas maneiras simples a explorar:

1. Feche os olhos e siga o ritmo de sua respiração enquanto ela se move dentro e fora de seu corpo. Não manipule sua respiração; apenas observe-a. Quando você perceber que sua atenção se desviou, gentilmente, sem julgamento, traga-a de volta à respiração. Faça isso por cinco minutos. Ao abrir os olhos, suavize seu olhar e perceba sua atenção. Ela será, naturalmente, mais relaxada e aberta.

2. Quando você está segurando um foco estreito, seus olhos não estão relaxados. Sempre que você pensar sobre isso, relaxe seus olhos.

3. Olhe para a vista à sua frente e leve para dentro o que quer que esteja em seu campo de visão. São boas as chances de que o seu olhar natural estará mais estreitamente focado. Agora, suavize seu olhar, trazendo para sua consciência uma visão periférica mais ampla. Relaxe seus olhos. Expanda e amplie sua visão, levando para dentro todo o campo que está à sua frente. Redirecione, então, sua atenção para o espaço que está entre os objetos, permitindo que o próprio espaço se torne o primeiro plano e os objetos no espaço ocupem o segundo plano ou plano de fundo.

4. Na próxima vez que você estiver em uma reunião, pare por um momento e perceba como está se fazendo presente. Você pode estar ouvindo atentamente algum colega ou concentrando-se em sua agenda. Em seguida, puxe a lente de seu foco para trás e suavize sua visão. Com esse olhar mais suave, observe todo o campo do grupo, sem focar em algo específico. Sustente essa perspectiva por alguns minutos, e veja o que encontra. Observe coisas como a qualidade do campo do grupo, a disposição/estado de espírito, o nível de energia, ou sua mais profunda e intuitiva resposta para as questões que chegam até você. Essa é uma prática particularmente boa quando você está aprendendo a se concentrar no conteúdo (o que realmente está sendo discutido) e os processos (como as questões estão sendo discutidas, incluindo a qualidade do diálogo).

(*) A terapia Biofeedback propõe treinar pacientes a controlar seus processos psíquicos tais como tensões musculares, pressão arterial ou batimentos cardíacos. Na maioria das vezes, esses processos acontecem involuntariamente. No entanto, pacientes que recebem ajuda de um terapista biofeedback podem aprender a manipulá-los conforme desejado. Fonte: Medical News Today

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