OPINIÃO

A bossa nova que virou um choro

18/08/2014 13:29 -03 | Atualizado 26/01/2017 21:52 -02
Getty Images

Neste domingo (17), assistindo ao Fantástico, as palavras sinceras de Otávio Müller em uma das matérias do programa me fizeram ir além da televisão inercial costumeira do dia da semana. Otávio, em uma reportagem sobre a tendência depressiva nos comediantes, contava que sofria da doença e focava uma de suas maiores dificuldades: a inércia, que, longe dá preguiça, respeita as leis da física e realmente deixa os depressivos ali, naquele lugar, por mais que o mundo girasse e necessitasse das suas ações. Uma carga que, muitas vezes, se torna insuportável para quem a carrega e que se esconde atrás de muitas mentes criativas como as de Robin Williams e Fausto Fanti, que nos deixaram recentemente.

Eu tenho depressão e tive que aprender que isso não existe apenas nas letras do Radiohead. Meus dias felizes são preto-e-branco, minhas conquistas são mais insignificantes do que receber uma bala de troco e escrever um texto qualquer, para quem sempre foi amiga das palavras, é uma tarefa hercúlea - o perfeccionismo é cada vez mais apurado, mas entra em uma luta direta com a ansiedade e a falta de atenção, que me leva a fazer qualquer outra coisa que não seja chegar ao final. Com isso, me tornei uma acumuladora de livros, revistas, projetos, sonhos e de diversas outras coisas que planejo ou planejava fazer. É como se meu passado se transformasse em um filme inspirador que fracassei em reproduzir na vida real.

Desde o começo do meu tratamento, raramente me passou pela cabeça que iria ter coragem de expor isso a alguém de maneira tão fácil (e, ao mesmo tempo em que escrevo este texto, me preocupo se alguém vai duvidar das minhas boas intenções). Mas foi com a atenção que a mídia ofereceu - de maneira atrasada, claramente - à doença durante as últimas semanas que a necessidade de quebrar barreiras falou mais alto. Eu ainda estou no começo, me adapto ao tratamento, aos melhores horários da terapia, mas já tenho a plena consciência de que é possível conviver com este problema como se fosse a minha rinite. E que não há nada de estranho ou de louco com quem é surpreendido por ele - tal qual também não é estranho ou louco assumi-lo publicamente.

Dados de 2013 do Ministério da Saúde apontaram que cerca de 17 milhões de pessoas são vítimas da depressão no país. Ela, que pode ou não ter precedentes de tristeza, não pede licença e nem te deixa escolha. Mas é difícil distinguir, ao começo, se você está passando por um momento triste ou por um problema sério. Afinal, quando você se queixa, geralmente ouve um conselho como "ah, eu também tive meus dias tristes...". Só que tudo diminui e você se torna uma pessoa pequena, por mais que quase ninguém perceba a sua necessidade de sair dali. No meu caso, precisei ir a um pronto socorro - estava com o corpo inteiro dormente - para que me receitassem um ansiolítico e me orientassem a pedir por ajuda - isso ocorreu apenas no início deste ano, após um tempo me sentindo mal. Neste momento, eu já havia desistido de meus próprios problemas e assistido às seis primeiras temporadas de Mad Men - era a única coisa que eu tinha vontade e coragem de fazer. A vida, que era bossa nova, se transformou em um choro. O meu choro inconstante, no caso.

Eu me sinto um pouco melhor ultimamente. Tenho picos alegres e tenho baixas tristes com muita facilidade, mas manter o foco nas coisas boas da vida é uma boa companhia para o tratamento. Vários sinais físicos tiveram uma recompensa bastante positiva. E não abandonar a vontade de tratar este como um evento passageiro que, em breve, se tornará apenas uma recordação chata, é essencial. O pensamento positivo não é constante, mas a presença dele é uma benção - por mais que esta seja uma pedra de sapato das grandes.

Este problema não deve ser um tabu. Deve ser uma miopia - que, se não tratada, pode levar à cegueira. Um colesterol alto - que, se não tratado, pode trazer complicações para o coração. Deve ser consciente. Tolerado. Abordado abertamente e cortado pela raiz.

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