OPINIÃO

Helsinque e um novo modelo para atender contas públicas no Brasil

06/04/2016 18:22 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
Divulgação

Outro dia passei alguns minutos olhando para as fotos dos projetos de um concurso público.

Seis finalistas em meio a mais de quinhentas inscrições para ser a nova biblioteca de Helsinque.

Lembro de ter gostado mais da segunda ou da terceira proposta. A primeira parecia um belo projeto, se um pouco convencional.

O acabamento em madeira-de-sauna-de-país-nórdico parecia ter seduzido o júri. E não os culpo, deve trazer boas lembranças.

O segundo e o terceiro, porém, pareciam prédios mais relevantes globalmente.

Duas coisas me vieram a cabeça naquele instante.

1. O fato de continuamos a investir tempo e dinheiro na construção de bibliotecas arquitetonicamente esplêndidas - apesar da sempre iminente morte do livro impresso.

2. O que seria daqueles tantos projetos que não saíram vencedores?

Quase quinhentos desenhos engavetados.

Imagine a quantidade de horas de trabalho sendo transferidas para o HD externo naquele exato momento?

Fazendo um filtro severo, pelo menos uma dezena de excelentes projetos que nunca veriam a cor do sol de Helsinque - e de nenhuma outra cidade.

Pensei, é claro, na minha profissão.

Somos mestres engavetadores.

Quando entrei na faculdade de comunicação, pretendia ser jornalista ou publicitário.

Meu pai ficou um pouco preocupado com a ideia de começar a trabalhar em uma revista ou jornal.

Você nunca vai ganhar dinheiro, só quem fica rico nessa profissão é o dono do jornal, ele me disse.

Eu não pensava em ficar rico e nem em abrir um jornal, mas a perspectiva me assustou um pouco.

Mal sabíamos os dois que pouco menos de um par de décadas depois, estaríamos assistindo a uma crise gigantesca no meio impresso.

Não que a propaganda seja um ambiente mais estável.

Todo o meu esforço é para estar do lado certo da profissão que escolhi, o lado digital (ainda crescendo).

Na época, meu pai também tinha algo a dizer sobre a propaganda.

Ele, que é fotógrafo publicitário, e sempre viveu intensamente o dia a dia das McCanns e Youngs e Siboney e Lintas e Denison, me disse: menos de 5% do que você criar vai para a rua.

Desta vez, a ingenuidade típica dos que ainda nem deram o primeiro passo me fez duvidar da verdade do oráculo paterno.

Não era o caso de ficar rico e nem de abrir uma agência, era só emplacar mais que 5% dos trabalhos para desdizer a profecia.

Cá estou eu tentando vencer os 5%.

Sou um mestre engavetador como todos ao meu redor.

Volta e meia fico com pena das ideias metidas na gaveta e levo uma ou outra delas para passear no layout de outro cliente.

Quem sabe agora?

Aí a situação política brasileira me vem à cabeça - e em dias de Lava Jato é possível pensar em outra coisa?

Penso nas dezenas de agências com contas do governo.

Ter uma conta do governo é meio que ganhar na loteria: verbas fartas, comissões, superproduções com atores da TV (isso sem nem falar nos extras que acabam nas páginas policiais).

Será que não está na hora de rever este modelo?

De parar de pensar em contas do governo como vacas leiteiras?

Que se queremos um novo país depois do atual vendaval, temos muitos outros paradigmas cotidianos a rever?

A nova geração de publicitários deveria olhar a conta pública como se ONG fosse.

Precisamos de planos caros de TV, de páginas sequenciais em revistas e jornais, de papel couchê e verniz?

Devemos pensar em ideias colaborativas, em aplicativos georeferenciados e filmes menos vendedores e mais verdadeiros. Mais conteúdo, menos propaganda.

A nova geração de publicitários não deveria cobrar o governo mais do que cobra de seus clientes convencionais.

Não vou ao limite de dizer que deveríamos aceitar contas da prefeitura de nossas cidades no esquema pró-bono porque temos que ser remunerados corretamente pelo nosso trabalho. Mas é o tipo de conta que não deve visar apenas o lucro.

Mais que isso.

Voltemos aos projetos de gaveta.

Que bom seria se tivéssemos acesso aos designs finalistas de Helsinque.

Um grande banco de projetos a serem acessados em todo o mundo.

Uma biblioteca em Nairobi sendo construída a partir de um projeto finlandês no modelos Creative Commons.

(com a devida adaptação remunerada aos fatores geográficos e climáticos de uma e outra cidade).

Que bom se toda favela pudesse ser reurbanizada a partir de projetos engavetados do chileno Alejandro Aravena, vencedor do Pritzker por suas contruções populares.

Ou a partir do desenho da casa da Dona Dalva na Vila Matilde. Chegaram a ver a casa que fez com 150 mil reais e que acaba de ser premiada também?

Que bom se as campanhas (ou aplicativos) criadas por uma agência multinacional para uma cidade aqui do sudeste brasileiro pudessem ser reutilizadas em um município nordestino ou amazônico.

É tempo para rever conceitos também na propaganda em respeito ao dinheiro público.

As nossas ideias engavetadas para combater a dengue não podem ser utilizadas em outro estado?

Toda vez que um agência conquista uma conta do governo deve-se imaginar que as ideias serão aproveitadas ao máximo.

O dinheiro dos nossos impostos, tão maltratados, sendo bem aplicados. Os 5% se tornando 25, 55, 70%.

Plantas baixas de habitações populares ou hospitais, campanhas do agasalho, design de pontos de ônibus e filmes para a vacinação de gripe disponíveis em todo o Brasil - e no mundo. Um banco de dados, de fotos, de projetos para serem acessados por criativos e planejamentos e secretarias e ministérios.

Não existe política sem um elemento quixotesco e contribuo aqui com a minha dose de cavaleiro errante.

Termino com um trecho do prefácio do Mundo Perdido de Arthur Conan Doyle:

I have wrought my simple plan

If I give some hour of joy

To the boy who's half a man

Or the man who's half a boy.

Talvez este texto tenha sido escrito pela minha metade menino, que não cansa de sonhar. Talvez pelo homem que acredita em um país melhor a partir também de novos modelos em minha profissão.

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