OPINIÃO

Como entender o apoio à violência policial?

Bala perdida matou a adolescente Maria Eduarda em uma escola do Rio de Janeiro. PMs são investigados.

03/04/2017 16:36 -03 | Atualizado 03/04/2017 18:49 -03
Divulgação
Morte de Maria Eduardo no Rio gera investigação sobre tiros vindos da própria Polícia Militar.

Na semana que passou policiais executaram assaltantes já rendidos em frente a uma escola em Acari, Rio de Janeiro.

No mesmo dia, na mesma localidade, uma menina de 13 anos, que participava de um projeto esportivo em sua escola -- e, graças a ele, iria estudar numa escola particular com bolsa -- foi executada com três tiros que também partiram de policiais da operação.

Familiares, professores e colegas ligados ao projeto ficaram arrasados e revoltados com a morte e o fim de um sonho de Maria Eduarda e falaram sobre violência policial e genocídio negro.

Agora mais de 50 mil pessoas assinaram o abaixo-assinado a favor dos policiais daquela operação.

Sabem, uma vez, à época das chacinas em Osasco, ouvi de pessoas com boa educação formal, alto nível de renda e moradoras de regiões nobres de São Paulo que "se de 18 pessoas mortas só duas não fossem bandidos, tudo bem, vão ter quebrado um galho pra nós e virarão borboletas na próxima vida".

Aquilo me doeu, porque eu senti e vi ali o pensamento de uma grande parte da população, que corrobora, e no limite PERMITE, que haja abuso de força policial desde que não as incomode.

Quer dizer, desde que bandidos estejam morrendo, tudo bem que bandidos de farda estejam matando pessoas inocentes, chamemos isso de efeito colateral ou "quebra galho".

Vocês percebem o quão perverso é isso? Eu não saberia descrever mais claramente esse fenômeno.

"Enquanto matarem esses bandidos tudo bem morrer alguns inocentes longe de mim" é o que pensam muitas pessoas.

E eu resumo com "longe de mim" porque se esses tiroteios tivessem ocorrido no Itaim, por exemplo onde viviam essas pessoas, elas iam conseguir se colocar no lugar, elas iam pensar "nossa, poderia ter sido eu ali na padaria, ali na lanchonete, ali no barzinho!".

"Poderia ter sido eu" é um portal para empatia, mas é muito difícil adentrar esse portal para quem não teve as mesmas vivências.

Quando falam em genocídio negro temos de ouvir porque as estatísticas mostram onde e como são os que mais morrem nas ações policiais: de acordo com da Anistia Internacional, apenas no Rio de Janeiro, 79% das pessoas assassinadas por policiais entre 2010 e 2013 eram negros e 75% eram jovens de 15 a 29 anos.

Temos que ouvir quando uma família se revolta porque convive com algo que nós não convivemos.

Temos que ouvir pais, amigos e professores de Maria Eduarda e de tantos outros jovens mortos numa guerra que não compraram, porque podemos ser parte da pressão por uma polícia mais bem treinada, mais bem remunerada, menos homicida, mais eficiente em proteger do que executar sumariamente.

Se realmente quisermos um Brasil mais seguro para todos, ouvir é nosso dever.

*Este artigo é de autoria de colaboradores do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o Huffington Post é um espaço que tem como objetivo ampliar vozes e garantir a pluralidade do debate sobre temas importantes para a agenda pública.
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