OPINIÃO

Menos comédia e mais realidade na terceira temporada de 'Girls'

20/02/2014 16:59 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:04 -02
Divulgação

Em 2013, dois Globos de Ouro foram conferidos a "Girls": melhor série de comédia e melhor atriz de comédia para Lena Dunham, intérprete da personagem principal, Hannah Horvath, que também está por trás da direção e do roteiro. A promessa da HBO chegou, em 2012, para contar a dura realidade de começar a vida adulta, suas comunicações falhas e as incoerências que permeiam a vida moderna, na qual tudo o que parece, na realidade, não é. Se você já está beirando os 30 anos de idade, talvez "Girls" não seja bem a sua praia e lhe pareça até um tanto modorrento. A terceira temporada, aparentemente, a que possui menos vivacidade, escancara verdades incômodas e nos mostra como, de fato, Lena conseguiu captar a alma confusa e inconstante de sua geração. Agora, menos comédia e mais drama, de uma vez por todas.

A temporada começou com Hannah aparentemente feliz e bem-resolvida, de acordo com suas próprias crenças. Enquanto isso, as amigas da personagem também vivem suas vidas à procura de si -- elas nunca sabem quem elas são e isso não chega a ser engraçado. Chega até a ser chato. Mas é quando os elos começam a ser amarrados que percebemos que recorrer à comédia não seria a melhor maneira para registrar estes momentos. A realidade que Lena tanto quer retratar não é nada semelhante à boa vida dos personagens de séries como "How I Met Your Mother" e "Friends" e bem menos glamourosa do que "Sex And The City", a outra série famosa sobre um grupo de garotas que utilizada como comparação constante.

Você até pode ficar um pouco irritado com o SPOILER(se for ficar realmente irritado, pare de ler, agora!), mas é no sexto episódio da terceira temporada de "Girls" que sua personagem principal, Hannah Horvath (Lena Dunham), finalmente tem, talvez, o maior choque de realidade que lhe era preciso. Ao conversar com os colegas de trabalho do novo emprego, uma seção publicitária na Revista GQ, ela diz que não nasceu para a publicidade e que seus talentos de escritora eram maiores do que aquilo. Logo, descobre que todos os seus colegas também são escritores com currículos bem mais invejáveis do que o dela, mas trabalham ali há cinco anos e escrevem apenas -- quando escrevem -- nas horas vagas. O corte do cordão umbilical de Hannah com a sua vida dos sonhos um tanto quanto fantasiosa para seu currículo lhe parece mais doloroso do que quando seus pais lhe contam, lá na primeira temporada, que não irão mais sustentá-la.

A medida em que as personagens vivem apenas pelo seu belprazer e pela urgência das coisas, as relações de amizade também são abaladas e parece ser uma perda de tempo passar um final de semana com as velhas amigas em uma casa na praia, como Marnie Michaels (Allison Williams) propõe às outras três garotas (Shoshanna, Jessa e Hannah) no sétimo episódio. "Vamos mostrar no Instagram que ainda nos divertimos juntas", diz uma Marnie deseperada por uma reconciliação quase desnecessária durante a viagem. Elas não deixaram de ser amigas, no fim das contas. Estão preocupadas em viver suas próprias necessidades em um mundo no qual é mais importante "o que vai ter" em certo lugar do que as pessoas que supostamente se ama que estarão lá. Em busca dessa tal diversão, Hannah convida seu ex-namorado e ex-colega de apartamento gay Elijah para levar seus amigos à casa, antes que aquilo se tornasse vazio ou insuportável.

As quatro garotas de "Girls" e os personagens que as rodeiam são espelhos, mas não são exemplos e nem ao menos ídolos de uma geração. Se mostram como um retrato daquilo que somos e não gostaríamos de ver. Seus inconformismos, antes caricatos, se desenvolvem e mostram aos espectadores que, por detrás das roupas descoladas e da trilha sonora envolvente, "Girls" é mais drama do que comédia porque, a medida em que os dramas adolescentes são deixados para trás, a vida se torna cada vez menos interessante do que -- ironicamente -- assistíamos nos seriados da TV.