OPINIÃO

Google aprova licença-paternidade de 3 meses: O que a medida tem a ver com igualdade?

A medida não é uma conquista só dos pais, mas também das mães, dos empregadores e da sociedade.

07/07/2017 16:51 -03 | Atualizado 07/07/2017 16:51 -03
Sean Gallup via Getty Images
Na foto, o alemão Olivier brinca com seus filhos durante sua licença. Na Alemanha, casais têm 14 meses de licença para dividir entre os dois.

Nessa semana, o Google divulgou uma nova política global para licença-paternidade: agora seus funcionários poderão usufruir de 12 semanas de licença remunerada após o nascimento dos bebês.

Outras grandes empresas caminham na mesma direção:

  • A Netflix passou a oferecer até um ano de licença para pais e mães, com possibilidade de escolherem quando querem voltar e como podem dosar a carga horária nesse período. A medida foi tomada em julho de 2015;
  • A Microsoft passou a oferecer 20 semanas de licença-paternidade em agosto de 2015;
  • O Facebook passou a oferecer 16 semanas de licença-paternidade em janeiro de 2016;
  • A Natura passou a oferecer 40 dias de licença-paternidade, a medida teve início em maio de 2016;
  • O Twitter passou a oferecer 20 semanas de licença-paternidade em julho de 2016.

Embora tenham sido decisões institucionais de empresas privadas, a legislação também caminha para uma atualização perante novos modelos de paternidade. Em março do ano passado, foi sancionada a ampliação da licença-paternidade de cinco para 20 dias para empresas cadastradas no 'Programa Empresa Cidadã'. Participam desse programa empresas como Avon, Unilever e Grupo Boticário.

A medida foi celebrada por diversas pessoas. Porém, em um Brasil onde muitos homens ainda dizem que "não teriam nada para fazer em casa" no período da licença, é necessário explicar a importância dessas novas políticas. Soma-se a essa barreira cultural a visão empresarial retrógrada de que medidas como essas podem diminuir a produtividade e o lucro.

Podemos argumentar que a divisão sexual do trabalho, na qual esperamos que mulheres realizem o trabalho não remunerado doméstico e que homens apenas trabalhem fora de casa, sustenta estereótipos de gênero que podam ou mesmo impedem que os homens tenham rotinas mais próximas de seus filhos e sobrecarregam as mulheres no processo.

Um indicativo desse fenômeno é que muitos homens ainda preferem não usufruir do benefício da licença, pois têm medo de como serão vistos por seus chefes, Estes geralmente são mais conservadores em relação aos papéis das mulheres e homens. É o que mostra uma pesquisa da Deloitte publicada em junho de 2016, segundo a qual 57% dos homens afirmaram achar que os colegas os julgariam mal se um pai tirasse o mesmo tempo de licença que uma mãe.

Está mais que claro que o modelo tradicional, no qual se espera que os pais sejam apenas provedores de renda, precisa mudar. Não só pelas mudanças recentes no comportamento social e surgimento de novos paradigmas, mas também porque já existem pesquisas e estudos de caso comprovando que funcionários mais felizes produzem mais. Afinal, o próprio argumento econômico acaba por sustentar uma transformação necessária no mercado de trabalho.

A mudança social trouxe mudança na visão sobre satisfação e qualidade de vida das pessoas no mercado de trabalho, afetando assim produtividade e busca por empresas que melhor se adequem ao novo perfil.

Enquanto alguns empresários afirmam que o país precisa produzir, nós dizemos que produziremos ao máximo quanto melhores forem as condições de trabalho. E isso inclui oferecer aos pais a oportunidade de colaborar com afeto e tarefas tais quais as mães colaboram.

Nesse cenário, o pai não 'ganha' por ficar em casa 'sem ter o que fazer'. Ele ganha porque pode participar com a mãe da ligação com o filho. Enquanto isso, a mãe ganha porque sabe que, em um lar onde está conseguindo dividir as tarefas, voltar a trabalhar não vai ser tão dolorido. Talvez até sua dupla/tripla jornada passe a não existir da maneira que via com suas antepassadas. Nesse ciclo, já são duas pessoas com melhores condições de produtividade. Parece positivo para a empresas, não?

Ainda hoje temos empregadores olhando para mulheres como um risco potencial apenas pela possibilidade de serem mães. A licença-paternidade ampliada é importante para a igualdade de gênero porque só conseguiremos incluir e manter mais mulheres no mercado de trabalho se quebrarmos barreiras culturais que influenciam em como os empregadores as enxergam.

Olhando para a cadeia toda, a licença-paternidade não é uma conquista só dos pais, mas também das mães, dos empregadores e da sociedade.

*Este artigo é de autoria de colaboradores ou articulistas do HuffPost Brasil e não representa ideias ou opiniões do veículo. Mundialmente, o HuffPost oferece espaço para vozes diversas da esfera pública, garantindo assim a pluralidade do debate na sociedade.

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