OPINIÃO

A cada morte de um inocente, o futebol morre um pouquinho também

04/04/2016 16:17 -03 | Atualizado 26/01/2017 22:53 -02
Florian Werner / LOOK-foto via Getty Images
Busted football

Quarta-feira, 17 de julho de 2013. Final da Recopa Sul Americana entre Corinthians e São Paulo. Por volta das 21h, devidamente uniformizada com a camisa do Corinthians, pego o metrô na estação da linha verde Santos Imigrantes, com destino ao Pacaembu.

Ao chegar na Clínicas, um bloqueio da Polícia Militar não deixava os torcedores corintianos saírem da estação porque a escolta levava são-paulinos ao estádio e, naquele momento, eles estavam passando justamente pela Doutor Arnaldo. Pouco tempo depois, somos liberados e saímos da estação cantando e correndo - àquela altura faltavam poucos minutos para a partida começar.

Alguns são-paulinos não acompanharam a escolta e acabaram entrando em confronto com corintianos. Sozinha e com medo, corri sem olhar para trás. Nessas horas, para esses "torcedores" não existe diferença de gênero. Eles olham apenas a camisa que você está vestindo. Felizmente, saí ilesa. Mas uma "sequela" ficou: tenho medo de ir a clássicos e não consigo mais sair de casa com a camisa do meu time em dias que o Corinthians joga com seus maiores rivais da capital. É a ditadura futebolística que atinge o torcedor do bem.

Os confrontos entre torcidas organizadas não são novidade no Brasil. Todo mundo sabe que vai dar merda sempre. A PM monta esquema de segurança, mas não adianta. É recorrente. E continuará acontecendo. Afinal, brigas em ruas não resultam em prisão; "torcedores" são levados à delegacia, mas logo depois liberados porque "já esclareceram tudo que aconteceu". E quando há um crime de fato, quando alguém morre, até identificarem quem foi que matou no meio daquele bando todo, nem importa mais. A dor é irreparável e a família só consegue dizer: "nada vai trazer meu filho de volta".

As mortes também não são novidade. Segundo um levantamento não oficial realizado em 2014, pelo menos 101 pessoas foram mortas nesses confrontos nos últimos 26 anos. Desses, 65 foram mortos por tiros.

Neste domingo, dia de clássico entre Palmeiras e Corinthians no Pacaembu, pela manhã, ao ser perguntada se estava confiante na vtória do Timão, respondi "desde que não morra ninguém está tudo certo".

Sim, o meu desejo era de que ninguém brigasse, muito menos morresse. Mas eu sabia que isso é utopia. Pouco tempo, surge a notícia de que um homem morreu após confronto entre integrantes da Gaviões da Fiel e Mancha Alviverde, em São Miguel Paulista. A tristeza, que já se fazia presente, aumentou ao saber que aquele homem nem era um torcedor envolvido na briga, segundo a PM. Era apenas um transeunte que fora atingido por uma bala justamente no coração. Eu não sei se ele estava indo trabalhar. Se estava voltando para casa; para a esposa ou para os pais. Eu nem sei o seu nome, mas eu realmente sinto muito.

Eu realmente sinto muito porque o futebol é motivo de alegria. É entretenimento. Diversão. E é inaceitável que a rivalidade saia do âmbito saudável e atinja níveis que ultrapassam a compreensão humana e faz desses seres homens irracionais.

É dífícil. Porque a cada morte de um inocente, o futebol morre um pouquinho também. Ele perde a força. E, neste instante, deixa de levar alegria para semear e espalhar violência.

Não tenhamos dúvidas de que existem pessoas de bem em torcidas organizadas. Várias delas fazem ações superlegais - como levar alimentos na periferia - que não são abordadas pela imprensa. Sem eles, inclusive, a festa dentro do estádio não seria a mesma. Mas o futebol é paixão. E a paixão inebria e cega. E sabe aquela história "a ocasião faz o ladrão"? Então, se seus colegas estão entrando numa briga, você vai deixá-los brigando sozinho? Para eles parece funcionar assim.

Não culpo a Polícia. Eles falham, sim. E muito. Mas e se todo mundo, torcidas rivais, fossem civilizadas o suficiente para pegar o mesmo trem ou ônibus, e irem juntas ao estádio? Sem violência gratuita? A presença da PM não seria necessária... Mas o futebol é só um pretexto.

Infelizmente, temo que a guerra entre as organizadas nunca chegue ao fim. Porque se um morre, em outro jogo a torcida rival quer vingança e por aí vai. Mas torço, acima de tudo, que isso um dia possa acabar e que esses seres humanos irracionais voltem à racionalidade e que a única "guerra" seja a do grito de incentivo ao time, dentro do estádio.

O Corinthians perdeu o jogo de ontem. Mas pouco importa isso. Hoje, nem Palmeiras, nem Corinthians são mais importantes do que uma vida que foi interrompida precipitadamente. Podia ser a minha. Podia ser a sua.

Pela paz no futebol. E que a rivalidade fique só em campo.

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