OPINIÃO

Indicado ao Oscar, 'Spotlight' tem muito a nos ensinar sobre jornalismo e catolicismo

31/01/2016 13:54 -02 | Atualizado 27/01/2017 00:31 -02

Me formei em jornalismo em 2013. Antes de entrar na faculdade, acompanhava notíciários da TV, do rádio e os impressos. Entretanto, não era a vontade de noticiar o "dia-a-dia" que me atraía para este curso; mas sim a vontade de contar histórias. Se me pedem para definir jornalismo, é simples: a arte de contar histórias - seja em texto, em áudio, em vídeo; seja sobre uma tragédia ou um escândalo. Sobretudo, a finalidade do texto, áudio, vídeo é, pelo menos, plantar um ponto de interrogação na cabeça de quem recebe esta informação quando falamos de algo que está errado, por exemplo. Se alguém pelo menos refletir, hesitar em uma opinião que antes era concreta, o jornalismo praticado está no caminho certo.

Lembro que no primeiro semestre da faculdade os calouros foram apresentados ao clássico filme Todos os Homens do Presidente - longa de 1976 que narra a história do famoso caso Watergate, escândalo que resultou na queda do então presidente dos EUA, Richard Nixon. A série de reportagens que denunciavam a invasão de cinco homens na sede do Partido Democrata na Casa Branca foi publicada no Washigton Post. Eu era uma foquinha (nome dado aos profissionais que ainda são novos no ramo), mas assistindo ao filme soube que o bom jornalismo requer tempo, paciência e dedicação.

Spotlight: a melhor história dos filmes indicados ao Oscar 2016

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Atores de Spotlight - Segredos revelados

Muitas vezes um jornalista tem um bom texto, mas não tem uma boa história. Resultado: ela não gera impacto. Por outro lado, um texto pode ser perfeito do ponto de vista de objetividade, concisão e gramatical, mas ele tem uma história interessante. Em outos casos, texto e história são bons, mas não chamam o público porque o assunto pode ser considerado chato para a maioria; uma entrevista com um economista, por exemplo. Todos criticam a crise que enfrentamos, mas quantos dão atenção quando especialistas falam por que estamos passando por ela? É chato, né? Mas importante.

Talvez este seja o ponto de Spotligh: Segredos Revelados, longa baseado em fatos reais ocorridos nos anos 2000, indicado a melhor filme no Oscar 2016. O filme conta a tragetória de repórteres que investigam abusos sexuais de padres em crianças. Há uma boa história, contada de uma ótima maneira, mas que não desperta interesse do senso comum porque toca em um assunto que há anos e anos vêm sido varrido para debaixo do tapete no mundo inteiro.

Por que nós (imprensa) não damos importância para a pedofilia presente em igreja, se sabemos que ela existe? Porque o jornalismo atual não "tem" todo o tempo que uma denúncia dessa requer. Mas, por que quando há denúncias, nós (cidadãos), também não damos a devida importância? Quantos se lembram (ou conhecem) da premiada reportagem de Roberto Cabrini, para o Conexão Repórter (SBT) em 2010, que trata do assunto?

Em São Paulo, uma ou outra sala da rede Cinemark (a mais popular por aqui) está exibindo Spotligh. E por que? Porque sabem que não desperta interesse em um país que teoricamente é laico. Porque "parece chato". Porque não tem matança nem sangue. Não tem sexo. Não tem o DiCaprio, Matt Damon ou a Jennifer Lawrence. E por falar nela, Joy: o nome do sucesso, longa protagonizado pela atriz e também indicado a melhor filme no Oscar 2016, está em praticamente todas as salas de cinema da cidade e, frequentemente, há chamadas com o trailer na televisão aberta. Por que? Por que ela é a "queridinha" do momento? E será que se Spotlight tivesse propaganda na televisão aberta o interesse seria maior? É difícil responder a uma pergunta de uma hipótese que sabemos que jamais vai acontecer.

Muito se tem criticado o jornalismo raso que vem sido praticado no país. Não muito tempo atrás, um dos jornais mais importantes do Brasil publicou notícias errôneas em relação ao STF e impeachment. Infelizmente, a "barriga" (quando o jornalista publica uma matéria com conteúdo inverídico) tem se tornado cada vez mais comum. É bem verdade que o sonho de todo jornalista é dar em primeira mão uma notícia, o famoso "furo". Mas, na ânsia pelo furo, muitos não investigam a fundo determinada questão por causa da "falta de tempo" ou do medo de que alguém dê a informação antes, e acabam pecando pelo erro.

Spotlight tem a melhor história dos filmes indicados ao Oscar. Pode "parecer um filme chato", mas ele tem um objetivo maior do que simplesmente entreter, como a maioria dos outros. Sabe quando as histórias infatis tem uma moral da história? É mais ou menos por aí. Ele nos ensina que a pedofilia na igreja católica precisa ser investigada porque, oras, ela existe; ele ensina que é preciso que os pais de coroinhas prestem atenção no comportamento dos filhos. Spotlight retrata uma parte de uma história que se repete e que, infelizmente, pode não ter fim porque acreditam que "isso não acontece na casa de Deus".

O filme chama atenção dos cidadãos, nesse sentido. Mas, sobretudo, de jornalistas que não devem desistir de uma história nem fechar aos olhos para um caso só porque a instituição onde trabalham tem apoio da igreja, por exemplo. Como um bom modelo jornalístico, o longa, embora pareça segmentado aos profissionais de comunicação, faz todo tipo telespectador refletir. Refletir sobre o jornalismo, mas, e talvez mais, sobre o universo da igreja católica.

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