OPINIÃO

O relato de Eliza Dushku nos desperta para a consciência da negação do abuso sexual

“Todos nós precisamos assumir alguma responsabilidade...”

23/01/2018 16:22 -02 | Atualizado 23/01/2018 16:25 -02

Courtesy of the author

Recentemente Eliza Dushku publicou o relato de como foi molestada sexualmente durante as filmagens de True Lies, em que eu fiz o papel de sua mãe. Ela tinha compartilhado o relato comigo reservadamente alguns anos atrás. Fiquei chocada e entristecida na época, e ainda estou chocada e triste hoje.

Todos nós começamos a tomar consciência de que os abusos terríveis que hoje viraram comuns no noticiário diário na realidade vêm acontecendo há muito tempo. Uma coisa que não faz sentido é que esses relatos muitas vezes são acompanhados por alegações dos perpetradores de que as vítimas tiveram alguma participação no que aconteceu.

O relato de Eliza nos despertou do sono da negação e nos fez tomar consciência de uma realidade nova e pavorosa: a violência sexual contra crianças.

Faz tempo que eu faço de conta que sou mãe de atores jovens. Mesmo aos 19 anos, quando trabalhei no filme "Halloween" original, eu era a baby-sitter do então ator mirim Kyle Richards. Depois de chegar à idade em que virei mãe no cinema, já representei o papel de mãe do futuro Harry Potter (Daniel Radcliffe) e de Frodo Baggins (Elijah Wood) e já trabalhei com vários outros atores mirins, incluindo Macauley Culkin, Anna Chlumsky e Lindsay Lohan.

É um relacionamento complicado trabalhar com crianças quando lhes é pedido que façam um trabalho adulto com você, em uma área adulta, cercadas por centenas de adultos que querem que as crianças atuem para eles, sendo que elas ainda são inerentemente crianças. Já lutei para entender e aceitar meu papel de mentora, colega, substituta e amiga, e cada relacionamento é individual e singular. Será que somos amigos realmente? Somos colegas de trabalho? As crianças não têm maturidade suficiente para reconhecer essa diferença sutil. Eu tinha tanta consciência de meu eu adulto e de minhas manias de adulto que instituí uma "latinha de palavrões" no set de "Meu Primeiro Amor". Eu sabia que havia crianças presentes e que a linguagem de adultos era inapropriada. Naturalmente, era eu mesma quem mais tinha que colocar dinheiro na latinha, e no último dia das filmagens entreguei o conteúdo da latinha a Macauley e Anna.

Existem medidas de proteção desses atores mirins, válidas em toda a indústria, que são aplicadas há muito tempo e foram instituídas depois de muita luta. Sempre há professores, defensores e familiares adultos ou seus representantes para acompanhar as crianças no set, além de regras rígidas que precisam ser seguidas. Infelizmente, porém, elas são infringidas com frequência, como acontece com todas as regras.

Recentemente ouvimos relatos sobre agentes que molestaram seus clientes, atores mirins, e agora ouvimos esse relato de Eliza Dushku. O que agrava a dificuldade aqui é que o coordenador de cenas de ação em questão era literalmente encarregado de zelar por nossa segurança, de proteger nossa vida. As cenas de ação sempre requerem uma confiança enorme, e nesse filme, em especial, todos nós em vários momentos ficamos suspensos de cabos em lugares muito altos. No meu caso, fiquei pendurada por um cabo debaixo de um helicóptero, segurando a mão do homem que agora está sendo acusado de molestamento sexual.

Espero hoje que o que possa resultar de todas essas denúncias são novas diretrizes e novos locais de segurança onde as pessoas – independentemente de idade, gênero, raça ou profissão – possam compartilhar suas preocupações e verdades. E que todos os molestadores sejam responsabilizados.

Todos nós precisamos assumir alguma responsabilidade pelo fato de a camaradagem descontraída que compartilhamos com nossos atores mirins ter sido acompanhada pela ideia equivocada de que eles são adultos em um mundo adulto, capazes de fazer escolhas adultas.

Muitos de nós que trabalhamos em "True Lies" éramos pais. Jim, Arnold e eu mesma. Pais de meninas. O que teria acontecido com Eliza, longe da rede de segurança formada por nós todos e nossa fiscalização, é uma coisa sobre a qual é terrível tomar conhecimento e ser obrigada a aceitar que aconteceu.

A verdade libertará a todos nós. Esperemos que a liberdade seja acompanhada por uma nova capacidade de denunciar abusos e, quando esses abusos acontecem, de tomar medidas prontas e consistentes, para que ninguém mais precise esperar 25 anos para sua verdade ser ouvida.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

*Este texto foi originalmente publicado no HuffPost US e traduzido do inglês.