OPINIÃO

A falta de liberdade de expressão é pior do que qualquer besteira que você possa ouvir por aí

17/04/2014 08:00 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:23 -02
Reprodução/Youtube

Nos últimos dias, tenho reparado que as pessoas têm estado cada vez menos intolerantes umas com as outras. Aceitar as diferenças - de características e de pensamentos - parece uma tarefa difícil e complicada.

No mês passado, foi o caso do OkCupid versus Mozilla. Resumindo a história, o CEO do Mozilla é contra a união de pessoas do mesmo sexo, e investiu uma grana pessoal em grupos contra o casamento gay. Sabendo disso, a OkCupid colocou uma mensagem-protesto no seu site, que aparecia todas as vezes que alguém abria o seu link usando o navegador Firefox, que é do Mozilla.

Não acho errado protestar contra quem pensa diferente de você, mas veja bem, nesse caso eu acho que o direito de manifestação do CEO da Mozilla, como um indivíduo parte de uma sociedade democrática, estava sendo ameaçado. É como se quisessem que ele se retratasse por sua opinião, sob pena de influenciar os negócios (e a imagem) da empresa que ele dirige. E no final, foi isso mesmo que acabou acontecendo - diante da situação, ele preferiu renunciar. Achei errado - em uma democracia, até quem discorda de você tem o direito de se expressar.

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É o velho dito, geralmente associado a Voltaire: "Posso não concordar com uma palavra do que dizeis, mas defenderei até a morte o seu direito de dizê-las". Se as pessoas não puderem se expressar, ameaçadas por represálias, onde vai parar a nossa tal liberdade?

Daí não precisa muito para se começar a 'esconder' material ao invés de exibi-lo, contextualizá-lo e explicá-lo. Empurrar para debaixo do tapete pode ser mais fácil, mas é sempre menos construtivo. Também na última semana de março, a marca de cerveja Devassa foi criticada na mídia por conta de um patrocínio a reedições de literatura erótica. Um dos títulos, 'Manual de Boas Maneiras Para Meninas', trazia uma frase bem impactante, bem em um momento onde um protesto brada que as moças 'não merecem ser estupradas', em uma crítica à uma recente pesquisa da Ipea.

É uma frase terrível. "Se um vagabundo a encontrar em um local deserto e a agarrar, deixe que ele a f*** de uma vez. É o meio mais seguro de não ser estuprada". Porém, ela foi colocada fora de contexto por quem a criticava. Trata-se de um trecho de literatura erótica de 1926, que satirizava manuais de boas práticas para moças do século XIX. Será mesmo que o ideal é simplesmente sumir com esse tipo de literatura, banindo-a das bibliotecas e do acesso do público, já que hoje consideramos isso um absurdo?

Um amigo provocou dizendo que ninguém deveria apoiar as reedições de Mein Kampf, o famoso livro que conta a 'luta' de Hitler. Pois eu acho que não adianta nada sumir com Mein Kampf da face da Terra. Prefiro que a literatura, por pior que seja, possa ser estudada e compreendida, criticada em suas falhas, esmiuçada, do que confinada em um espaço de 'livros proibidos'. Eu prefiro que a gente 'tire os esqueletos do armário', e entenda por que, como, quando, sob que condições, eles se tornaram argumentos absurdos.

A grande sacada da conversa é permitir que todos possam manifestar suas opiniões. Não adianta sair querendo calar a boca de quem discorda de você, porque é exatamente assim que funcionam regimes ditatoriais, e eu não gostaria de viver em um lugar onde eu tenha medo de dar a minha opinião.

Na mesma toada, um professor de direito da USP manifestou-se em favor da ditadura, mas não foi autorizado a concluir seu pensamento - em meio à sua fala, um grupo de alunos invade a sala de aula e protesta.

Perceba, não é ser contra o protesto dos alunos, mas sim entender que por pior que seja a opinião de alguém, ela tem direito a falar. Ela tem o direito de expressar-se, mesmo que não seja uma argumentação razoável. Quando os alunos invadem a sala e não permitem que o professor explique seu ponto de vista, eles também estão de certa forma censurando-o.

O meu posicionamento pessoal acerca de todos esses assuntos - ser a favor da união entre pessoas do mesmo sexo, ter a certeza de que nenhuma pessoa (homem ou mulher) merece ser estuprada, ou acreditar que a ditadura foi um período sombrio da história brasileira - não se sobrepõe à minha crença de que todos têm o direito de expressarem suas opiniões. Se você vai querer ouvi-los ou não, isso é outra história. Dê atenção a quem desejar. Mas não se pode impedir que alguém fale.

Lógico que quem fala o que quer, pode ouvir de volta algo que não gosta, além de ser devidamente responsabilizado, nos termos da lei, por qualquer crime que cometa ao se expressar - discriminação, perjúrio e calúnia são passíveis de punição - mas em hipótese alguma acredito que podemos impedir que se fale, que se leia, que se veja, que se estude.

A falta de liberdade de expressão me assusta muito mais do que qualquer babaquice que eu possa ouvir por aí.

#NãoMereçoSerEstuprada